1168 – Gabriel Levy apresenta “Terra e Lua” no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo

Disco contemplado pelo ProAc reúne 11 faixas e é uma soma da música brasileira com o universo de músicas do mundo no qual ele está envolvido desde o começo de sua carreira, no início dos anos da década de 1980

O Museu da Casa Brasileira (MCB) promoverá neste domingo, 24, apresentação com Gabriel Levy, em mais uma rodada da 20º temporada do projeto Música no MCB. Compositor, produtor e acordeonista, Levy estará no palco do terraço a partir das 11 horas para, ao lado de músicos amigos, executar as onze faixas do seu álbum de estreia, Terra e Lua, que traz composições inspiradas nas tradições regionais brasileiras.

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1167 – Trio que Chora lança Onze, segundo álbum do grupo paulistano, no Atelier Paulista

Novo disco segue a linha do álbum de estreia, Setembro,  destacando a diversidade rítmica brasileira por meio da fusão do choro com o baião, frevo, samba, marabaixo, boi e arrasta-pé entre outros gêneros

O Trio que Chora, formado por Martha Ozzetti (flauta), Rosana Bergamasco (violão sete cordas) e Cássia Maria (percussão e voz) lançará na quarta-feira, 20 de março, o segundo álbum de sua trajetória, Onze, que renovará a discografia aberta com Setembro (2012). A apresentação, com entrada franca, deverá começar a partir das 20h20 horas, no Atelier Paulista, situado na rua rua Amália de Noronha, 301,  Sumarezinho, bairro da região de Pinheiros, em São Paulo.

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1166 – Álbum de Vitoria Maldonado e Ron Carter reúne obras pessoais e clássicos dos Gershwin, Cole Porter, Tom e Vinicius

Brasil L.I.K.E. conta com participações de Roberto Menescal, Nailor Proveta e Toninho Ferragutti e foi gravado com orquestra regida por sobrinho do tropicalista Rogério Duprat, mais trio que acompanha o norte-americano 

Há pouco mais de um ano, a cantora, compositora e pianista paulistana Vitoria Maldonado gravou com o baixista, compositor e arranjador norte-americano, pela gravadora Summit Records (com distribuição a cargo da Tratore), o álbum Brasil L.I.K.E. (Love, Inspiration, Knowledge, Energy) enviado gentilmente à redação pelos amigos Moisés Santana e Beto Priviero, da Tambores Comunicações, aos quais mais uma vez agradecemos. Em tradução livre, Love corresponde a Amor, I a Inspiração, K a Conhecimento, e e a Energia.

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1165- Kuarup lança “Canta Inezita”, álbum que homenageia Rainha da Música Caipira

Consuelo de Paula, Maria Alcina, As Galvão e Cláudio Lacerda interpretam 15 clássicos eternizados na voz da dama da viola,  a imortal Inezita Barroso

Ontem, 8 de março, data dedicada ao Dia Internacional da Mulher, completaram-se quatro anos da morte de Inezita Barroso — apenas quatro dias depois de ela ter completado 90 anos de vida.  Em homenagem à data global e para reverenciar a memória e a obra da Rainha da Música Caipira, o selo Kuarup lançou nas plataformas digitais e nas lojas Canta Inezita, aproveitando o espetáculo gravado ao vivo reunindo intérpretes de diferentes estilos e gerações no teatro do SESC Santo André, em São Paulo, nos dias 17 e 18 de agosto de 2018, com sucessos da apresentadora do programa Viola Minha Viola, cantora, atriz, violonista, professora e folclorista, uma das principais personagens da história da música popular brasileira. O álbum, gentilmente enviado à redação pela Kuarup, pelo qual mais uma vez agradecemos ao amigo Rodolfo Zanke e equipe, foi o escolhido para as tradicionais audições aos sábados pela manhã neste dia 9 de março aqui no Barulho d’água Música.

