Barulho d'Água Música

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Bambas da viola brasileira encontram-se na Galeria Olido, em São Paulo

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Matuto e Indio

Matuto Moderno e Índio Cachoeira (Fotos: Marcelino Lima)

Entre os dias 27 e 29 de novembro quem esteve na Galeria Olido, situada no centro de São Paulo, teve a oportunidade de prestigiar mais uma edição do Encontro Nacional de Violeiros, que há oito anos não ocorria depois de ter sido organizado em Ribeirão Preto. O evento na Capital paulista foi promovido pela Secretaria Municipal de Cultura e reuniu no palco do antigo cinema parte dos mais expressivos cantores, compositores e expoentes do país que se dedicam à transmissão, à preservação e à divulgação de valores vinculados à viola de dez cordas, seja por meio de sua vertente caipira ou regional, permitindo a plateia conhecer variados ritmos e toques numa verdadeira ode à cultura popular.

Os violeiros cantaram e tocaram para brindar o público reisados, catiras, cururus, folias, batuques, cirandas, fandango, modas e até rock’n roll — neste caso por meio das participações dos músicos do Matuto Moderno, grupo formado há 15 anos. O Matuto Moderno encerrou a segunda noite, juntando-se a Índio Cachoeira, um dos mais respeitados do meio, que já estava no palco. Após a apresentação conjunta, Edson Fontes, um dos matutos e também integrante do Favoritos da Catira (SP), disse que ele e os colegas Ricardo Vignini, Zé Helder, André Rass, Marcelo Berzotti e Ricardo Berti haviam acabado de levar Cachoeira “para o inferno”. “E lá muito bom!”, respondeu sem pestanejar o ex-motorista de ônibus da cidade de Guarulhos (SP).    

O Encontro começara na quinta-feira, 27, aberto por Katya Teixeira. Levi Ramiro, depois Pereira da Viola, completaram as atrações do primeiro dia.

O Favoritos da Catira, o Trio Tamoyo, Índio Cachoeira e Matuto Moderno estavam na agenda do segundo dia.

Cacique e Pajé

Cacique e Pajé

O terceiro dia estava previsto para começar às 10 horas, mas por problemas técnicos teve de ser transferido para as 14 horas. Quatro horas a menos obrigaram a maioria dos violeiros a abreviar suas apresentações a, no máximo, três músicas, o que acabou por comprometer a qualidade da festa, em que pese o virtuosismo de todos os que concordaram em levar adiante a programação.

Vale a pena, por exemplo, destacar a passagem pela Galeria Olido da dupla Cacique e Pajé, das mais antigas duplas caipiras em atuação.

Sílvio ES

Sílvio Barbieri

Do Espírito Santo veio Sílvio Barbieri, um dos poucos capixabas que se dedicam à viola caipira, a qual  toca acompanhada por uma gaita. Do estado vizinho de Barbieri, as Minas Gerais, em compensação, compareceu uma plêiade que além de Pereira da Viola contou com Gustavo Guimarães, Wilson Dias, Bilora Violeiro, Joaci Ornelas e Zeca Colares, único atualmente fora das Alterosas, já que residente em Sorocaba (SP).

Tristeza do Jeca

Toninho Porto, Osni Ribeiro e Jaime Além

O time paulista pôs em campo depois dos que se apresentaram em dias anteriores, por exemplo, Júlio Santin (que tocou acompanhado por  Marcos Azevedo), Noel Andrade, Minerim e Guê Oliveira, Osni Ribeiro, e Yassir Chediak.  Ribeiro, ao lado de Toninho Porto, precedeu o show do carioca Jaime Além. Antes de voltar ao camarim, entretanto, convidou Além para com ele e Porto executarem uma versão instrumental de Tristeza do Jeca (Angelino de Oliveira). Foi um dos momentos mais belos do encontro, arrebatou, mereceu os calorosos aplausos do público, em pé.

