Barulho d'Água Música

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Personagens femininas das músicas de Chico Buarque: mulheres das nossas vidas

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Chico Buarque compôs várias músicas em cujas letras retrata traços da personalidade feminina, olhar sensível e poético que mereceu uma atenção especial e indagações sobre onze delas por colaboradores da revista eletrônica de cultura Kalango

Amigos e seguidores:

Conforme divulgamos nesta semana, o Barulho d’água Música e a revista eletrônica de cultura, política, entretenimento, artes e assemelhados Kalango tornaram-se parceiros para compartilhamento de conteúdos.

Depois da matéria sobre o lançamento do segundo álbum de Tatá Aeroplano, o blog agora abre suas páginas para o texto de Liliane Santos de CamargosPaulo Gabriel Franco dos Santos, cujo título é Onze Mulheres de Chico, com uma visão de ambos os autores sobre personagens femininas do universo do cantor, compositor e escritor carioca Chico Buarque. O texto está na mais recente edição da Kalango, que pode ser conferida na integra clicando-se nas palavras destacadas em azul claro, ou digitando no seu navegador o endereço  http://issuu.com/osnidias/docs/kalango_20. Curtam e compartilhem!

As onze mulheres de Chico

Liliane Santos de Camargos Paulo Gabriel Franco dos Santos, especial para a Revista Kalango

À primeira vista, o verbo “experimentar” usado como referência a um tipo de relação entre  pessoas, pode parecer, aos olhos mais criteriosos, uma expressão de mau gosto.  Explicamos. Ao nos envolvermos na missão de escrever sobre as mulheres de Chico  Buarque sabemos que estamos nos enveredando em um campo já bastante visitado, sob  diferentes olhares, múltiplos enfoques e intenções também diversas. Nosso intuito,  porém, é mais lúdico que analítico no sentido político, linguístico ou artístico e, por isso, menos pretensioso. Ainda que tais elementos possam ser mobilizados para compor o nosso ensaio. Trata-se, sobretudo, de dizer quem são essas mulheres que Chico desenha com palavras, sensações e símbolos ao ouvido e olhos de quem as experimenta, de quem as experiencia por meio da leitura ou escuta das canções. Ou seja, buscamos sintetizar uma descrição de uma mulher qualquer que conhecemos há um tempo. Conhecemos as pessoas por ler sobre elas, por conviver, por escutar sobre. As mulheres de Chico são também por isso nossas conhecidas. Fazemos imagens delas. Podemos vê-las caminhando, chorando, sorrindo, pedindo, querendo, transando, negando, odiando… sendo. Suas expressões, gestos, gostos e até o cheiro nos pode ser criado. Essa criação feita por nós, a partir da subjetividade de quem escreve, é o que o leitor vai encontrar neste texto.

Geni – Geni é, sem dúvida, das mulheres mais intensas, complexas e queridas de Chico. A narrativa que compõe a personagem de Geni é prato cheio para análises políticas, sociais, linguísticas. Na Ópera do Malandro, Geni é retratada como uma travesti que oniricamente se torna mártir de uma cidade. Popularmente, Geni é uma mulher que divide sensações e opiniões. Há quem diga que se trata de uma prostituta que sempre foi tratada com desdém e humilhações pela sociedade. Há outros porém, que vê em Geni não uma prostituta, mas uma doce e alegre mulher, querida no mundo marginal, livre praticante de sua sexualidade e dona do seu corpo, que se resigna diante de uma situação que lhe causa asco para um bem maior: a redenção da cidade. A segunda parece a descrição mais alinhada com o que se expressa na canção. Geni apresenta uma constância de personalidade de menina à adulta. Isso porque a música consegue exprimir, de alguma maneira, esta linha do tempo. Uma mulher boa, gentil, amável e amada no contexto do “submundo”. Na tal alta sociedade, porém, onde transitam os banqueiros, o prefeito e o bispo, Geni é a digna de apedrejamento por sua suposta libertinagem. Estes são os mesmos personagens que se prostram e imploram que Geni empreste sua fêmea diante da ameaça de aniquilação da cidade por canhões em um Zepelim de um magnata. Novamente Geni mostra sua genuinidade: prefere amar os bichos a se deitar com um nobre homem cheirando a brilho e a cobre. Tão intenso quanto o asco de se dar luxuriosa à nobreza é o tamanho do seu coração e acaba satisfazendo coro que a queria atendendo aos desejos do nobre ameaçador. Ocorre que no ápice da sua inocência e pureza, julgando ter realizado o grande ato mártir e redentor da cidade e de si, “num suspiro alividado, ela se virou de lado e tentou até sorrir”… mas a sociedade é injusta, Geni! E como se estivesse saindo de um pesadelo, passado de relance por segundos de uma doce realidade [ainda onírica], entra em outro sonho nebuloso: a realidade como tal.
Impossível falar de Geni sem mobilizar sua história. Geni vai se revelando nos seus atos, no seu gracejo de menina, no seu ato mártir com a gente da cidade, na inocência de achar que tudo estivesse resolvido, nas suas escolhas e rejeições.