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1164 – Com novo show, Oswaldo Montenegro cantará em evento de aniversário de Barueri (SP)

Agenda do cantor de Bandolins inclui apresentações em várias cidades ao lado de Renato Teixeira em outro projeto do Menestrel

Em comemoração ao aniversário de 70 anos de emancipação político-administrativa de Barueri, em 26/3, a Secretária de Cultura e Turismo da cidade situada a 26 quilômetros da cidade de São Paulo, lindeira a Oeste pela rodovia Castello Branco,  organizou uma agenda de eventos para durar todo o mês, com atrações e atividades para toda a família.  Para este domingo, 10/3, está previsto que o cantor e compositor Oswaldo Montenegro deverá apresentar gratuitamente o show O Azul e o Tempo, no Parque Municipal Dom José,  gratuitamente, a partir das 11 horas.

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1163 – Samba paulistano deve a Geraldo Filme, o “Geraldão da Barra Funda”, o respeito e a força que sepultaram o estigma de “túmulo” do gênero

O carnaval, mais uma vez, trouxe alegria e foi festejado em várias cidades brasileiras, com destaque maior da mídia para os desfiles das escolas de samba das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, ainda consideradas, ambas, as mecas nacionais onde, por excelência, o gênero mais se afirmaria e seria popular, muito embora ocorra com igual força e movimente astronômicas cifras, também, em outros estados do país, entre os quais, sem sombra de dúvidas, Bahia e Pernambuco, onde Salvador e Recife, suas capitais, fervem nos dias de folia dedicados à festa de Momo.

São Paulo, entretanto, nem sempre foi reconhecida e considerada reduto desta manifestação que mescla elementos da cultura popular brasileira com valores de suas vigorosas raízes, a mãe África negra — haja vista que durante muito tempo ficou estigmatizada como suposto “túmulo do samba”, termo que se popularizou e pespegou após a  célebre frase do poeta e compositor Vinícius de Moraes. O devido reparo que corrige esta bobagem e erro histórico e os atiram à vala mais profunda da qual jamais deverá ressuscitar, revelando a grandeza e a riqueza do samba paulistano, ganham corpo com as obras de expoentes como Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Germano Mathias e Osvaldinho da Cuíca, mas além deles, enterrando a “atravessada” infeliz do Poetinha4um outro nome já se levantava como militante, cantor e compositor contra a propalada e suposta hegemonia carioca como única capaz de promover o ziriguidum e fazer reboar, sobretudo fora dos morros, os tamborins: Geraldo Filme.         

Nesta atualização que o Barulho d’água Música mais uma vez traz das páginas da Revista E do Sesc de São Paulo, reproduzindo, agora, matéria publicada em junho de 2015 em sua edição número 228, os amigos e seguidores poderão conhecer um pouco mais sobre Geraldo Filme, cuja biografia e feitos ainda hoje não recebem os devidos louros. Intitulada “Filme, prosa e samba”, a matéria da Revista E apresenta Filme como autêntico e incansável defensor “de uma matriz para o samba da pauliceia e estudioso da cultura negra”, que “fez de seu universo uma cartografia cultural da cidade”.

Linque para a matéria original da Revista E 228, de junho de 2015

Mano da Barra Funda

Geraldo Filme nasceu em 1927 e morreu em 5 de janeiro de 1995, na cidade de São Paulo, em decorrência de complicações de diabetes e pneumonia. Seu nome artístico é uma redução do completo, Geraldo Filme de Souza. Em seu registro de nascimento original, entretanto, consta que teria nascido em 1928, em São João da Boa Vista¹, no interior paulista, embora ele mesmo tenha declarado inúmeras vezes que a primeira data é a correta. Seja como for, cresceu no bairro paulistano da Barra Funda [onde também viveram Mário de Andrade e Inezita Barroso], o que lhe rendeu o apelido de “Geraldão da Barra Funda”. O menino entregava marmitas feitas pela mãe, Augusta, que era dona de pensão.