Roberto Correa

Roberto Corrêa

Antes desta apoteose, Roberto Corrêa (DF) já provocara fortes emoções ao tocar Saudades de Matão, valsa que Jorge Galati consagrou em 1904 quando era maestro da banda ítalo-brasileira de Araraquara. Até 1920, quando a valsa já era bastante popular, sua autoria continuava controversa. A revista paulista A Lua, no entanto, encerrou a pinimba e identificou Galati como compositor da obra, cujo título original era Francana.

Corrêa também relembrou a clássica Chitãozinho e Xororó, que Zé do Rancho e Zé do Pinho assinaram em 1953, mas muita gente pensa que seria de Sérgio Reis, ou Chitãozinho e Xororó, já que é  (um) hábito (triste, para não dizer cômodo) correlacionar o interprete às canções.  Da plateia um ouvinte acompanhou o mestre candango assobiando tal como o inhambu-chintã, uma das espécies aves mencionadas pela música cuja introdução é “Eu não troco meu ranchinho…”

Povos do Sul

Fandango do Paraná e Valdir Verona

Outro versão de música muito apreciada, e que em sua letra traz referências ao nativismo gaúcho, Semeadura (Vitor Ramil e José Fogaça), foi uma das escolhas de Valdir Verona, de Caxias do Sul (RS).

O sul brasileiro também esteve no festival  com o Fandango do Paraná. Brasília, além de Roberto Corrêa, disse “presente!” representada pela dupla Zé Mulato e Cassiano, a qual coube encerrar o evento.

O Barulho d’água Música acompanhou a maioria das apresentações e parabeniza seus organizadores, embora, mesmo não tendo procuração e nem ter sido autorizado pelos violeiros, deixa nesta publicação algumas críticas à Secretaria de Cultura de São Paulo.

O Encontro Nacional de Violeiros só não foi algo parecido com um mero sinônimo de “um banquinho (e neste caso) e uma viola”, como  rolar em qualquer bar paulistano, justamente por conta do talento e do profissionalismo dos músicos.

Sílvio Barbieri disse que ele e os colegas reunidos na Galeria Olido compõem a linha de frente da resistência daqueles que (ainda) se dedicam ao instrumento e tem razão ao fazer tal afirmação.

A viola, embora carregue em suas cordas e em seu bojo várias das manifestações mais tradicionais e ricas da cultura popular brasileira, com direito ainda a pitadas bastante significativas da arte e hábitos de outros povos — desde o seu preparo com a escolha adequada da madeira e a luthieria, até as afinações e toques que vão inclusive para além da música caipira –, continua relegada a alguns programas de expressão em emissoras de televisão e de rádio, blogs e outras heroicas publicações.

A Secretaria de Cultura poderia ter dado bons passos na contramão deste arraigado, histórico desapreço e descaso providenciando, por exemplo, melhor estrutura no camarim (onde quase nem água havia) e fornecendo de tempos em tempos providenciais coffee-breaks — ou, vá lá, ao menos um prosaico cafezinho!

O palco também merecia decoração à altura, com uma arte estilizada para esconder o fundo, e melhor iluminação — em que pese o valoroso e paciente trabalho da equipe destacada para cuidar do som “já que não deve ser fácil para ninguém ficar toda hora passando de novo instrumento por instrumento cada vez que uma nova atração ocupa o palco”, como observou Noel Andrade.