Beatriz – Quando se escuta Beatriz, arma-se uma grande tenda ao redor e um universo circense, fantástico e fantasioso começa a se movimentar. Uma rígida artista circense. Ama a arte da acrobacia, “dança no sétimo céu e acredita que é outro país”, entrega-se totalmente ao ofício artístico sendo isto o que lhe proporciona alegria. Beatriz, porém, poderia ser representada pelo arquétipo do palhaço triste (Será que é mentira? Será que é comédia? Será que é divina a vida da atriz?). Beatriz se lança a sua casa cenográfica, etérea, mas chora em um quarto de hotel. Não há outra possibilidade para Beatriz. Está imersa na vida circense e sabe disso. O que lhe resta é entregar-se de maneira total ao espetáculo e assim sê-lo. “Para sempre é sempre por um triz… Diz quantos desastres têm na minha mão?”, até que um dia Beatriz despenca do céu. E se despencar, se os pagantes pedirem bis, por visceral que é circo em sua vida, Beatriz vai em pedaços repetir o ato.

Carolina – Carolina é a mulher triste, melancólica, carregada, indiferente a um mundo que não seja o da sua dor. Trata-se de uma mulher que reflete já do exterior, exala pelos poros, seu abatimento, prostração, tristeza, amargura: “Nos seus olhos fundos”; “Seu pranto não vai ajudar”; “Nos seus olhos tristes”. Qual é o fardo de Carolina? Chico narra Carolina na posição de alguém que tentou, se esmerou em arrefecer a melancolia de Carolina (“Eu já lhe expliquei” / “Eu já convidei pra dançar” / “Eu bem que mostrei sorrindo” / “Eu bem que avisei” / “Mil versos cantei pra lhe agradar”), mas Carolina manteve-se indiferente e, por fim, já não sabe mais como explicar, o tempo passa e passam os esforços para desenhar um mundo lugar dócil para Carolina.

Nina – Nina é a mulher estrangeira, ao que tudo indica, russa. É cheia de jovialidade, frescor, tem o seu interlocutor como confidente online. Não há amor arrebatador. Aliás, aparentemente nem amor há. Trata-se de uma amizade, por meio da qual Nina conduz ao outro a um mundo curioso, a se descobrir, desvelando sua cultura estrangeira e se interessando pela do outro. (A valsinha que compõe a canção é uma das delícias que vale destacar).

Rita – a Rita foi vítima de uma sacanagem sem tamanho e ficou colérica, ou Rita é colérica e fez uma sacanagem sem tamanho. Pelo menos quando se trata de uma reação mais enérgica, Rita mostra a que veio. De qualquer forma, Rita é a que sai de casa, devastadora, e deixa o sujeito que fica arrasado, se lamentando peças que Rita reclamou pra si e pelos estilhaços deixados. Rita é daquelas mulheres que não ficam no prejuízo por submissão, ao contrário, tira proveito, passa por cima, causa “perdas e danos”. O que resta, entre os cacos deixados por este furacão de mulher, é o lamento de quem conta a história daquela com quem um dia teve planos (agora levados) e um amor (agora morto de vingança).

Ana de Amsterdã – A vida de Ana não é fácil…Veio para cá em busca de um amor verdadeiro, buscava compromisso (“Eu cruzei o oceano, na esperança de casar”), resta a dúvida se havia uma promessa de casamento ou se foi um ‘tiro no escuro’ (“Fiz mil bocas pra Solano, fui beijada por Gaspar”)… Mas o que encontrou foi diferente do que esperava, e seu destino mudou, até que a esperança se esvaísse (“Hoje sou carta marcada, Hoje sou jogo de azar”). Não dá para falar de Ana sem que lágrimas me venham aos olhos, teria encontrado (e se mantido) a prostituição por falta de opção? Ou neste mundo ela se encontra e, por isto se resigna já que sabe ser o único mundo possível?

Joana Francesa – Joana vive um mundo muito diferente do de Ana, vida glamourosa já que é dona do Negócio… isto resta evidente em sua narrativa: ela não se lamuria de sua situação, mas aproveita o que está posto. Sabe-se que a personagem depois se enamora por um cliente, mas a narrativa da letra não transparece isto. O que resta evidente é que ela se realiza em seu mundo (“Mata-me de rir, fala-me de amor”) e realiza o que seus clientes dela esperam: seja um consolo “Vem molhar meu colo Vou te consolar” ou algo mais “Vem, mulato mole Dançar dans mes bras”; “Vem, moleque me dizer Onde é que está”.

Rosa (de “A Rosa”) – De início, restam duvidas se ela era a mesma que dividia o cara com Lia, da Ilha, e por isto, agora, vingava-se fazendo o mesmo que o sujeito com ela fizera. Mas uma analise mais delicada das duas letras mostra que não: são mulheres distintas, em historia e em comportamento. Rosa consegue, de modo brilhante, levar os dois relacionamentos. É ‘meigo’ o modo como Rosa consegue enganar os sujeitos, por um tempo, até o momento que um descobre (“arrasa o meu projeto de vida”). Neste desdobrar-se, comete pequenos deslizes (“às vezes me chama Alberto”, “me trouxe uma roupa justa”), por outras, seu desdobramento agrada (“pagou a nossa despesa”, “inventa cada carícia”). Fica claro que a brincadeira acaba, “Ah, Rosa, e o meu projeto de vida? Bandida, cadê minha estrela guia; Vadia, me esquece na noite escura”. Ela escolhe um dos dois, por fim? Não é possível concluir… Talvez tenha partido em outras aventuras amorosas.

