Fabrício Conde, violeiro e escritor de Juiz de Fora (MG) faz aniversário hoje

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Fabrício Conde,de Juiz de Fora (MG), levou sua música de viola e com ela valores do sertão mineiro aos ouvidos da rainha inglesa e à Espanha (Foto: Marcelino Lima/nov. 2014)

Se é que este Barulho d’água Música não está comendo bola e desconheça que já exista, chegará um dia em que alguém capacitado publicará estudo que explique as razões pelas quais são as Minas Gerais solo tão rico para a geração de talentosos violeiros, sendo esta apenas uma das virtudes dos baluartes que fazem deste Estado um dos mais abençoados na preservação e na difusão de valores da nossa cultura popular. E neste compêndio um capítulo à parte, com certeza, estará dedicado ao aniversariante de hoje, o ilustre Fabrício Conde, de Juiz de Fora, cidade da Zona da Mata.

Genial. Notável. Impecável. Seja qual for o adjetivo que se empregue para definir Fabrício Conde ainda será um vocábulo reducionista e que não exprimirá, em toda sua completude, sua maestria no trato com as dez cordas — e, de quebra, o tampo, o braço deste instrumento e outros congêneres. E ao buscarmos esta definição a qual Fabrício Conde estaríamos nos referindo? Seria possível haver um Fabrício Conde violeiro, outro, poeta, escritor e contador de causos? Haveria vários ou apenas um, coexistindo? 

A resposta sempre será sim para quem conhece qualquer mineiro extraordinário e as manhas dos que nascem naquela terra fértil,  que ganhou  uma predileçãozinha a mais perante o Criador. Pessoas como nosso aniversariante parecem que entraram mil vezes na fila dos predicados, receberam do Alto todos os mimos; há quem professaria, ainda, que poderiam as bençãos vir do estranho moço que costuma descer de canoa rios abaixo ponteando uma violinha ou de outra entidade menos carregada de significados supostamente maléficos ou desvirtuados, estipêndio por pactos nos quais vão se os dedos (enfiados em ocos de árvore ou em buracos sinistros de paredes em igrejas retiradas), ficam os toques de viola…

Brasil-Unido-Contra-Dengue

Ai, o sujeito vem ao mundo em forma de gente e repleto de plus: capacidade de tocar violão,  de tocar piano, de tocar UMA viola de cabaça como se fosse TRÊS ao mesmo tempo (e o instrumento também se sentisse tambor!), o dom de escrever, de declamar … de convencer uma plateia assustada que trata-se de verdade, e não mais um causo, a história de um barco que encalhou no rio São Francisco na boquinha da noite assim que ele, Fabrício Conde, começou a dedilhar música aprendida horas antes com uma anciã chamada Elvira.

Esta senhora, quase mítica segundo a descrição de Fabrício Conde, o ensinara toques para emoldurar ao som dos arames a música que se ouve no sertão bem mais profundo do que aquele que conhecemos por físico — o mundo da terceira margem ou de além da lagoa na quadrada das águas perdidas presente nas obras de Guimarães Rosa e de Elomar Figueira de Mello. Vai que o bote, mesmo empurrado pelo barqueiro que caíra nas águas para tentar removê-lo, até então irredutível, só retomou a marcha rio acima rumo ao município homônimo ao Velho Chico quando a música passou a ser outra, em um compasso, digamos, bem menos sombrio…

Esta música misteriosa, apesar de ser bonita demais, de acordo com Fabrício, nem ele gosta de apresentar em público. E explica-se: “Uma semana depois que a toquei pela primeira vez para sete dos meus amigos, reunidos em casa para um jantar, a vida de todos começou a andar para trás, deu-se uma série de infortúnios. Eu só peguei uma baita infecção, mas teve gente que registrou caso de morte em família”. 

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Fabrício Conde e o mestre Antônio Macaro, em imagem extraída do DVD Âncora

Compositor e um dos vencedores do XIV Prêmio BDMG de Música, promovido em Beagá, Fabrício Conde carrega três estojos, dentro dos quais se aninham uma viola de cabaça (arte do mestre luthier e que aniversariou ontem Levi Ramiro; veja com quem anda este rapaz! e tem mais gente boa citada linhas abaixo…), outra caipira e um cuatro venezuelano, ele contou esta passagem acompanhado pelo saxofonista e flautista Zé Nogueira, mais o pianista Márcio Hallack, quando acabara de se apresentar no SESC Consolação para mais uma rodada do projeto Instrumental SESC Brasil,  em novembro de 2014.

