Quinteto Armorial e Ariano Suassuna: somos todos filhos da mesma raiz, banhados no mesmo grande rio

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A obra de Ariano Suassuna é essencialmente centrada na busca da valorização da cultura brasileira, notadamente a popular, mas traz elementos de outros povos e períodos que a universaliza
Amigos e seguidores: o Barulho d’Água Música baixou no armário de CDs e tirou para ouvir os quatro do Quinteto Armorial, grupo que em meados da década de 1970 incorporou-se ao e o Movimento Armorial, idealizado pelo genial Ariano Suassuna, que hoje Deus resolveu recolher ao andar de cima, um ano após a passagem de Dominguinhos e na mesma semana das porretadas que levamos com as partidas do João Ubaldo e do Rubem Braga.

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Capa do disco “Do romance ao galope nordestino”, do Quinteto Armorial, gravado em 1974 pela Marcus Pereira

Em um destes brilhantes trabalhos, “Do Romance ao Galope Nordestino”, há uma apresentação do grupo que se desmanchou na década dos anos 1980 e no qual despontara o brincante Antônio Nóbrega, feita pelo próprio Suassuna. O escritor e idealizador paraibano aproveitou o recado na contracapa do “bolachão” mais tarde remasterizado para elencar os propósitos do Movimento Armorial, que à época da gravação do disco (1974)  já estava presente na cerâmica, na tapeçaria, no teatro, na escultura, no romance, na poesia (incluindo a literatura de cordel), e na música, aproximando-se do cinema e da arquitetura, com elementos que davam suportes e valorizavam a cultura dos povos do sertão e das regiões jamais alcançadas pelos divulgadores e formadores de opinião.

As músicas do Quinteto Armorial são obras primas de rica execução melódica que a gravadora Marcus Pereira registrou. Elas são executadas por meio de pífanos, marimbas, violas (incluindo a nordestina e a sertaneja), instrumentos de percussão, gaitas, foles, rabecas, clarinete, trompetes, violinos, ganzás, matracas, caixas e uma porção de outros instrumentos, alguns rudimentares de fabricação anônima, os quais nos levam a um passeio que revisita a Idade Média. De lá,  a viagem vai nos trazendo agradavelmente aos dias atuais em composições trovadorescas, romanescas, provençais, ibéricas, com forte presença, ainda, de ritmos e sons do Cancioneiro Nordestino. Quer dizer: tudo entrelaçado e devidamente harmonizado, comprovando que o berço da nossa cultura popular é o mesmo da de outros povos, que há um universo para o qual tudo converge e no qual todos somos filhos de um mesmo embrião.
Há nesta fusão, portanto, uma evidente e clara cosmogonia, mesmo que através dos tempos cada povo, tribo ou nação tenha incorporado aos seus valores novos critérios de ver e de se relacionar, marcar sua presença no mundo e por meio dela transmitir seus legados. A arte e a cultura, por este ponto de vista, se universalizam, nos atam à mesma fonte, quer sejamos barrocos, pretos, brancos, índios, mouros, caipiras; ainda que prevaleça um tipo brasileiro entre tantos, ele traz em seu DNA está gênese.
Ariano Suassuna esta imerso neste caldo e, portanto, pelo alcance de sua obra ao mesmo tempo realista e visionária, tende a ser atemporal; se o homem desencarnou, o legado dos que como ele abrigavam espíritos evoluídos se pereniza, e, assim seu ciclo jamais se esgota, o próprio ser renasce e fica. É preciso um parênteses para observar que os tempos são outros, a velocidade de transmissão de ideias e de cânones diante da tecnologia que dispomos para a comunicação de massas tende a esvaziar e a pulverizar o que não servir às ideologias do consumo, da produção e da própria sobrevivência dos estados e seus estamentos. Mas o que tem raízes profundas, ainda que se modifique ou se adapte, jamais perde o conteúdo ou se contamina, segue incólume e sem cair na secularização; desperta novos seguidores mundo afora, novos marques, nóbregas, teixeiras, arrudas, ramiros, trancosos, ferreiras e assim o grande rio jamais seca. 

N.R.: Os discos do Quinteto Armorial são além do já citado “Do Galope ao Romance Nordestino” “Aralume”, “Sete Flechas” e “Quinteto Armorial”. O grupo era formado por Antônio José Madureira, Egildo Vieira do Nascimento, Antônio Nóbrega, Fernando Torres Barbosa e Edison Eulálio Cabral.

 

2 respostas para “Quinteto Armorial e Ariano Suassuna: somos todos filhos da mesma raiz, banhados no mesmo grande rio”

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