O pai, seu Sebastião, e a mãe eram filhos da última geração do sistema escravista e gostavam de música. O pai tocava violino e a mãe era uma das organizadoras da romaria nas festas do Bom Jesus de Pirapora [promovidas na cidade de Pirapora do Bom Jesus, na região Oeste da Grande São Paulo, a 54 quilômetros da Capital]. “Nesses eventos se praticavam diversos estilos de samba rural, samba de bumbo, samba de lenço, partido-alto, música caipira e jongo”, contou à Revista E a cantora, antropóloga e doutoranda em Música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)Bruna Prado². “A formação musical do sambista se inicia ainda criança, ao frequentar as festas do Bom Jesus de Pirapora e as rodas de samba informais organizadas por trabalhadores braçais nas ruas do bairro da Barra Funda, onde ele entregava marmitas. Além disso, havia a influência do carnaval de rua, dos blocos carnavalescos e do samba veiculado pelas rádios”, relembrou Bruna.

Além do samba na memória de infância, outra relação a ser considerada é com a cultura caipira, apresentada ao menino pela avó, que o ensinava cantos negros de trabalho escravo. “Geraldo seria um defensor dessa matriz cultural para o samba rural paulista”, observou Bruna.

Dinâmica dos bairros

Junto à Barra Funda, outros bairros paulistanos formaram uma espécie de cartografia cultural necessária para mergulharmos no universo musical de Geraldo Filme – Campos Elíseos, Bixiga e Liberdade –, entre eles. Para o professor de História da África da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Amailton Magno Azevedo, estudioso da memória musical do sambista e sua relação com os grupos negros em São Paulo, a dinâmica dos bairros foi vital para essas agremiações.

“Neles percebi que havia uma rede e um circuito de informações, vivências, produção artística, religiosa e política na qual os negros demarcavam seus interesses e visões de mundo”, disse. “E Geraldo Filme percebeu isso ao se conectar numa rede negra. Essas experiências foram por mim chamadas de ‘microáfricas’, que foram sendo operadas de modo alheio aos projetos hegemônicos de cidade.Segundo Azevedo, as “microáfricas” são experiências de resistência cultural. “O samba, o carnaval e os costumes negros tiveram de produzir estratégias para persistir com seus valores e signos culturais”, reforçou.

Cordão carnavalesco em uma das ruas da Barra Funda, na década dos anos 1940, uma das influências da obra de Geraldo Filme (Crédito: Instituto Moreira Sales)

Universo particular

Gênio para uns, pioneiro para outros, Geraldo Filme constrói uma obra que se consolida com o passar dos anos. É difícil imaginar a configuração do samba paulistano sem suas ações, seu pensamento e valores, que revelam o artista atuante e consciente. Tanto que não é possível delimitar o alcance de suas composições. Era, de fato, uma cabeça pensante do samba na cidade. “Um sambista da melhor qualidade, que pensou a formação genética do samba, estabelecendo uma identidade cultural que ia além do gênero musical”, pontuou o compositor, produtor musical e fundador do Grêmio Recreativo de Resistência Cultural Kolombolo diá Piratininga, Ricardo Dias.

Geraldo Filme questionava um modelo predominante de samba, no caso, o carioca, entre os anos 1920 e 1940. “Por um tempo foi determinado o jeito carioca para o Brasil, como se o malandro do Rio de Janeiro fosse o ideal. Ele foi um cara diferenciado e lutava pela valorização do sambista. Por muito tempo as escolas de samba tiveram um crescimento midiático e o sambista ficava em segundo plano, e ele questionava esse cenário”, observou Dias.

A vontade de se destacar do sambista se mostrou cedo, aos 10 anos de idade, ao dar forma à primeira composição. Em 1937, o pai de Geraldo Filme voltava de uma viagem ao Rio de Janeiro exaltando as qualidades do samba carioca. O menino então, escreveu, inspirado pelo pai, Eu Vou Mostrar (Eu vou mostrar/Que o povo paulista também sabe sambar/Eu sou paulista, gosto de samba/Na Barra Funda, também tem gente bamba/ Somos paulistas e sambamos pra cachorro/Pra ser sambista não precisa ser do morro).

Já é possível notar a força do verbo que prevaleceu nas canções que despontariam durante sua vida. “As composições de Geraldo são carregadas de discurso social, étnico, cultural, político e sociológico”, qualifica-o o sambista, sociólogo e pesquisador do Instituto Cultural Samba Autêntico T. Kaçula. Para ele, o compositor conseguia dizer o que queria mesmo tendo a ditadura e a censura pela frente.