Cecília – É uma das grandes musas. Um amor platônico (ou pueril). O homem enamorado por ela chega a perder a fala quando dela se aproxima. Ele não fala em beleza física (diferentemente de Renata, onde fica claro que a contemplação é física, só).
Quem não quis ser a Cecília de alguém que atire a primeira pedra (“Eu te murmuro, eu te suspiro, eu que soletro teu nome no escuro”). Em alguns momentos parece ser perseguição (“Te olho, Te guardo, Te sigo, Te vejo dormir”), ou a contemplação de quem conquistou a musa amada. A paixão provocada por Cecília faz com que o artista não consiga usar seu dom para enaltecê-la (“Quantos artistas Entoam baladas Para suas amadas Com grandes orquestras. Como os invejo, Como os admiro”), é um sentimento inebriante, (“eu, que te vejo e nem quase respiro”) e tão intenso que não pode ser compartilhado com a sociedade (“Mas nem as sutis melodias Merecem, Cecília, teu nome Espalhar por aí”). Sem dúvida é uma das mulheres mais envolventes que Chico já cantou.

Renata Maria – Esta é a musa cuja contemplação é física, estrita e pura. O mundo para ao redor dela (“pranchas coladas nas cristas das ondas, suspensas no ar”). Mas é uma paixão que não prospera, ficando apenas na admiração física… ele a quer, tenta abordá-la, mas as palavras ficam aprisionadas. Ele a espera, pensa que ela vai voltar, mas ela não volta (“Tão fulgurante visão, Não se produz duas vezes no mesmo lugar”). A paixão por Renata Maria poderia ter evoluído ao nível da de Cecília? Não é possível saber, pois Renata Maria não retorna àquela praia, apesar da espera (“Dia após dia na praia com olhos vazados de já não a ver”).

Lily Braun – Lily é uma artista estonteante, provoca no seu admirador uma paixão tão avassaladora que ele já não pode mais viver sem tê-la. De outro lado, ele é tudo que ela desejou (“O homem dos meus sonhos me apareceu no dancing”): queria ela uma vida ‘estável’ que O Circo não poderia jamais fornecer? O desejo brota instantaneamente de ambas as partes: “Ele me comia Com aqueles olhos de comer fotografia”; “Fui perdendo a pose E até sorri, feliz”. Durante toda a temporada, ele voltou (“me mandava as vezes uma rosa e um poema”; “E voltou No derradeiro show Com dez poemas e um buquê”) e é quando ela vive seu maior dilema: ficar com ele ou ir com os seus: “Eu disse adeus Já vou com os meus numa turnê”. Como ele era o homem de seus sonhos, ela escolhe ficar. Neste momento, descobrem que nenhum dos dois era o que o outro queria: ele a queria esposa, e ela era uma artista, o que não era possível esquecer ou se desvencilhar. O que resta? Uma vida infeliz para Lily: “Uma rosa nunca Nunca mais feliz”.

As mulheres de Chico são encantadoramente reais. Desde a “gringa” conhecida pela internet, até a musa inspiradora, passando pelas mulheres mais comuns que qualquer um de nós nos deparamos pela vida, todas elas são descritas, desveladas, compartilhadas de maneira poética. Os símbolos presentes nas músicas nos alertam para a imediata identificação. É inevitável a composição dessas mulheres por parte de quem ouve. Compõe-se os corpos, os risos, as expressões, os gestos, a vida, o cenário. Por vezes, as relacionamos com mulheres das nossas vidas, sejam elas reais, ou personagens de filmes e livros. De todas as formas, são mulheres conhecidas que nos são reapresentadas com todo o requinte artístico e com um convite a nos encantarmos e deliciarmos com seus mistérios.

N.R.:

As mulheres cantadas por Chico Buarque de Holanda também são tema de estudos da escritora Adélia Bezerra de Meneses, que lançou pela Ateliê Editorial Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque. O lançamento ocorreu em 2000, mas no sítio da editora ainda é possível comprar um exemplar, por R$ 57,00. Em sebos, ou mesmo por canais de venda on-line, poderá trazer o livro até vocês ao preço médio de R$ 20,00. Em uma breve apresentação, a Ateliê assim descreve o estudo de Adélia :

“Chico Buarque é um dos poetas que mais sensivelmente captam o feminino e o exprimem, traduzindo-o em palavras e música. Em sua lírica emerge o ser e a fala da mulher, de uma perspectiva espantosamente feminina. É esta a proposta deste livro: um estudo das letras que modulam o feminino, numa abordagem ora sociológica, ora psicanalítica. Reproduções de Ismael Nery, Volpi, entre outros, estabelecem um interessante diálogo texto-imagem”.

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Kalango

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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