Trio José lança “em casa” Puisia, álbum que homenageia o poeta mineiro Juca da Angélica

trio josé artew
O Trio José vai apresentar as onze faixas do disco Puisia, no qual faz tributo ao poeta mineiro Juca da Angélica (Foto:Maria Rita Oliveira)

 

O Trio José, grupo paulista de São José dos Campos, vai lançar em show gratuito o álbum Puisia nesta terça-feira, 6, a partir das 20 horas, no Sesc daquela cidade, situada no Vale do Paraíba. 

As músicas de Puisia são compostas a partir de poemas do poeta popular mineiro Juca da Angélica. O repertório traz uma diversidade de gêneros como baião, ijexá, toadas, rock e jazz, e ainda contempla as influências de cada integrante. O Trio José estará no palco com Victor Mendes (voz/viola), Danilo Moura (voz/violão), Hugo Cardoso (contrabaixo) e André Rass (bateria).

 

Abaixo, extraído do sítio eletrônico do Trio José, segue uma apresentação rica e detalhada, escrita por Sílvio Diogo, e intitulada Enquanto a Lua Alumeia. Os vídeos são do programa gravado para o Sr.Brasil, em outubro, quando o Trio José foi recebido por Rolando Boldrin no Teatro do Sesc Pompeia. Sesc de São José dos Campos fica na Avenida Adhemar de Barros, 999, Parque Santos Dumont. 

 

Enquanto a Lua Alumeia

Um ambiente sonoro de sonho e lembrança compõe o disco de estreia do Trio JoséPuisia. A generosa ousadia de pedir licença aos mais velhos alimenta a originalidade do tributo à arte do poeta Juca da Angélica — nascido em 1918 em Lagoa Formosa (MG) —, autor dos versos que se converteram nas onze canções do álbum.

O carrear dos bois, o cotidiano do trabalho na roça, as noites de pescaria, a água panhada na cabaça rondam o universo de uma cultura material que não mais se vê, mas que se entreouve na viola dedilhada por Victor Mendes, na voz tocante, de timbre comovente, de Danilo Moura.

A amarração de sons de origens e gêneros díspares, sob a batuta da viola e da voz, ganha contornos modernos em canções como Boiada ruim, em que a presença da percussão de Igor Caracas e do baixo acústico de Clara Bastos transportam o ouvinte para contextos rítmicos e melódicos de outros sertões.

O diálogo intercultural potencializa, pela música, a expressividade das variantes linguísticas da poesia de Juca da Angélica, de antigas palavras e interjeições, de rimas e quadrinhas. Essa aproximação não se dá de modo exótico ou caricatural, na medida em que os compositores percorrem e incorporam trilhas desbravadas pela música de viola no Brasil — em artistas como Renato Teixeira, Almir Sater, Roberto Corrêa, Ivan Vilela, Renato Braz —, mas guardam a liberdade de produzir a sonoridade própria de um repertório que traz influências do jazz, do flamenco, da canção latino-americana.

Destaca-se, na escuta do disco Puisia, a forma delicada com que se tece o afeto amoroso e se constroem as imagens do universo feminino — traço salutar da poesia de Juca da Angélica que os músicos do Trio José bem souberam burilar na melodia e na harmonia de canções como Eu tranquei meu coração, Onde tu pisa, Maria, Meu amor é uma garça, entre outras.

Nota-se, nesse aspecto, que a referência ao feminino está quase sempre confundida e combinada à reverência à natureza, o que se faz perceber mais nitidamente nas faixas Oh! Qui tempo, bem mim lembro e Perguntei a Sete Istrela, em que os movimentos cíclicos da lua, dos ventos, dos astros e das águas têm conotação íntima e cósmica: Enquanto a lua alumeia/ Meu amor seguro istá!.

No arremate do disco, a canção Sô rocero traz a presença dos intérpretes Saulo Alves e Dami Baz, músicos de referência do Trio José. Saulo, compositor de boa parte das canções do álbum, é um dos responsáveis, juntamente com o poeta Paulo Nunes — organizador do livro de Juca da Angélica Meu canto é saudade (2001) — pelas belas pontes construídas entre os versos de Juca e a musicalidade do presente trabalho.

O canto é de saudade e é também o suspiro entre o esforço e o consolo, a lida e o descanso: Eu gosto de trabaiá/ E enfrento o pesadão. A cadência e o cuidado que se percebem na feitura do CD Puisia — e que se manifestam no projeto visual do encarte, de autoria de Andreas Guimarães — apoiam-se na percepção apurada dos artistas do Trio José de estarem diante do desafio da tradução não apenas entre linguagens, mas entre gerações, espaços e temporalidade.

Sílvio Diogo

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