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Kuarup lança livro com dados biográficos do compositor e álbum de Taiguara só com músicas inéditas

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Dupla Piano

Taiguara era uruguaio de nascença, mas foi no Brasil que ele se destacou e fez valer seu espírito combativo: acreditava que não existiria um lugar que desse para ele trégua ou lhe sorrisse, mas enfrentou o regime de exceção pois, entre outros sonhos, não queria ver a juventude perdida e bradava que as crianças cantassem livres sobre os muros, ajudando a tornar os homens libertos de um “deserto” sem paz e sem amor (Fotos do arquivo familiar)

Quem se fecha, não se acha, encontra só a solidão (…)/ em qualquer lugar do mundo a gente vê: a pior morte que existe é se viver inutilmente

A gravadora carioca Kuarup disponibilizou no final de outubro duas relíquias para os fãs do cantor e compositor Taiguara, que passou a maior parte da curta, mas intensa vida no Brasil. O pai,  bandoneonista e maestro Ubirajara Silva estava em Montevidéu, Uruguai, quando em 9 de outubro de 1945 nasceu Taiguara Chalar da Silva, que herdou do país natal o espirito crítico e contestador que o encorajou a tornar-se um dos mais combativos opositores da ditadura militar que dominou o Brasil entre 1964 e 1985. Por conta desta postura rebelde, Taiguara também viria a se tornar o artista mais censurado da MPB pelo regime cujos mandatários preferiam o cheiro de cavalo ao cheiro do povo, e pisando duro com seus coturnos, mandavam prender e serem arrebentados quem se opusesse ao que o generalato decidisse.

capa Livro

Taiguara fez de tudo para fazer valer o que preconiza seu nome de assento — liberdade, em tupi-guarani. São informações reveladoras sobre sua biografia e os embates travados contra milicos e seus comparsas que constam em uma das surpresas da Kuarup, o livro Os Outubros de Taiguara, da jornalista Janes Rocha. Primeiro projeto editorial da gravadora, a obra de Jane narra o enfrentamento do cantor e compositor à censura, referendado por vários documentos secretos do governo de exceção revelados pela primeira vez. 

A perseguição e sufocamento à Taiguara e a sua criatividade endureceu no período em que ele buscava resgatar suas raízes latinas, após um início de carreira em cujas composições prevaleciam o lirismo que o colocava cada vez mais em evidência nas rádios, face de sua obra que não é menos bela e profunda. As letras agora traziam carregadas referências à sensualidade e a outra figura bastante notada em sua trajetória, a bandeira da liberdade. “Ele, Chico Buarque e Gonzaguinha são os artistas que mais foram censurados”, informou Janes Rocha. “Mas oficialmente, em documentos, Taiguara foi amplamente vetado em seu período mais produtivo”, completou a jornalista.

Os Outubros de Taiguara mostram que entre 140 letras que ele registrou no Departamento de Censura e Diversões Públicas (DCDP) no quadriênio 1970/1974,  61 são de em 1974. Do total desse ano, 36 ganhou o carimbo do censor, elevando para 48 as canções proibidas em quatro anos.

Passeata

Taiguara caminha de braços dados com Beth Carvalho e Luís Carlos Prestes (de paletó)  em uma manifestação no Rio de Janeiro pela redemocratização do país. após um dos regressos do cantor que duas vezes se recolheu ao exílio para livrar-se das perseguições da ditadura

As garras da censura não o atingiram apenas no Brasil. Taiguara não pode executar nem na vitoriana Inglaterra Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976), seu maior disco, e Let the Children Hear the Music, gravado em Londres, dois anos antes. Para a jornalista e biografa, “ele se expôs muito, mais do que os outros e quanto mais ele era censurado, mais critico ficava”. Janes recorda que em Tinta Fresca, Taiguara bradou, incisivo “não me queixo do meu fado/não se eu quiser me deixar sair/me abre essa porta/e me deixa sair/ou dizer o que eu quiser”. A resposta dos censores não tardou e veio ríspida e irônica: “Os incomodados que se mudem, pois as portas do nosso Brasil sempre estiveram abertas para sair aos indesejáveis”. O comentário, escrito de próprio punho pelo algoz, consta na folha que apresentava a letra da canção.

Novo disco 

Capa Disco

Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara, enfim, chegou ao mercado em 2013, resgatado pela Kuarup, que assumiu trabalhos de curadoria com a obra de Taiguara. Agora, paralelamente ao livro de Janes Rocha, a gravadora pôs à venda no final de outubro Ele Vive, disco com canções inéditas acompanhadas de versões raras, ao vivo. A gravação resulta de fitas cassetes recuperadas dos arquivos doados pela família.

O material estava em estado delicado, mas ganhou tratamento para a inclusão de instrumentos e arranjos com base nas composições originais do artista e, por fim, o disco pode ser produzido pelo músico Pedro Baldanza.

 

Ele Vive contém 11 raridades, com mais quatro faixas bônus ao vivo, registradas em espetáculo no teatro João Caetano (RJ), na década dos nos 1970.”Existem mais de 40 músicas nas fitas cassete que encontramos, todas inéditas”, comentou Baldanza. “Algumas letras foram censuradas, mas ele deixava tudo guardado”,registrava tudo sempre com o gravador ao pé do piano, explicou o produtor.

Apesar de toda perseguição que sofreu e dos dois autoexílios, Taiguara regressava ao país cada vez mais politizado e provocador. Eram habituais caminhadas a favor da redemocratização e assim ele estreitou laços com Luís Carlos Prestes,  o “Cavaleiro da Esperança”, legenda do comunismo brasileiro. Taiguara também adotou posturas radicais como se negar a beber Coca-Cola e  a usar calça jeans, que considerava símbolos da cultura estadunidense.  A sintonia com o público passou a destoar desde 1974, quando o compositor passava mais tempo tentando liberar sua obra do que fazendo shows. Aos poucos Taiguara passou a ser obliterado, até que já nos meados dos anos 1980, depois de uma década em territórios estrangeiros, quase ninguém mais dele se lembrava.

Janes acredita que ele “virou muito discursivo e aborrecia também, e com isso foi perdendo o espaço na mídia, principalmente após ficar dez anos longe do Brasil”. Ainda de acordo com ela, quando ele tentava retomar a carreira os antigos fãs prefeririam o romântico cantador de modinhas. [Mas] ele queria fazer canção de protesto, e era uma nova geração que não o conhecia; importante dizer: ele desanimou”, observou Janes.

Em 14 de fevereiro de 1996, vencido por um câncer de bexiga que causou falência de múltiplos órgãos, Taiguara partiu definitivamente. Deixou em 15 álbuns, sem contar este inédito da Kuarup, sucessos marcantes como Hoje, Universo do teu corpo, Piano e viola,Amanda, Tributo a Jacob do Bandolim, Viagem, Berço de Marcela, Teu sonho não acabou, Geração 70 e Que as Crianças Cantem Livres, entre outros.

  Tinta Fresca

A folha com o veto do censor à Tinta Fresca

 

 

Só feche o seu livro quem já aprendeu, só peça outro amor quem já deu o seu (…) quem não soube a sombra, não sabe a luz (…) nós precisamos, precisamos sim, você de mim, eu de você

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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