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Dia de Pachamama, festa milenar do norte argentino, berço de Maryta de Humahuaca

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Pachamana

Representação de Pachamama, ou Pacha Mama, divindade que gera a riqueza, a sabedoria e tudo o que nutre os povos andinos do Chile, da Bolívia, do Peru e da Argentina, celebrada há mais de 10 mil anos

A sexta-feira, 1º de agosto, para alguns irmãos de países vizinhos da América do Sul, foi dia de celebrar “Pacha Mama” ou “Pachamama” (do quíchua Pacha, “universo”, “mundo”, “tempo”, “lugar”, e Mama, “mãe”, “Mãe Terra”), deidade máxima dos andes peruanos, bolivianos, do norte e do noroeste argentino e do extremo norte do Chile. A deusa é aquela que produz, gera. Reza a tradição que sua morada está no Cerro Blanco (Nevado de Cachi), em cujo cume há um lago que rodeia uma ilha habitada por um touro de chifres dourados. 

Este animal, ao mugir, expele nuvens de tormenta pela boca, mas deste arroubo não se sucedem desgraças. Nesse dia, em retribuição, enterra-se em lugares próximo da casa panelas de barro com comida cozida. Também se põe coca, yicta, álcool, vinho, cigarros e chicha para alimentar Pacha Mama. Os nativos adornam-se com cordões de fio branco e preto, confeccionados com lã de lhama, enrolando-os à esquerda. Esses cordões se atam nos tornozelos, nos pulsos e no pescoço.

O Dia de Pachamama nos remete à cantora Maryta de Humahuaca, da cidade de Humahuaca, encravada na província de Jujuy, Argentina, situada a 1.500 km de Buenos Aires, próxima à fronteira com a Bolívia e o Chile. O blog conheceu Maryta em 16 de março, quando o cantor e multinstrumentista João Arruda a convidou para ser uma das atrações da primeira edição deste ano do projeto “Arreuni” ao lado do violeiro Levi Ramiro e o grupo de música folclórica andina Chasky.

Maryta

Maryta de Humahuaca durante show em Campinas/SP (Foto: Marcelino Lima, março de 2014)

Em sua apresentação no Centro Cultural Casarão, em Barão Geraldo, distrito de Campinas (SP), ela deixou-nos hipnotizados ao entoar com devoção de quem liberta do âmago um canto índigena uma das músicas de seu álbum, justamente chamada “Pachamama”. Por quase cinco minutos, o hino ancestral apoiado pelas ritmadas batidas dela em um tambor argentino do período pré-incaico ecoou forte pelo recinto. Brilhava apenas o facho do holofote dirigido a ela. Criou-se uma atmosfera de misticismo e comunhão com o sagrado em que muitos rostos mantiveram-se estáticos e fixos na intérprete, como se estivessem suspensos ou em transe, incluindo o do anfitrião, João Arruda. Apenas a lembrança desta experiência já é suficientemente forte para até hoje arrepiar a pele.

Sempre de forma efusiva e vibrante, o que é uma característica dos cantores das correntes ibero e latino-americanos, naquela ocasião em Campinas Maryta ainda tocou violão e bailou, tanto sozinha, quanto acompanhada por integrantes do Chasky, e enfeitou os pesçocos dos músicos com colares de flores. Em 29 e 30 de julho, ela esteve de volta ao país, desta vez para participar do XIV Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (GO). Felizes os que puderam compartilhar e comungar com ela mais estes instantes.

Humahuaca e suas festas

A Quebrada de Humahuaca tem mais de 10 mil anos e é declarada pela UNESCO Patrimônio Mundial da Humanidade na categoria Paisagem Cultural. Neste longo período tem sobrevivido intactas no vale entre montanhas expressões culturais que são refúgio de tradições originárias, de costumes ancestrais, de celebrações religiosas e de ritos pagãos.

Nesta terra milenária, o culto às divindades ancestrais como a Pachamama convivem com as celebrações do santoral católico em autênticas festas populares: carnavais agitados, alegres encontros de artistas, emotivas peregrinações. Em uma celebração permanente da vida em si mesma, crianças, adultos e anciãos se reúnem ao pé dos cerros coloridos e percorrem as ruas entre música, sabores, bailes e orações.

Os pequenos dançam entre fitas coloridas nas esquinas do povoado adorando o Niño Jesús (Menino Jesus) durante as comemorações do Natal. Em janeiro a música e o canto enchem de cor as ruazinhas de Tilcara para viver uma das mais tradicionais festividades folclóricas do Norte da Argentina: “O Janeiro Tilcarenho”. No mês de fevereiro, as máscaras representem um antigo ritual do Carnaval. Ao longo da Semana Santa, a música dos sikuris chega como em procissão, baixando desde os cerros. Do interior das igrejas são levadas às ruas imagens das santas padroeiras, virgens que os povos originários veneram. Torna-se impossível não aderir ao aplauso popular.

Quando o inverno começa, o Deus Sol também ganha festas, “O Inti Raymi”, pois chegará logo um novo tempo de colheita; será, então, o momento de render graças à “Madre Tierra”. No mês de agosto, a “Virgem da Assunção” terá sua festividade em Casabindo, na região da Puna, com o particular “Toreo da Vincha”.

Assim, durante o ano todo, Jujuy, agradecido, é pura festa. Na Quebrada de Humahuaca, como em todo Estado, um nutrido calendário de festividades religiosas marca o enraizamento da fé católica no povo do lugar. A adoração da divindade milenária Pachamama é acompanhada de comidas e bebidas em evento ancestral cuja presidência cabe ao mais ancião dos moradores de cada povoado.

A cerimônia se realiza ao amanhecer, antes que caiam os primeiros raios de sol. Nas beiras dos caminhos, no alto dos cerros e nos jardins das casas se confeccionam com pedras ‘apachetas’ em cujo interior se enterram as oferendas à Madre Tierra. Este culto é um dos mais sentidos, tradicionais e respeitados de toda a região Norte argentina, mas não é um espetáculo: para participar da cerimônia à Pachamama, o turista deve ser muito respeitoso.

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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