Nome de ponta da MPP, Jean Garfunkel lança 13 Pares e um Fado Solitário em São Paulo

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Joana Garfunkel, Jean Garfunkel, Natan Marques, Pichu Borreli, Sergio Bello e Pratinha Saraiva durante a apresentação em São Paulo

Poeta, publicitário, ator, cantor e compositor. Jean Garfunkel é um nome não apenas para o qual amantes da boa música e seguidores deste Barulho d’Água Música devem ficar sempre atentos, mas guardar com carinho, sem deixar, é claro, de procurar conhecer e curtir sua obra de diversificada trajetória. Paulistano da gema, boêmio inspirado que até de suas voltas por praças e parques tira maravilhas, Jean Garfunkel é craque de um timaço de músicos de Sampa em cuja escalação consta, entre outros, Paulo Vanzolini, Adoniran Lula Barbosa, Júlio Medaglia, Eduardo Gudin, o mano Paul Garfunkel, Natan Marques, Pratinha Saraiva, Cláudio Lacerda, Léa Freire, Renato Braz; Elis Regina, embora fosse gaúcha de berço, também não ficaria sem uma camisa no escrete da MPP (Música Popular Paulista).

Elis, por sinal, foi uma das homenageadas por Jean Garfunkel na agradável noite de sexta-feira, 20, quando ao lado de Sérgio Bello (baixo), Pratinha (flauta e bandolim), Pichu Borrelli (teclados), e Natan Marques (guitarra e violão), ele lançou no Sesc Belenzinho (SP) o álbum 13 Pares e um Fado Solitário, que teve, ainda, a especialíssima participação da filha, Joana Garfunkel. Jean Garfunkel contou que o roteiro do show teve de sofrer uma pequena adaptação para que ele incluísse na abertura Calcanhar de Aquiles, música que ele compôs e a Pimentinha gravou. “Fiz a mudança de última hora para poder saudar a Vai-Vai, campeã do carnaval aqui de São Paulo e que dedicou o samba-enredo à Elis”, afirmou. “Elis Regina era uma cantora de coração verdadeiro, apoiou muitos artistas quando eles estavam em início de carreira, como eu, e me deu a honra de gravar esta música”.

13 pares

O repertório do novo disco reúne 13 canções de Jean Garfunkel com parceiros como os já citados, além de Alessandro Penezzi, Sizão Machado, Théo de Barros, Pasquale Nigro e Marcos Resende. “Este show, assim como o disco, é um tributo à canção brasileira,  abrangendo diversos ritmos e gêneros poéticos, harmônicos e melódicos”, contou. “Do samba à valsa, do baião à toada, até chegar ao fado que, segundo alguns pesquisadores, embora seja filho de portugueses, nasceu no Brasil”.

O projeto para gravação do disco foi contemplado pelo Programa de Ação Cultural (Proac) e está à venda pelo sítio www.cantolivro.com.br, ao custo de R$ 30. A arte gráfica e as ilustrações da capa e do encarte são de Bruno e Yuri Garfunkel (Sopa Gafix), com foto de John Cliford.  O fado, no caso, única canção de autoria exclusiva de Jean Garfunkel, é o fator de contraste no contexto das treze parcerias que revela as duas faces simultâneas da criatividade do autor; letra e música.

 No Sesc Belenzinho um dos momentos mais marcantes, entretanto, veio com outra canção que não está no álbum novo, Avenida São João, na qual Garfunkel, filha e os músicos referiram-se ao escritor mineiro João Guimarães Rosa, mencionando ainda o compositor maranhense Catulo da Paixão Cearense, de Luar do Sertão. Antes de cantarem a bela Cruzeiro do Sul, parceria dele com Paul, gravada por Renato Braz, Jean e a filha declamaram poema que integrou no ano passado Bodas de Chumbo, projeto que aborda de forma crítica os 50 anos da ditadura militar (leia abaixo). Já no bis, outro ponto alto para arrebatar a plateia: a fusão de Trem de Ferro, de Manuel Bandeira, com Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa-Lobos.  

 

Nada a comemorar, mas esquecer… jamais!

