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Mineiro, Fabrício Conde extrapola adjetivos como violeiro, escritor e contador de causos repleto de predicados

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fabricio e músicos

Márcio Hallack, Fabrício Conde e Zé Nogueira foram atrações de mais uma edição do Instrumental SESC Brasil (Fotos de Marcelino Lima)

Genial. Notável. Impecável. Sim, só que não, ou… não apenas. Seja qual for o adjetivo que se empregue para definir Fabrício Conde ainda será um vocábulo reducionista e que não exprimirá, em toda sua completude, o talento deste mineiro de Juiz de Fora (MG), terra situada lá na Zona da Mata que conheço tão bem e para a qual sempre me arrastam várias das minhas memórias afetivas. E ao buscarmos esta definição a qual Fabrício Conde estaríamos nos referindo? Seria possível haver um Fabrício Conde, violeiro, e outro, poeta, escritor e contador de causos, ou vários, coexistindo? 

A resposta sempre será sim para quem conhece qualquer mineiro extraordinário e as manhas (não de mania, de esperteza de quem é dado a empurrar com a barriga e esperar o leite no copo, ganhar no choro, o tipo zoró) mas de quem é… talentoso! Os que nascem naquela terra abençoada com uma predileçãozinha a mais perante o Criador parecem que entram mil vezes na fila dos predicados, recebem do Alto (ou pode ser do Dito Cujo, em pactos nos quais vão se os dedos enfiados em ocos de árvore ou buracos sinistros em igrejas retiradas, e ficam os toques de viola, rezam as lendas) todos os mimos.

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 Ai, uai, o sujeito vem ao mundo em forma de gente e repleto de plus: capacidade de tocar violão,  de tocar piano, de tocar UMA viola de cabaça como se fosse três ao mesmo tempo (e o instrumento também se sentisse tambor), o dom de escrever, de declamar, de convencer uma plateia assustada que é, sim, bobo, verdade, a história de um barco que encalhou no rio São Francisco na boquinha da noite assim que ele, Fabrício Conde, começou a dedilhar uma música aprendida horas antes com uma anciã chamada Elvira. Esta senhora, quase mítica pela descrição, o ensinara toques para emoldurar ao som dos arames o sertão mais profundo. Vai que o bote, mesmo empurrado pelo barqueiro que caíra nas águas para tentar removê-lo, irredutível, só retomou a marcha rio acima, rumo ao município homônimo ao Velho Chico quando a música passou a ser outra, em um compasso, digamos, bem mais alegre.

Esta música misteriosa, apesar de ser bonita demais, de acordo com Fabrício, no entanto, nem ele gosta de apresentar em público. “Uma semana depois que eu a toquei pela primeira vez para sete dos meus amigos conhecê-la, reunidos lá em casa para um jantar, a vida de todos começou a andar para trás, se deu uma série de infortúnios. Eu, por exemplo, peguei uma baita infecção, mas teve gente que registrou até caso de morte em família”. 

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Fabrício Conde

Compositor e um dos vencedores do XIV Prêmio BDMG de Música, promovido em Beagá, Fabrício Conde desembarcou em Sampa na segunda-feira, 24. Com três estojos nas mãos, dentro dos quais se aninhavam uma viola de cabaça (arte do mestre luthier Levi Ramiro, veja com quem anda este rapaz, e tem mais gente boa citada linhas abaixo!), outra caipira e um cuatro venezuelano, ele contou esta passagem. Conde, o saxofonista e flautista Zé Nogueira, mais o pianista Márcio Hallack acabara de se apresentar no SESC Consolação para mais uma rodada do projeto Instrumental SESC Brasil, comandado por Patrícia Palumbo. No palco do Teatro Anchieta, Fabrício mostrou músicas em sua maioria próprias, com exceção de Lamento Sertanejo.

Mas ao contrário desta canção singela de Dominguinhos e Gilberto Gil, Fabrício sai, sim, e tem vários amigos para além da Zona da Mata. Recentemente, excursionou pela América do Sul e nesta turnê realizou pesquisas sobre a música rural do Chile, do Equador, do Brasil e da Argentina, base para, em breve, sair do forno um novo álbum. O rico repertório trazido ao SESC ainda reunia  suas obras cujas raízes são afrocolombianas, afroperuanas e africanas, executadas com pitadas de modas da roça, de baião, de milonga, de samba, de chamamé, de flamenco, de blues, em um fusão tão inédita quanto saborosa: tábua de quitutes com um bule de café, broa de quinua, pão de queijo de gado andino…

Fabrício Conde, enfim, faz composições que partindo de Juiz de Fora ou da vizinha cidade de Chácara  atravessam as fronteiras brasileiras, alçam os céus como o condor sobrevoando as cordilheiras para ir temperar outras culturas, pousando em paragens como a Inglaterra e a Espanha. Em 2012, ele arrebatou o I Concurso Instrumental Estúdio 66, do Canal Brasil, e foi selecionado para o Projeto Itaú Cultural. A veterana rainha e seus súditos tanto da nobreza, quanto plebeus, curtiram várias composições do brasileiro durante transmissão aos ouvintes da BBC de Londres, enquanto  o álbum em DVD Âncora foi visto com deleite pelo público do canal de televisão Afro Music, da Espanha. A discografia possui Viola Brasileira (2008), Viola da Mata (2004) e São de Viola (2000), mas apenas o primeiro ainda possui cópias disponíveis para venda, além do DVD Âncora.  Ambos, entretanto, com certeza estarão fadados a também se esgotarem depois do concerto em São Paulo. Por isso, é melhor não perder o trem e entrar em contato logo por meio do endereço eletrônico www.fabricioconde.tnb.art.br