Com os bambas

O talento de Geraldo Filme não se limitava aos contornos do samba. Foi amigo do dramaturgo Plínio Marcos e teve um grande encontro com o poeta e folclorista Solano Trindade, que foi tema do samba-enredo vencedor do carnaval de 1976, pela escola Vai-Vai. Tendo Plínio Marcos como referência, Geraldo Filme conheceu atores, militantes de esquerda e intelectuais.

O escritor e dramaturgo Plínio Marcos foi um dos contemporâneos de Geraldo Filme

De acordo com Bruna Prado, esse movimento permitiu que ele adquirisse capital simbólico e pudesse atuar pela institucionalização das escolas de samba. “Além disso, promoveu a obra dos sambistas de São Paulo nacionalmente, fazendo com que saíssem de seus redutos e entrassem em contato com a televisão e a indústria fonográfica”

Ao promover o samba e discutir questões sociais – articulação complexa na época –, Geraldo Filme enfrentava a repressão. “As escolas de samba eram os quilombos urbanos”, comparou Dias. O sambista ajudou na organização dos cordões e blocos carnavalescos que se tornariam as escolas de samba; também foi presidente da União das Escolas de Samba de São Paulo. “A ligação dele com o Plínio Marcos não era à toa. Era momento de repressão e ele soube se posicionar com maestria. Deve ter sofrido muito, ainda hoje é difícil colocar em prática o seu pensamento”, comentou Dias.

Em trajetória consistente, atuou como compositor, diretor e conselheiro de escolas de samba. A empreitada tem resultado único. O disco que levava seu nome foi lançado nos anos 1980 pela gravadora Eldorado. Dois anos depois, gravou com Tia Doca da Portela e Clementina de Jesus um dos grandes álbuns da música popular, O Canto dos Escravos.

Mais do que sambista, Geraldo Filme é considerado um mediador, criando pontes, “uma comunicação entre os bairros paulistanos e entre São Paulo e o resto do Brasil”, opinou Bruna. Para ela, mesmo que outros sambistas, como Adoniran Barbosa, já tivessem atuado dessa maneira, a importância de Geraldo Filme também está no fato de ser negro e neto de escrava. “Portanto, era representante de um grupo étnico marginalizado que estava atuando politicamente e ganhando voz ao longo do século 20”, completou.

Dedo do gênio

Os pesquisadores Amailton Magno Azevedo, Bruna Prado e Ricardo Dias destacaram fatos e características que marcaram a vida de Geraldo Filme e ecoaram na história do samba:

Amizade com Plínio Marcos: O dramaturgo apresenta Geraldo como legítimo poeta do povo brasileiro no encarte de seu único disco solo, lançado em 1980. Antes, em 1974, Plínio Marcos deixou clara a sua admiração pelo sambista e pelo gênero, ao gravar Nas Quebradas do Mundaréu, reunindo Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro e Zeca da Casa Verde, que tiveram as canções intermeadas pela voz do dramaturgo. O disco raro foi reeditado em CD pela gravadora Warner em 2012.

Sem essa de túmulo do samba: Geraldo Filme demoliu o clichê de ser São Paulo o túmulo do samba. Com ele, a cidade é libertada do silêncio inventado no túmulo. Instituiu um lugar ímpar para o samba, com memórias rurais e religiosas dos tambores de Pirapora do Bom Jesus. Driblou a narrativa que insiste em silenciar as memórias sonoras paulistas e valorizar apenas os ruídos de fábricas, automóveis e outros sons urbanos. Na memória dos sambistas, “Seu Geraldo”, ou “Geraldão da Barra Funda” [outros apelidos que teve são Tio Gê”, dado pelas crianças, “Corvão” e na infância de”Negrinho das Marmitas”] é sempre lembrado como o músico responsável pela instituição do samba paulistano.

Respeito é para quem tem: Última faixa de seu único disco solo, a canção Reencarnação fala da importância de o negro se assumir como indivíduo e como cultura, abordando os ancestrais, o sagrado e profano. Reencarnação está para o samba de São Paulo como Negro Drama, dos Racionais Mc’s, está para o rap e o hip-hop. O rap brasileiro deu sequência social e política iniciada pelo samba daquele período. O papel do grito do oprimido não é só música, mas cultura.

