Chiquinha Gonzaga é a personagem do blog em homenagem ao Dia Internacional da Mulher

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Chiquinha Gonzaga nasceu durante o Segundo Reinado, no Rio de Janeiro, e até morrer atuou por liberdade e por igualdade de direitos entre homens e mulheres, além de defender causas dos músicos e ser a primeira maestrina do país, entre outras atitudes pioneiras e contestadoras. É dela Ó abre-alas, marchinha carnavalesca de 1899 que até hoje embala foliões.

 

O Barulho d’água Música escolheu homenagear como personagem do Dia Internacional da Mulher, que se comemora neste domingo, 8 de março, Francisca Edwiges Neves Gonzaga. O blog entende que a maioria dos amigos e seguidores sabe sobre quem escreveremos. No entanto, para aqueles que a desconhecem, apresentaremos Chiquinha Gonzaga, nome artístico adotado por Francisca no final do século XIX em um período do Segundo Reinado no qual o Rio de Janeiro, onde ela nasceu e era capital do Império, passava por grandes transformações sociais e culturais, embora a mulher ainda vivesse em condições de submissão; entre outros costumes vigentes, podia ser obrigada a contrair matrimônio com um parceiro por ela não escolhido, submetendo-se a interesses das famílias dos cônjuges.

Nascida em 17 de outubro de 1847, da união de José Basileu Neves Gonzaga, militar de ilustre linhagem, com uma negra alforriada, de acordo com a historiadora e biografa Edinha Diniz, Francisca se viu nesta condição de ter de se casar para atender conveniências. Educada para ser dama de salão, aos 16 anos, ela seguiu a regra e se casou com o promissor empresário Jacinto Ribeiro do Amaral. Continuou, entretanto, dedicando atenção ao piano, para desagrado de Ribeiro — que não apenas era avesso à música, quanto encarava o instrumento da esposa como rival. Inquieta e determinada, não demorou muito para ela vir a romper o casamento e provocar furor no seio da opressora e patriarcal sociedade, desta feita cedendo apenas ao que lhe ditava a própria cabeça e, também, neste caso, o coração: encontrava-se apaixonada pelo engenheiro João Batista de Carvalho, com quem passou a viver.

O suposto escândalo resultou em ação judicial de divórcio perpétuo, movida pelo ex-marido no Tribunal Eclesiástico, onde ele alegou abandono do lar, e adultério. Alvo de maldição familiar, de condenações morais e desgostos pessoais, Francisca resolveu sobreviver do que sabia fazer: tocar piano.

Chiquinha Gonzaga, então, emergiu no cenário musical do Rio de Janeiro em 1877, e não hesitou em incorporar ao piano toda a diversidade que encontrava, abalando o meio no qual a moda eram polcas, tangos e valsas e produzindo uma obra fundamental para a formação da música brasileira. Ninguém ousara tanto. Praticar música ao piano, ou até mesmo compor e publicar, recorda Edinha Diniz, não era incomum às senhoras de então desde que se limitassem ao espaço feminino por excelência: o da vida privada. A profissionalização da mulher como músico era fato inédito na sociedade da época. A atividade exigia talento, determinação e coragem. E estes predicados sobravam a Chiquinha Gonzaga.

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Sua estreia como compositora se deu com a polca Atraente, cujo sucesso terminaria sendo mais um fardo para sua reputação. Mantinha-se como professora em casas particulares e pianista no conjunto do flautista Joaquim Callado e passou a aperfeiçoar sua técnica com o pianista português Artur Napoleão, também seu editor, e a tentar escrever partituras para o teatro musicado. Em janeiro de 1885, Chiquinha Gonzaga estreou no teatro com a opereta A corte na roça, representada no Teatro Príncipe Imperial, ocasião em que a imprensa se embaraçou ao tratá-la – não existia feminino para a palavra maestro. Ao longo de sua carreira de maestrina, Chiquinha Gonzaga musicou dezenas de peças de teatro nos gêneros os mais variados.

Em 1889, regeu, no Imperial Teatro São Pedro de Alcântara, um original concerto de violões, promovendo este instrumento ainda estigmatizado. Era a mesma audácia que movia a militante política, participante de causas sociais do seu tempo, denunciando assim preconceitos e atrasos sociais. A abolicionista fervorosa passou a vender partituras de porta em porta a fim de angariar fundos para a Confederação Libertadora e, com o dinheiro da venda de suas músicas, comprou a alforria de José Flauta, um escravo músico.

Na virada do século XIX para o XX, Chiquinha Gonzaga criou a marchinha carnavalesca, compondo a música que a popularizaria, Ó abre alas, e obtendo com isso um reconhecimento eterno, pois o carnaval jamais a esqueceu. Aos 52 anos de idade, já consagrada, Chiquinha conheceu aquele que iria se tornar seu companheiro até o final da vida, o jovem português de 16 anos João Batista Fernandes Lage, mais tarde João Batista Gonzaga.

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O nome da compositora esteve também envolvido em escândalo, desta vez político, quando seu tango Corta-jaca foi executado no Palácio do Catete, em 1914. Como autora de músicas de sucesso, sobretudo pela divulgação nos palcos populares do teatro musicado, Chiquinha Gonzaga sofreu exploração abusiva de seu trabalho, o que fez com que tomasse a iniciativa de fundar, em 1917, a primeira sociedade protetora e arrecadadora de direitos autorais do país, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat).

Chiquinha Gonzaga teve seu trabalho reconhecido em vida, sendo festejada pelo público e pela crítica. Personalidade exuberante, ela foi dos compositores brasileiros a que trabalhou com maior intensidade a transição entre a música estrangeira e a nacional. Com isso, abriu o caminho e ajudou a definir os rumos da música propriamente brasileira, que se consolidaria nas primeiras décadas do século XX, observa a biografa. Atravessou a velhice ao lado de Joãozinho, a quem a posteridade agradece a preservação do acervo da compositora.

Chiquinha Gonzaga faleceu no Rio de Janeiro, em 28 de fevereiro de 1935, aos 87 anos de idade. Há uma semana, portanto, completou-se o octogésimo ano de sua morte, porém quase meio século foram necessários para a obra de Chiquinha Gonzaga ganhar holofotes e o devido valor para além do busto dela que foi mais tarde entronizado defronte a sede da entidade de classe cujas lutas pela abertura ela liderou. Outra pianista, Clara Sverner, ao gravar na década dos anos 1980 três discos de vinil só com composições de Chiquinha Gonzaga, foi quem mais contribuiu para tirá-la do ostracismo em que caíra. Clara Sverner também passou a executar peças de Chiquinha em todas suas apresentações, contribuindo assim para a popularização e divulgação do repertório de uma de nossas mais notáveis artistas e que encontrou outra defensora e admiradora em Luciana Rabello, a primeira mulher a tocar cavaquinho no Brasil.

 

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