Marcio Hallack

Marcio Hallack

 “Tenho grande admiração pelo sertanejo, respeito que eu adquiri com minha avó”, disse Fabrício, que presta tributo ainda entre outras pessoas a Antônio Macaro, uma das personagens que  ele destaca em Âncora, que reverencia como mestre violeiro. Fabrício é  autor dos livros Causos, histórias e um pouco mais… e O Caminho das Asas, este segundo selecionado para a feira literária de Bologna, Itália. Dirigiu vários espetáculos teatrais e compôs a trilha sonora do filme Dulia, uma de suas composições em que se sente tocando piano ao executá-la, já que a concebeu neste instrumento.

“Minhas influências, de maneira geral, encontram-se em Galeano [Eduardo Galeano], Borges, [Jorge Luis Borges], Guimarães [Guimarães Rosa] e Manoel de Barros”, disse. “Também tenho mestres com os quais convivi, mas destaco como um dos mais decisivos em minha formação Ivan Vilela”. Conterrâneo de Itajubá (olha ai , de novo, Deus aquinhoando e fertilizando Minas Gerais com sal dos melhores!), Ivan Vilela é professor da Escola de Comunicação  Artes da Universidade de São Paulo e fundou a Orquestra Filarmônica de Violas, de Campinas (SP), e de acordo com o juiz-forano, o ensinou-o a ouvir o silêncio.

“Eu tinha muita inquietação no começo da minha carreira, queria colocar muita coisa numa nota só. Ivan Vilela me fez aprender a respirar, respeitar o silêncio que há entre uma nota e outra. Sentindo mais a música, pude me acalmar e encontrar meu jeito de tocar”.

Fabrício Conde destacou ainda que a viola é um instrumento muito potente e que, se o músico não perceber esta característica, acaba simplesmente imitando um outro. “Eu descobri que não sou apenas brasileiro, eu sou, na verdade, latino-americano. Em minhas pesquisas e viagens notei que a viola caipira representa muito bem a música destes povos, chegando às comunidades rurais da América Latina. Eu encontrei no cuatro venezuelano, por exemplo, um instrumento muito íntimo e com sonoridade impar que eu posso dizer que é meu”.

Zé Nogueira

Zé Nogueira

Ao pupilo, com carinho

Ivan Vilela escreveu na introdução do encarte de Âncora que em cada nova mão a viola ganha uma contribuição, mas nas mãos de alguns ela cresce mais que em outras. Ainda conforme Vilela, Fabrício Conde tem estirpe e na busca por desenvolver uma linguagem própria incorporou elementos melódicos-harmônicos e elementos rítmicos, gerando um trabalho singular.

“Se há violeiros que fazem a viola soar como se fossem duas, quando Fabrício toca não só as cordas soam, mas também a madeira percutida, criando sons múltiplos que fazem parecer acompanhado por um percussionista. Posso afirmar que sua busca perseverante tem feito de Fabrício um músico genial.”

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Fabrício Conde e o mestre violeiro Antônio, em imagem extraída de Âncora

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

5 pensamentos sobre “Mineiro, Fabrício Conde extrapola adjetivos como violeiro, escritor e contador de causos repleto de predicados

  1. Tive o privilégio de conhecer o trabalho do Fabrício Conde numa apresentação na Caixa Cultural SP num evento de contação de histórias que sua esposa Laura realizou. A mescla de música, versos, histórias foi perfeita!!!

    Estive no show do Instrumental SESC Brasil e não resta dúvida: Fabrício é virtuose e toca de forma magistral. Talento que precisa ser divulgado.

    Ah, Marcelino vc pode enviar por e-mail a foto que tirou da gente (Fabrício, Laura, eu e uma amiga naquele dia)?

  2. Tive o privilégio de conhecer o trabalho do Fabrício Conde numa apresentação na Caixa Cultural SP num evento de contação de histórias que sua esposa Laura realizou. A mescla de música, versos, histórias foi perfeita!!!

    Estive no show do Instrumental SESC Brasil e não resta dúvida: Fabrício é virtuose e toca de forma magistral. Talento que precisa ser divulgado.

    Ah, Marcelino vc pode enviar por e-mail a foto que tirou da gente (Fabrício, Laura, eu e uma amiga naquele dia)?

  3. Marcelino e Andréia, obrigada pelo envio da foto 😉
    Concordo em gênero, número e grau com o seu artigo … foi uma delícia rever o trabalho do Fabrício!
    Sucesso !!!

    • Eu ouvia o Fabrício Conde no SESC Consolação e o imaginava encantando plateias com todo aquele refinamento e qualidade em casas espanholas, francesas etc; triste é saber que ele é uma de nossas mais gratas expressões e aqui entre nós não tem a visibilidade que merece! Um abraço e obrigado por prestigiar o blog. Guarde a foto para mostrá-la e provar que você já teve o privilégio de estar ao lado e desfrutar da amizade deste talentoso e simpático rapaz!

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