Foto gerada a partir de imagem captada por Rodrigo Gutiérrez em 2016 para o programa da Rede Globo Antena Paulista, que traz informações sobre o samba de bumbo, uma manifestação  típica de Pirapora do Bom Jesus, considerada o berço do samba paulista e lugar que ajudou a moldar tanto o talento, quanto a devoção de Geraldo Filme ao gênero mais popular do Brasil

Ainda na memória

O Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc da cidade de São Paulo reuniu músicos e pesquisadores em ciclo de palestras para analisar o legado de Geraldo Filme motivado pelos 20 anos de ausência do cantor e compositor, no mês de maio de 2015. Promoveram um ciclo em homenagem ao compositor paulistano – Sambista Imortal da Pauliceia: 20 anos sem Geraldo Filme. Durante as palestras, a importância do compositor foi debatida em três mesas compostas por sambistas e pesquisadores da área: Kelly Adriano Oliveira, Fernando Penteado, T. Kaçula, Simone Tobias, Bruna Prado, Renato Dias e Amailton Magno Azevedo.

“Na primeira mesa foi abordada a herança africana de Geraldo Filme, no segundo dia foram trazidos à tona os aspectos rurais que permeiam a obra do compositor de Batuque de Pirapora, e o ciclo terminou debatendo o seu legado para o samba urbano paulista”, explicou Flávia Prando, pesquisadora do CPF responsável pela programação do ciclo em homenagem ao sambista. “É uma obra que possui caráter de crônica cotidiana calcada na crítica social, que denuncia os males do progresso e as discriminações étnico-raciais vividas pelas classes sociais menos privilegiadas, mas que não abre mão, em momento algum, da profundidade estética.

Anjo discriminado 

Tanto na infância,  quanto na vida adulta, Geraldo Filme participou da festa de Bom Jesus de Pirapora onde havia grande participação da população negra. Discriminados, durante essa festa os negros ficavam alojados em barracões fora da área urbana. Ali, após a parte religiosa do evento, eles se divertiam com samba de bumbo e outras danças então comuns à população negra do Sudeste. Certa vez, quando Geraldo Filme era menino, sua mãe, pagando uma promessa, o vestiu de anjo. No entanto, o organizador da festa o proibiu de andar na procissão com outras crianças vestidas de anjo, por ser negro. Revoltada sua mãe jogou fora as asas e o levou ao barracão onde os negros faziam suas festas, onde não eram discriminados. Essa ocorrência o teria marcado ao ponto de, na vida adulta, inspirá-lo a compor o samba Batuque de Pirapora.

Geraldo Filme foi testemunha participante das antigas manifestações culturais populares de São Paulo, sobretudo das, então reprimidas manifestações culturais da população negra. Em uma edição do programa Ensaio, falando sobre sua juventude ele relatou as rodas de tiriricas, cujos instrumentos improvisados eram as palmas das mãos, as latas de lixos e as caixas de engraxar sapato. Ele relatou os bailes que os negros promoviam nos porões, para driblar as repressões policiais, as Festas de Bom Jesus de Pirapora, os tamborins artesanais (não havia em São Paulo nenhuma loja especializada nesse tipo de instrumento) em formato quadrado cuja armação era de madeira e o coro feito com pele de gato e que era esticado numa fogueira improvisada com papel de jornal. Relatou uma época em que o carnaval acontecia nas ruas sem intervenção do Estado [da Globo e das marcas de cerveja] e era sustentado pelo gosto da própria população que, informalmente, organizava-se. Nos bairros, por exemplo, enquanto os negros cuidavam da parte musical, italianos se encarregavam de preparar as comidas.

