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Indio Cachoeira e Ricardo Vignini, duas gerações da mesma tribo

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Indio e Vignini

Ricardo Vignini e Indio Cachoeira na apresentação que ambos fizeram no SESC Campo Limpo, em roda que ainda reuniu Levi Ramiro, Paulo Freire e Rodrigo Zanc (Foto: Marcelino Lima)

Os violeiros Índio Cachoeira e Ricardo Vignini, juntos, já realizaram dezenas de apresentações pelo país e no exterior. A dupla, que recentemente lançou o álbum “Viola Caipira, Duas Gerações”, conseguiu desde o primeiro contato sintonia mais do que fina, perfeita. Índio Cachoeira é considerado um dos maiores violeiros do Brasil, mas nem sempre se dedicou a tocar o instrumento. Quando conheceu Vignini, era motorista de ônibus em Guarulhos, recém-saído da dupla Cacique e Pajé, e apresenta traços morenos de um caboclo da mais genuína estirpe, de um típico morador de cidades do sertão, um mineiro que levaria a vida sossegada em Alfenas, mais dedicada a pescarias e a cultivar uma roçinha do que a construir violas e outros instrumentos de cordas dos mais refinados, além, claro, de ponteá-las.

Foi Vignini quem produziu três discos e um DVD de Índio Cachoeira. Olhando para ambos, entretanto, a primeira impressão é que entre os dois não haveria qualquer possibilidade de entrosamento, ainda mais em vertentes tão aparentemente dispares. Ricardo Vignini tem pinta de roqueiro, de alguém completamente avesso às modas caipiras ou de se deixar levar pela influencia da cultura latino-americana que, por exemplo, permeia composições do parceiro. Quem pensar desta forma estará parcialmente certo, mas não poderá se quedar à primeira impressão. O cabeludo de óculos de aro redondo integra, sim, uma banda de rock, a Mano Sinistra (Mão Esquerda, em italiano), e, em parceria com Zé Helder, gravou um dos melhores trabalhos do gênero na atualidade, em 2011.

A ressalva é que “Moda de Rock, Viola Extrema”, é uma bem elaborada fusão do mais puro rock, por meio de clássicos de Pink Floyd, Iron Maiden, Sepultura, Led Zepellin, com a viola que ponteia em muitas festas, bailes de roça e celebrações religiosas em cujo ambiente o divino (portanto, o não profano!), fala mais alto. Um crítico bem humorado e certeiro já classificou o trabalho de “Woodstock Rural”, o que por sinal é a perfeita descrição do que Vignini e Zé Helder colocaram no primeiro volume do disco que, em breve, ganhará o irmão, agora com novas versões para sucessos do Dire Straits, dos Rolling Stones, e do Ramones para serem tocadas tanto em quermesses quanto no “Rock in Rio” — isto claro, se Sangalos e Leites não agradarem mais ao padre e ao executivo.

Vignini e Zé Helder ainda tocam juntos no Matuto Moderno”, outra banda que é capaz de tocar “Rio de Lágrimas” como se estivesse em um porão ou garagem. Ou composições com arranjos pauleiras que remetem ao prosaico e calmo meio rural, marcadas ainda pelo bom humor típico de um capiau e contador de causos, mas que, na verdade, são cinco moços que usam por debaixo das camisas xadrezes camisetas pretas de Jethro Trull, Ozzy Osborne, Hendrix e Mettalica.

Vignini e Índio Cachoeira, portanto, são da mesma tribo, e até no exterior já impressionaram por falarem a mesma língua quando a conversa flui pelos arames de uma viola. Em 2012, durante um giro pela França, o público pediu um disco que consolidasse a parceria. O trabalho saiu, já andou um bom trecho, mas ainda está tinindo e cheirando a novidade, reunindo faixas que evidenciam a maestria de ambos.

“Viola Capira, Duas Gerações” foi lançado em 1º de junho, no SESC Belenzinho. O disco tem a marca de Índio Cachoeira em “Bailado Andino”, “Suindara”, “Visitando o Oriente”, “Pagode de Gibão” ou “Prelúdio Caboclo”, em que ele transita do popular ao clássico com claras referências ao Nordeste, aos países ibero-americanos, aos povos mouros e orientais. Vignini responde assinando a faixa tupiniquim-erudita Suite Queiroz”, dividida em duas partes (A, “Guaiçara”, e B, “Caviuna”), e, “De butuca”. Ambos ainda trazem uma nova leitura para “La Paloma”, de Sebastian Iradier e Salaverri, e “Moliendo Café”, do folclore venezuelano legado por Hugo Blanco e José Manzo Perroni.

“Viola de Chumbo”, composição de ambos, fecha “Viola Caipira, Duas Gerações”, que ainda acrescentou ao repertório “Galope Beira Corgo”, do mestre e amigo Levi Ramiro. Os três estiveram juntos em 9 de julho, no SESC Campo Limpo, onde formaram uma roda de viola com Paulo Freire e Rodrigo Zanc. Nesta oportunidade, devido ao curto tempo que tiveram para se apresentar, tocaram apenas “La Paloma”. Já na noite de segunda-feira, 14, Índio Cachoeira e Ricardo Vignini chegaram ao palco do Teatro Anchieta, no SESC Consolação. Com a participação dos matutos modernos André Rass (percussão) e Marcelo Berzotti (baixo) eles foram destaques de mais uma edição do projeto Instrumental SESC Brasil, coordenado por Patrícia Palumbo, e a maioria das faixas do recente álbum pode ser mostrada. Ainda não há data definida, mas em breve o linque da apresentação estará disponível e será disponibilizado aos seguidores e amigos deste Barulho d’Água.

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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