O espetáculo Bodas de Chumbo mescla música e literatura, a partir de obras primas da resistência cultural durante o governo dos milicos, produzidas entre 1964 e 1985 por artistas como Chico Buarque de Holanda, Millôr Fernandes, Gianfrancesco Guarnieri e Ferreira Gullar, complementado por textos sobre a Imprensa Alternativa na Ditadura e a Dramaturgia no Brasil da Censura. Cinquenta anos depois do golpe, alguns fatos foram superados e outros jamais o serão, mas a qualidade insuperável da verdadeira expressão artística é atemporal e, portanto, há que ser constantemente revisitada para que os novos cidadãos brasileiros jamais percam de vista a perspectiva histórica e estética de seu país. Só a memória viva, artística e emocionada daqueles anos de chumbo pode garantir que as atrocidades do passado jamais se repitam no futuro. O elenco junta Jean Garfunkel, Joana Garfunkel, Pichu Borrelli, Natan Marques e Pratinha Saraiva.

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Jean Garfunkel,  de diversificada trajetória artística, é uma das pontas-de-lança da criação da música paulistana e estrela o time ao lado de nomes como o do irmão, Paul, Lula Barbosa, Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa. No Sesc Belenzinho, ele convidou a filha para apresentar o quarto álbum da carreira, rendendo tributos a Elis Regina e a Guimarães Rosa (Fotos: Marcelino Lima)

 

Repertório do CD 13 Pares e um Fado Solitário

1.Estrela Extinta – de Jean Garfunkel e Prata Saraiva

2.Peixe Dourado – de Jean Garfunkel e Paulo Garfunkel

3.Era Apenas Um Menino – de Jean Garfunkel e Natan Marques

4.Tiê – de Jean Garfunkel e Lula Barbosa 

5.Beira da Ribeira – de Jean Garfunkel e Alessandro Penezzi

6.Valsa Paulistana – de Jean Garfunkel e Júlio Medáglia

7.Noiva e Rainha – de Jean Garfunkel e Marcos Resende

8.Acalanto Para Bela Adormecida – de Jean Garfunkel e Sizão Machado

9.Boinas e Cachecóis – de Jean Garfunkel e Lony Rosa

10.Sonhando Acordado – de Jean Garfunkel e Arismar do Espírito Santo

11.É as Conta que Manda ni Nóis –  de Jean Garfunkel e Pasquale Nigro

12.Amiúde – de Jean Garfunkel e Theo de Barros

13.Nas Crinas do Vento – de Jean Garfunkel e Léa Freire

14.Do Incógnito Conteúdo – Jean Garfunkel (Fado)

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5 respostas para “Nome de ponta da MPP, Jean Garfunkel lança 13 Pares e um Fado Solitário em São Paulo”

    1. Boa tarde, Mônica, e nos desculpe pela demora em responder! Segue a letra da música que você nos pediu! Obrigado por ler o Barulho d’água Música!

      Mil lágrimas de chuva fina pelo ar
      Num lento movimento
      Peneirando o tempo
      De um outro momento
      No mesmo lugar
      Nas páginas de um livro antigo que não li
      Um sentimento do qual não me lembro
      E jamais me esqueci
      Miiragem nas retinas prismas no olhar
      No cine da memória passa um filme em sépia
      Que é cópia da história
      Que me é familiar
      Meu pai pegando um bonde na Praça da Sé
      E um piano ao longe
      Toca um choro bom de Nazaré
      Começa a garoar
      Agora é pra valer
      O povo aperta o passo e abre o guarda-chuva
      Pra se proteger
      A alta do café
      As moças do michê
      Que os lampiões já começaram a se acender
      É noite e tudo é noite
      Nas águas do Tieté
      E bate uma saudade do Mário de Andrade
      E uma vontade inquieta de me comover
      Fazer uma seresta como sói acontecer
      Se a lua se derrama e a Valsa Paulistana
      Vem me socorrer
      Um banzo português
      Às vezes vem na voz de um bandolim
      E lembra uma guitarra e toca assim
      Chorando quase um fado
      Ai de mim!
      Um gosto de canção napolitana
      E a boemia urbana
      Dança e reina soberana
      Em cada botequim
      Mil lágrimas de chuva fina pelo ar
      Caindo na cidade neste fim de tarde
      Conta-goteando um pranto milenar
      E num momento súbito
      Uma gargalhada me faz despertar
      Enxugo os olhos acendo um cigarro
      E atendo o celular

      Para Julio Medaglia

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