Geraldo Filme tem o nome ligado à história do carnaval paulista. Respeitado e querido por todas as escolas, marcou presença na Unidos do Peruche, para quem compôs sambas-enredo, mas é lembrado principalmente por sua ligação com a Vai-Vai. O samba Vai no Bexiga pra Ver tornou-se um hino da escola, e Silêncio no Bexiga homenageia um célebre diretor de bateria da Vai-Vai, exímio capoeirista das antigas rodas de tiririca e chefe de torcida organizada do Corinthians — Pato Nágua, assassinado na cidade paulista de Suzano, pelo Esquadrão da Morte. Com o samba-enredo Solano Trindade, Moleque de Recife levou a escola ao título de campeã, em 1976.

Um grande conhecedor da história de São Paulo, Geraldo Filme pesquisou e compôs o samba Tebas, que conta a história da origem desse termo que significava “o bom” ou “o melhor” e era muito usado pelos paulistanos no século passado. A origem desse termo é atribuída a um escravo que conseguiu sua carta de alforria por ser um grande conhecedor de alvenaria e hidráulica, sendo o responsável pela construção das torres da Catedral da Sé e da canalização dos esgotos da região central da cidade. Foi dele o primeiro casamento na Catedral após a construção das torres. Ele construiu também um chafariz no centro da cidade. Ambas autorias não são lembradas pelas autoridades.

Nos últimos anos de vida, Geraldo trabalhou na organização do carnaval na cidade de São Paulo, tornando-se uma referência da cultura negra paulistana. Um aspecto pouco estudado de sua obra é a releitura do samba rural paulista (Batuque de Pirapora, Tradições e Festas de Pirapora), que trazem elementos dos jongos, vissungos e batuques ensinados por sua avó. Deixou poucas gravações, e boa parte de sua obra continua desconhecida. O álbum em formato LP Geraldo Filme, gravado em 1980, demorou 23 anos para ser lançado em formato digital (Eldorado, 2003).

Uma importante gravação de cunho documental e histórico, O Canto dos Escravos, com Clementina de Jesus e Doca da Portela (Eldorado, 1982), também já pode ser encontrada em CD. A gravação do programa Ensaio, realizada em 1982, é outro documento valioso sobre Geraldo Filme (SESC/ TV Cultura).

Suas composições podem ser ouvidas em gravações de Beth Carvalho (Beth Carvalho Canta o Samba de São Paulo), Osvaldinho da Cuíca (História do Samba Paulista), grupo A Barca, entre outros. Existe em vídeo um documentário sobre sua obra, realizado por Carlos Cortez, uma coprodução da TV Cultura, CPC-Umes e Birô da Criação. Ouça também o álbum de Plínio Marcos – Nas quebradas do Mundaréu – que mistura a prosa, contada por Plínio Marcos, e o samba, cantado por Geraldo Filme. ³

Conteúdo de qualidade

O Barulho d’água Música recebeu autorização para reproduzir na íntegra   matérias de conteúdo relacionados à música publicadas pela Revista E, que circula em versões impressa e digital. A revista é mantida pelo Sesc da cidade de São Paulo para divulgação da agenda cultural e de eventos de recreação e de lazer programados a cada mês nas unidades que a entidade mantém tanto na Capital, quanto em diversos municípios do estado de São Paulo. As matérias das variadas sessões trazem pautas relativas a temas do universo das artes e de suas personagens, agentes e autores — do cinema ao grafite, da literatura ao teatro –,  uma sessão de poesias, crônicas e muito mais para uma agradável e enriquecedora leitura.  

Confira todas as edições mais recentes da Revista E e números anteriores  em sescsp.org.br/revistae

 


Silêncio no Bixiga

Dois resultados inéditos marcaram os desfiles do carnaval da cidade de São Paulo em 2019 e pode-se dizer que o mais inesperado vitimou a Vai-Vai, a recordista de títulos da folia paulistana.

Com 15 taças, a tradicional agremiação sediada no Bixiga,  preferida de Geraldo Filme e popularizada como “a escola do povo”, pela primeira vez em 89 anos caiu para p Grupo de Acesso — a segunda divisão do samba na Capital. A passagem pelo sambódromo do Anhembi apresentando o samba-enredo Vai-Vai: o quilombo do futuro, no qual abordou a luta dos movimentos e de negros na sociedade — e ainda homenageou a vereadora carioca Marielle Franco (Psol), assassinada há um ano na cidade do Rio de Janeiro – rendeu apenas 268,8 pontos na avaliação dos jurados. O resultado deixou a Vai-Vai em último lugar e a escola caiu ao lado da Acadêmicos do Tucuruvi, que faturou 269,2.