No palco do Teatro Anchieta, Fabrício mostrara músicas em sua maioria próprias, com exceção de Lamento Sertanejo. Mas ao contrário desta canção singela de Dominguinhos e Gilberto Gil, Fabrício sai, sim, e tem vários amigos para além da Zona da Mata. Recentemente, excursionou pela América do Sul e nesta turnê realizou pesquisas sobre a música rural do Chile, do Equador, do Brasil e da Argentina, base para, em breve, sair do forno um novo álbum. O rico repertório trazido ao Sesc ainda reunia suas obras cujas raízes são afrocolombianas, afroperuanas e africanas, executadas com pitadas de modas da roça, de baião, de milonga, de samba, de chamamé, de flamenco, de blues, em um fusão tão inédita quanto saborosa: tábua de quitutes com um bule de café, broa de quinua, pão de queijo de gado andino…

Fabrício Conde, enfim, faz composições que partindo de Juiz de Fora ou da vizinha cidade de Chácara atravessam as fronteiras brasileiras, alçam os céus como o condor sobrevoando as cordilheiras para ir temperar outras culturas, pousando em paragens como a Inglaterra e a Espanha. Em 2012, ele arrebatou o I Concurso Instrumental Estúdio 66, do Canal Brasil, e foi selecionado para o Projeto Itaú Cultural. Elizabeth e seus súditos tanto da nobreza, quanto plebeus, curtiram várias composições do brasileiro durante transmissão aos ouvintes da BBC de Londres, enquanto  o álbum em DVD Âncora foi visto com deleite pelo público do canal de televisão Afro Music, da Espanha. A discografia possui Viola Brasileira (2008), Viola da Mata (2004) e São de Viola (2000), mas apenas o primeiro ainda possui cópias disponíveis para venda, além do DVD Âncora.  Ambos, entretanto, com certeza estão fadados a também se esgotarem, por isso é melhor não perder o trem e entrar em contato logo por meio do endereço eletrônico http://www.fabricioconde.tnb.art.br

“Tenho grande admiração pelo sertanejo, respeito que eu adquiri com minha avó”, disse Fabrício, que presta tributo ainda entre outras pessoas a Antônio Macaro, uma das personagens que  ele destaca em Âncora, o qual reverencia como mestre violeiro. Fabrício é  autor dos livros Causos, histórias e um pouco mais… e O Caminho das Asas, este segundo selecionado para a feira literária de Bologna, Itália. Dirigiu vários espetáculos teatrais e compôs a trilha sonora do filme Dulia, uma de suas composições em que se sente tocando piano ao executá-la, já que a concebeu neste instrumento.

“Minhas influências, de maneira geral, encontram-se em Galeano [Eduardo Galeano], Borges [Jorge Luis Borges], Guimarães [Guimarães Rosa] e Manoel de Barros”, disse. “Também tenho mestres com os quais convivi, mas destaco como um dos mais decisivos em minha formação Ivan Vilela. Conterrâneo de Itajubá (olha ai , de novo, Deus aquinhoando e fertilizando Minas Gerais com sal dos melhores!), Ivan Vilela é professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e fundou a Orquestra Filarmônica de Violas, de Campinas (SP), e de acordo com o juiz-forano, o ensinou-o a ouvir o silêncio.

“Eu tinha muita inquietação no começo da minha carreira, queria colocar muita coisa numa nota só. Ivan Vilela me fez aprender a respirar, respeitar o silêncio que há entre uma nota e outra. Sentindo mais a música, pude me acalmar e encontrar meu jeito de tocar”.

Fabrício Conde destacou ainda que a viola é um instrumento muito potente e que, se o músico não perceber esta característica, acaba simplesmente imitando um outro. “Eu descobri que não sou apenas brasileiro, eu sou, na verdade, latino-americano. Em minhas pesquisas e viagens notei que a viola caipira representa muito bem a música destes povos, chegando às comunidades rurais da América Latina. Eu encontrei no cuatro venezuelano, por exemplo, um instrumento muito íntimo e com sonoridade impar que eu posso dizer que é meu.”

Ao pupilo, com carinho

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Ivan Vilela

Ivan Vilela escreveu na introdução do encarte de Âncora que em cada nova mão a viola ganha uma contribuição, mas nas mãos de alguns ela cresce mais que em outras. Ainda conforme Vilela, Fabrício Conde tem estirpe e na busca por desenvolver uma linguagem própria incorporou elementos melódicos-harmônicos e elementos rítmicos, gerando um trabalho singular.“Se há violeiros que fazem a viola soar como se fossem duas, quando Fabrício toca não só as cordas soam, mas também a madeira percutida, criando sons múltiplos que fazem parecer acompanhado por um percussionista. Posso afirmar que sua busca perseverante tem feito de Fabrício um músico genial.”

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