Consuelo de Paula lança O Tempo e o Branco com homenagens a Adoniran, Dércio Marques e Rubens Nogueira em Sampa

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Consuelo de Paula durante o show no Ibirapuera: linda, feliz, carinhosa, grata, levando nossas dores, lavando nossos horizontes (Fotos: Marcelino Lima)

 Ontem, 1 de fevereiro de 2015,  fez exatamente um ano que conheci, pessoalmente, a cantora, compositora e poetisa Consuelo de Paula. Fomos apresentados por Katya Teixeira durante um café no Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo, momentos antes de Katya Teixeira se apresentar como convidada, ao lado de Noel Andrade, em um show na Sala Adoniran Barbosa de Luís Perequê no qual o cantor e compositor de Paraty (RJ) ainda recebeu e Guarabyra.

Aquele dia era um sábado e eu estava com minha amada companheira Andreia Regina Beillo, e o leal amigo Osni Dias. Ontem, domingo, um ano depois, novamente ao lado de Andreia e agora de vários amigos como Cláudio Lacerda, Levi Ramiro Silva, Júlio Santin, Giba da Viola, Amauri Falabella entre tantas outras pessoas distintas na plateia como a cantora Cida Moreira e o casal Oswaldinho e Marisa Viana, reencontrei Consuelo de Paula. Desta vez no palco do Auditório Oscar Niemeyer, no Ibirapuera, também em Sampa, ela era a estrela — acompanhada pelos não menos brilhantes João Paulo Amaral (maestro regente da Orquestra Filarmônica de Violas de Campinas, violeiro notável) e Guilherme Ribeiro, acordeonista extraordinário.

 

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joão paulo ab

Com carreira de mais de quinze anos, Consuelo de Paula estava em noite de realização pessoal, linda, lançando seu sexto álbum, O Tempo e o Branco. Nesse disco, inspirada livremente nas poesias de Cecília Meireles,  ela apresenta composições próprias que unem aspectos da música erudita a uma essência e referências ligadas ao cancioneiro popular brasileiro do qual, no show, cantou, por exemplo, Cuitelinho, Mucuripe e Saudosa Maloca.

A escolha instrumental, composta de acordeom e viola caipira, representa bem essa relação com as raízes musicais nacionais que levou Consuelo de Paula a homenagear no Ibira São Dércio Marques e o sambista do Brás, do Bixiga, da Barra Funda, de Ermelino Matarazzo, da Penha, da Vila Ré, da Vila Matilde e adjacências Adoniran Barbosa. O tributo ao amigo do Arnesto foi por meio de uma música inédita que ela compôs para letra dele e de Copinha, escrita… em 1934!.

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Por meio da projeção de um vídeo, o público pode ver e ouvir, também, Rubens Nogueira. Ele é o saudoso Rubão, um dos parceiros, compositores e arranjadores mais próximos da fulgurante artista que nasceu em Pratápolis/MG e que, apesar de todo o carisma, talento e força poética (atributos que a fazem ser admirada pelo público) ainda não foi alçada ao seu devido lugar como referência obrigatória, para dizer o mínimo, na constelação em que reluzem com todos os méritos Dolores Duran, Marlene, Chiquinha Gonzaga, Clara Guerreira, Elis Regina, Nara Leão, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Mônica Salmaso, Leila Pinheiro, Marina, Alcione…

Como jornalista estou acostumado a escrever sobre quase tudo: de futebol a cinema, de política a literatura, notícias do dia a dia. Meto-me, de quando em vez, a escrever crônicas e poemas, virei blogueiro de música por paixão, muitos elogiam meu texto e me pedem dicas. Mas não me peçam para escrever, pelo menos não de forma isenta e objetiva, como e o que é ver e ouvir Consuelo de Paula. Podem ter certeza, meus amigos, minha competência e sensibilidade não a alcançam… mas vamos tentar, ainda que utilizando palavras e imagens dela própria! 

Para começo de conversa, salve o santo, salve o samba, salve ela: Consuelo de Paula paira acima de qualquer definição que não seja poesia em seu estado mais puro e envolvente. É um rebento, um trovão, um curativo em forma de flor. Tem a cor de todas as fitas de fé e de louvor: embora saiba bem cantar a cor daltônica da dor, tempera com anis estrelado, pimenta de cheiro, cravo e canela a essência do amor; é um caminho para Deus, e, ela mesma, divina; entre o sol e o vento, Consuelo de Paula é êxtase que passa e (nos) perpassa, doce, mas forte, sutil, entretanto enfática; arrepio! 

Consuelo de Paula traz calmaria: ao cantar nos faz esquecer o tempo lá fora, se chove ou faz sol, se é noite ou dia, fevereiro ou março, se deu Corinthians ou Marília, se algum caboclo ou orixá vale por nós; quem se importa se o instante existe quando ela está ali, preto no branco, abrindo os braços para te envolver, cruzando as mãos no peito em reverência agradecida por tua presença e pelas bençãos dos terreiros e dos templos, convidando-nos a bailar com ela — sejamos sós, alegres ou tristes, palhaços ou poetas? 

Ela é o tempo do sonho de um amor consumado na areia à beira mar e que o refluxo das marés não tem força para apagar ou levar de volta ainda que fugidio; um pouquinho de dor, a pitada precisa de saudade e até de um flerte com a melancolia, pois esta acácia tanto abre o céu depois como provoca (d) os temporais; asas em forma de pétalas que nos levam entre o azul e o vermelho ou a sobrevoar o nada, sobre um jardim de rosas amarelas: sem peso, bailarinos livres da vergonha do traço de loucura e do pecado original que carregamos; palestinos, judeus, ateus, africanos, cristãos, latinos, irmãos dotados da bendita capacidade de ter permanente esperança… 

Ah, Consuelo de Paula das marchas, dos sambas, das serestas, dos baiões, das cirandas, das folias, dos maracatus: (en) cante (nos) sempre… 

 

quarteto

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4 respostas para “Consuelo de Paula lança O Tempo e o Branco com homenagens a Adoniran, Dércio Marques e Rubens Nogueira em Sampa”

    1. Bem… Quando se trata de escrever de alguém com a luminosidade e ímpar como a Consuelo de Paula só mesmo utilizando palavras e imagens da própria! De quê outra maneira se não costurando o que ela mesma nos diz e nos provoca? Triste é saber que ela e muitas outras de nossas divas — vide Katya Teixeira, vide Daniela Lasalvia e nossas Vozes Bugras ainda não têm o devido reconhecimento; por outro ângulo: será que elas precisam? Então, se depender de nós, terão, sempre, e ainda mais… Meu amor te espera, entre o sol e o vento…

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