Desfile da Escola de Samba Mancha Verde, campeã do carnaval da cidade de São Paulo (Foto: Marcelo Messina)

A derrocada e tristeza da Vai-Vai contrastou com a alegria da Mancha Verde — escola associada à torcida uniformizada do clube de futebol do Palmeiras, que despontou na avenida em 2013, e tem sede na Barra Funda, ironicamente, berço do homenageado desta atualização. Com 270 pontos, a Mancha Verde conquistou o primeiro lugar, apenas um décimo à frente da vice-campeã. Dragões da Real, também representante de torcida organizada, mas do time de futebol do São Paulo. O tema da Mancha Verde foi Oxalá, Salve a Princesa! A Saga de uma Guerreira Negra

 


¹ São João da Boa Vista foi o local onde Geraldo Filme foi registrado e batizado, por ser a terra natal de seus pais e familiares de ambos os lados. Na época era bastante comum, pelo menos entre as famílias negras, batizar e registrar os filhos na terra de origem da família como se a criança também fosse nativa daquela terra. Segundo ele a festa de seu batizado durou mais de um dia. O pai tocava violino, mas foi com a avó que conheceu os cantos de escravos que influenciaram sua formação musical.

² A doutoranda em Música Bruna  Queiroz Prado é autora da tese de Doutorado “A passagem de Geraldo Filme pelo ‘samba paulista’: narrativas de palavras e músicas”, que pode ser acessada e lida pelo linque www.repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/279809/…/Prado_BrunaQueiroz_M.pd

³ O jornalista Mauro Ferreira destaca em matéria no blogue Pop&Arte  que Geraldo Filme foi “artista de forte consciência social” e compositor que deixou a assinatura firme em sambas como A morte de Chico Preto (1975)Batuque de Pirapora(1989)Garoto de pobre (1980),São Paulo menino grande (1968),Silêncio no Bixiga (1972) e Vai cuidar de sua vida (1980), entre outros.

4 Em seu livro 101 Canções que Tocam o Brasil  (Estação Brasil), à página 81, o jornalista e compositor Nelson Motta relata:  “Ficou célebre o palpite infeliz de Vinicius de que ‘São Paulo é o túmulo do samba’. Mas depois se esclareceu que foi apenas um desabafo do poeta, irritado com um bando de bebuns barulhentos que não o deixavam ouvir o samba que Johnny Alf tocava numa boate paulistana. Johnny havia se mudado do Rio para São Paulo, e a frase foi dita por Vinicius para consolá-lo, provocando o bairrismo paulista.”

5   Dona Augusta Geralda tinha uma pensão nos Campos Elísios e ficou conhecida como “negra da pensão”. Ela fazia marmitas que o menino Geraldo entregava em toda a região, ficando conhecido como “Negrinho da Marmita”. Antes de ser dona de pensão, a mãe de Geraldo Filme foi empregada doméstica de uma abastada família paulistana. Nessa época ela teve a oportunidade acompanhar essa família em uma viagem a Londres. Depois de observar os movimentos sindicais em Londres ela teve a ideia de fundar o sindicato das empregadas domesticas, classe trabalhista que em São Paulo era formada praticamente apenas por mulheres negras. Esse sindicato foi o embrião do grêmio recreativo que deu origem ao cordão carnavalesco que futuramente iria se transformar na Escola de Samba Paulistano da Glória

 

 

1162 – Ricardo Vignini lança “Viola de Lata”, na Sala Itaú Cultural, em São Paulo

Terceiro disco solo do violeiro paulistano tem doze faixas, dez instrumentais, e conta com a participação de Socorro Lira e, no show, com Tuco Marcondes*
*Com Graciela Binaghi

As tradicionais audições aos sábados pela manhã aqui na redação do Barulho d’água Música neste dia 2/3, já em pleno reinado de Momo, começaram com Viola de Lata, terceiro álbum solo do virtuosíssimo violeiro paulistano Ricardo Vignini. O disco é um mescla de influências de música caipira, nordestina, folk, rock e blues, totalmente dedicado às violas dinâmicas ressonadoras (daí o nome do disco).

