Uma vez estrela, sempre estrela, seja na terra, seja no ar

A querida cantora Katya Teixeira compartilhou com seu público e amigos um registro em vídeo de Dércio Marques cantando no programa Brasil Caboclo “Serra da Boa Esperança”, composição de Lamartine Babo, autor de sucessos populares e famosas marchinhas de Carnaval como “O teu cabelo não nega” e dos hinos dos cinco principais clubes do futebol carioca, incluindo o alvirrubro América FC, entre outros. Lamartine Babo, que se casou com Maria José, irmã de Dércio, hoje é aclamado como uma das estrelas de mais intenso fulgor entre os compositores brasileiros de todos os tempos. A constelação, por sinal, é a mesma na qual agora pulsa também toda a magnificência do cunhado, astro de grandeza e brilho não menos cintilante que aquele, cuja voz há dois anos se calou em um fatídico 26 de junho de 2012.

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As canções de Dércio Marques se notabilizam pela defesa da natureza e de valores dos povos mais simples, presentes em congadas e folias de reis

Sempre acompanhei a carreira do mineiro de Uberaba Dércio Marques, mas não tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Poucos dias depois da morte em um hospital de Salvador, decorrente de complicações após uma cirurgia de retirada de três órgãos vitais, é que soube do ocorrido. E, acreditem, foi por acaso, já que procurava informações sobre outro assunto na internet quando visualizei um linque para a lacônica nota a respeito do óbito. Pasmei: a perda de um ícone como Dércio Marques quase não repercutiu além do círculo mais íntimo de amigos, admiradores, parceiros e familiares; foi tratada como uma pauta menor, corriqueira, sem atenção alguma fora das páginas, dos blogs especializados e dos programas que cultivam o cancioneiro de raiz e iberoamericano, duas das vertentes ao qual ele mais se dedicava na hora de escrever suas obras.

A trajetória marcante e luminosa de Dércio Marques, por sinal, começou a ser traçada em plenos “Anos de Chumbo”, na década dos anos 1970, o que já faz dele alguém cuja biografia merece todo o respeito, assim como se cultua Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Taiguara, por exemplo. Filho de uruguaio, despontou no circuito universitário e independente de shows cantando para os companheiros e para o público canções de Violeta Parra e Atahualpa Yupanqui, entre outros nomes da música do continente. Era um período turbulento demais para letras com cunho libertário e avesso ao poder estabelecido por meio de fuzis, tanques, baionetas e torturas, a ideologização imperava na música popular, mas Dércio assim como Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo escolheu marchar pela contramão, sustentando com coragem bandeiras proibidas entre as quais reivindicações políticas e ligadas à ecologia e à valorização da diversidade da cultura nacional, sem jamais fazer concessões.

E assim seguiu até expirar, sempre com a irmã Dorothy Marques ao seu lado, parceiros como a mencionada Katya Teixeira, João Bá, João do Vale, Paulinho Pedra Azul, Pereira da Viola, Dani Lasalvia, Xangai, Hilton Accioly, Carlos Pita, Milton Edilberto, Luiz Perequê, Diana Pequeno, Elomar, presentes em shows ou assinando com ele letras de conteúdo crítico e identidade. Dércio participou de vários projetos ligados às manifestações do nosso folclore como congado e folia de reis, além de promover entre outros benefícios e bons serviços à sociedade oficinas para crianças e jovens em várias regiões do Brasil. Os álbuns da carreira, como “Fulejo”, “Terra, Vento, Caminho”, “Monjolear”, “Segredos Vegetais”, “Cantigas de Abraçar I e II” não têm ao menos uma faixa em que possa ser acusado de fazer média para afagar meios de comunicação e empresários, nada desvia de seus valores e da sensibilidade de seu modo de olhar desde os pequenos seres até a grandeza de uma floresta que precisa ser preservada; sim, ah, Dércio: tomara que seja verdade, que exista mesmo disco voador que traga até nós um povo inteligente, que valorize a paz e o amor, quiçá tenha lições e soluções a curto prazo para um sistema global de produção e de vida coletiva que já começam a dar sinais de colapso evidenciados por eventos extremos e de proporções calamitosas. Vai ver deriva desta postura engajada o motivo de sua partida ter sido relegada, ofuscada; vai ver tratou-se de uma espécie de troco de emissoras, gravadoras e produtoras que não conseguiram tirar dele compromissos com seus lucros, não conseguiram banalizar seu profícuo trabalho e esvaziar suas mensagens de amor à natureza, aos bichos, aos homens, à vida.

Mas quem nasceu para ser estrela jamais perde o encanto, o viço, a capacidade de orientar, de despertar admiração, de alimentar a poesia, os sonhos. Tal qual os próprios astros que se espalham pelo firmamento, haverá de brilhar ainda por muito tempo. Mesmo que seu corpo já tenha se desintegrado e seja apenas a sua luz que viaje pelo espaço até nossos olhos e corações.

 

 

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