Fica então, a dica: redimir-se destas pisadas na bola, que incluem a inobservância ao pactuado para o sábado, 29, quando o Encontro Nacional estava previsto para começar às 10 horas, tornando-o não apenas uma atividade ocasional cujo nome soa pomposo e sugere ser grande, mas sim um evento oficial da cidade de São Paulo, ainda que não realizado anualmente. Rende votos. Mas renderá, sobretudo, mais público e maior respeito e consideração por estes dedicados e militantes músicos que de tudo fazem (até cantar de graça, oh imoral desfeita!) para que esta cultura tão bela e tão nossa cara não caia no esquecimento, cada vez mais obliterada por conveniências mercadológicas e seus artistas de parco talento, gostos e penteados duvidosos. E vamos que vamos pois atrás vem gente e o próximo Caipirapu (SP), amigos e seguidores, vem ai, pela frente…   

Relação dos que se apresentaram na Galeria Olido

27/11, quinta-feira

Katya Teixeira (SP); Levi Ramiro, Pirajuí (SP); Pereira da Viola, Belo Horizonte (MG)

28/11, sexta-feira

Favoritos da Catira,  Guarulhos (SP);  Índio Cachoeira, Alfenas (MG); Trio Tamoyo, São Paulo (SP); e Matuto Moderno, São Paulo (SP)

Gustavo Guimarães, Wilson Dias, Joaci  Ornelas, Guê, Pereira da Viola e Bilora

Wilson Dias, Gustavo Guimarães, Bilora, Guê Oliveira, Pereira da Viola e Joaci Ornelas, de Minas Gerais

29/11, sábado

Cacique e Pajé; São Paulo (SP); Luiz Faria e Silva Neto; Campinas (SP); Miriam Viola, São José dos Campos (SP); Gustavo Guimarães, Belo Horizonte (MG); Fandango do Paraná, Curitiba (PR); Wilson Dias, Belo Horizonte (MG); Zeca Collares, Sorocaba (SP); Júlio Santin, Irapuru (SP); Joaci Ornelas, Belo Horizonte (MG); Bilora, Contagem (MG);  Sílvio Barbieri, Vitória (ES); Roberto Corrêa, Brasília (DF); Valdir Verona, Caxias do Sul (RS); Noel Andrade, São Paulo (SP); Minerim e Guê Oliveira, Pontal do Paranapanema e Ribeirão Preto (SP); Osni Ribeiro, Botucatu (SP); Jaime Além, Rio de Janeiro (RJ);
Yassir Chediak,  São Paulo (SP); e  Zé Mulato e Cassiano, Brasília (DF).

Caipirapuru

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

2 pensamentos sobre “Bambas da viola brasileira encontram-se na Galeria Olido, em São Paulo

  1. Muito boa e providencial matéria que vou reproduzir no nosso boletim ‘noticias da viola”. Mas faltou citar o segundo grande feito deste evento depois da presença e talento dos violeiros e violeiras, que foi as reuniões onde se afirmou a necessidade de mais gente aderir ao movimento e assim fortalecer a ANVB e respaldar os diversos indicativos já em andamento como a criação de uma politica cultural que atenda as demandas do movimento, uma frente parlamentar em defesa da música e viola caipira e outras elencadas nas cartas de RP, Caipirapuru e Brazlândia 2013/14. Na oportunidade, foi elaborado um oficio solicitando aos parlamentares que forem sencíveis a causa, emendas para a realização do primeiro congresso nacional de música e viola caipira e um edital de circulação nacional. O documento será protocolado dia 11 peóximo em peregrinção no congresso nacional em Brasília pela comissão formada por Volmi Batista, Luiz Faria, Minerim, Pereira da Viola e Fabiuz que vai tentar vir. Caso mais alguém queira integrar essa comissão, seja bem vindo. A carta de Brazlândia está nos sites http://www.clubedovioleirocaipira.com.br e violeirosdo brasil.

    • Obrigado Volmi pelo comentário. Sobre a observação que você fez esclarecemos que embora tenhamos conversado com todos os violeiros e atrações presentes na Galeria Olido, muitos dos quais nossos amigos de longa data, nenhum deles mencionou estas justas reivindicações e atividades que envolvem a necessidade de mais respaldo aos músicos dedicados à viola. Nós, é claro, apoiamos a causa. Fique à vontade para nos informar sempre que tiver novidades neste sentido para divulgarmos!

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