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1161 – Último disco gravado por Tavito, do selo Kuarup, traz releituras de clássicos como Rua Ramalhete e Casa no campo

Cantor e compositor nascido em Beagá, ex-integrante do Clube da Esquina e do Som Imaginário, gravou clássicos do rock rural com Guarabyra, Tuia, Ricardo Vignini e Zé Geraldo em álbum lançado no Sesc Pinheiros

Dez dias antes de Tavito partir cumprindo o ciclo natural de toda a vida, mas deixar no peito de familiares, amigos, parceiros e fãs o buraco que a saudade sempre provoca — e, no caso dele, um vazio que não tem como ser preenchido no universo da cultura, em um período no qual, sobretudo no segmento da música, grassam porcarias –, a unidade Pinheiros do Sesc, em São Paulo, promoveu na noite de 17 de fevereiro o lançamento de Nós do Rock Rural – Encontro de Gerações. O álbum gravado pela Kuarup e lançado há dias no palco do Teatro Paulo Autran é resultado de outra apresentação, ao vivo,  que fora captada um ano antes. Naquela ocasião, Tavito, Guarabyra, Zé Geraldo, Tuia e Ricardo Vignini protagonizavam mais um show do projeto homônimo que, para a noite de festa no Sesc Pinheiros, já infelizmente sem ele, contou ainda com a participação do guitarrista Fábio Santini.

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1160 – “Álibi”, de Maria Bethânia, é o tema de fevereiro da série “Clássico do Mês”

Lançado em 1978, o disco é o primeiro de uma cantora brasileira a ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias vendidas, embora não seja o recordista de vendas da chamada “Abelha Rainha” detentora de cinco Discos de Ouro

O álbum Álibi, lançado em 1978 pela cantora baiana Maria Bethânia, com título inspirado em canção homônima do alagoano Djavan, é o escolhido da redação para ser destacado em fevereiro pela série Clássico do Mês, na qual o Barulho d’água Música traz informações sobre um disco que marcou época na canção brasileira. Apenas pelo belo repertório de 11 faixas que trouxe e que há mais de 40 anos muita gente ainda canta, este oitavo disco de Bethânia já seria motivo mais que suficiente para figurar nesta atualização especial, mas e talvez justamente pela seleção de canções que ela interpreta — de expoentes como Djavan,  Gonzaguinha, Chico Buarque e Gilberto Gil, Rosinha de ValençaPaulo Vanzolini, o mano Caetano Veloso, Dona Ivone Lara, entre outros — é preciso acrescentar que Álibi tornou-se ícone por ser o pioneiro de uma cantora brasileira a bater a marca de 1 milhão de cópias vendidas. Além do time de compositores, Bethânia ainda contou com as participações de Gal Costa (Sonho Meu, Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho) e Alcione (O meu amor, Chico Buarque).

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1159 – Conheça Adiel Luna (PE), coquista autor de “Baionada” e “Onde as violas se encontram”

Repertório dos dois álbuns do músico residente  em Recife resgatam ritmos que animam cantigas de trabalho e festas dedicadas ao baião, ao improviso,  à pisada de coco e à  cantoria de viola no sertão, além de rimas de cordel e o repente

As tradicionais audições na redação do Barulho d’água Música nas manhãs de sábado começaram neste dia 23 de fevereiro, a uma semana do Carnaval, com o álbum Baionada (2015), do pernambucano Adiel Luna, autor, ainda, de Onde as violas se encontram, gravado com o pai, o premiado Coco Camará, também tocado aqui no cafofo. Em sua página eletrônica, na guia de apresentação, consta que a relação de Luna com a música vem de berço: a bisavó era cantadeira de casa de farinha e conheceu o marido animando uma farinhada. O avô, por sua vez, foi entusiasta da cantoria de viola, enquanto o pai – assim como alguns tios e primos – é poeta e repentista.

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