Barulho d'Água Música

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Com vocês, senhora e senhores, o “poeta de caneta”: Mauri de Noronha, de Garanhuns (PE)!

1 comentário

arte mauri noronha  ppp

Mauri de Noronha canta com força e notável expressão poética, além de declamar, épicos e contundentes textos que retratam belezas do sertão, denunciam sem panfletarismo toda exploração e sofrimento dos povos do agreste. A poesia dele trata dos descaminhos e dos amores e mesmo quando canta ele está declamando; essa é sua essência (Foto: Marcelino Lima)

 

Em um ano de atividades completado hoje o Barulho d’água Música conheceu e esteve em contato com músicos, cantores e compositores de várias tendências, a maioria batalhando de maneira independente para conseguir gravar suas obras e por um palco onde possam tocar. São artistas que pelo talento, e também os compromissos que abraçam, já deveriam ter conquistado mais respeito e atenção, consequentemente o carinho e a admiração dos fãs — além de menor burocracia e muito mais boa vontade de quem dependem para alcançar aqueles propósitos, é claro.

Se todo artista tem de ir onde o povo está, ele precisa, também, indiscutivelmente, dos meios não apenas para chegar lá e honrar sua tarefa, mas também para dar o seu recado com o máximo de recursos e ferramentas, sem comprometer a qualidade de sua mensagem e trabalho, e gradativamente se firmar no cenário cultural em que estiver inserido.

Mauri de Noronha, cantor, compositor, poeta e exímio violonista é um exemplo entre tantos outros que estão na estrada — recorrendo a uma frase que todos entendem o que significa, buscam e já merecem seu lugar ao sol. Pernambucano de Garanhuns, há cinco anos residente em Aracaju (SE), Mauri de Noronha estará em São Paulo até outubro, estabelecido no bairro da Mooca, aguardando propostas para apresentações. Ele já viveu em Sampa (entre 1975 e 2010) e retornou agora para, entre outros objetivos, ser uma das atrações do 3º Festival de Arte Popular do Alto Tietê, atendendo ao convite do malungo e produtor cultural Déo Miranda (SE), que a exemplo do amigo também batalha para tirar do papel competentes projetos e para decolar a carreira de cantor e compositor que conduz na região de Mogi das Cruzes (SP). 

Noronha esteve no Festival em 2 de maio, no teatro Contadores de Mentira, situado em Suzano (SP). A atração principal, na ocasião, era Fernando Guimarães (MG) — que ele, Noronha, descreveu como sendo uma “escola” — mas o pernambucano cantou, declamou e interpretou músicas e poesias autorais com tamanha emoção que alcançou não apenas a imediata empatia, mas a justa simpatia junto a todo o público, deixando a impressão de que brilha mais do que suficiente para também fulgurar em outros espaços, encantar outros auditórios onde quer permitam que ele vá e assim aumentar (ou começar a angariar) seu cordão de fãs.

O músico canta com força e notável expressão poética, além de declamar, épicos e contundentes textos que retratam belezas do sertão, denunciam sem panfletarismo toda exploração ao e o histórico sofrimento dos povos do agreste. A poesia de Mauri de Noronha trata dos descaminhos e dos amores e mesmo quando canta ele está declamando; essa é sua essência. O repertório do show O Cantar da Poesia é, portanto, autoral.  Ele subiu ao palco para entoar parte deste profundo trabalho que transita entre o canto e a declamação, entre sertão e mar com a mesma maestria; revela  a vivência de um artista que tem muito a dizer. Queixou-se do frio que estava sentindo em Suzano, mas depois em parceria com o flautista chileno Chico Pedro (Raíces de América)  com especial canja do poeta Sebastião Dias, deixou a plateia arrepiada. Antes de se despedir, promoveu tributo ao conterrâneo de Exu (PE) Luiz Gonzaga interpretando em uma releitura o clássico Assum Preto, do Velho Lua

 

Chico Pedro

Chico Pedro, por sua vez, mostrou versatilidade tocando vários tipos de flautas e uma zampoña cujos sons deram leveza sem tirar a dramaticidade e a força crítica das letras das composições de Noronha. Agora, em companhia também do percussionista Afonsinho Menino (MG), Mauri almeja ao lado do chileno novos voos e já está inscrito, por exemplo, no 45º Festival Nacional da Canção. Este certame terá seis fases classificatórias em São Lourenço (24 e 25/7), Extrema (31 e 1/8), Varginha (7 e 8/8), São Thomé das Letras (14 e 15/8), Guapé (21 e 22/8) e Três Pontas (28 e 29/8), todas cidades mineiras. Em cada um destes municípios, os participantes serão postos à prova por um júri especializado. A banca selecionará cinco entre 26 músicas por etapa e trinta, portanto, irão às semifinais (4/9 e 5/9) em busca de uma das dez vagas para a final (6/9), ambas em Boa Esperança, sede do evento desde 1971.

A trajetória do pernambucano já registra outras apresentações na Capital – esteve, por exemplo, no Centro Cultural São Paulo, na sala Guiomar Novaes, da Funarte, e na Biblioteca Mário de Andrade. Mauri também possui dois trabalhos fonográficos gravados, mas conforme relatou ao blog, aqueles não representam suas atuais características.  “A apresentação que fiz com o Chico Pedro é mais acústica, a flauta acrescenta uma roupagem ilustre ao que e à forma que eu canto”, ponderou. “Eu sou uma espécie de menestrel, embora o formato de meu violão não corresponda tanto àquele da idade média, quando os violeiros destacavam-se mais pela técnica”, prosseguiu. “Eu toco meu instrumento pela alma, sou mais um cantador do que um repentista”, explicou. “Adoro o repentismo e o modo de cantar que é feito de improviso, mas como dizem lá no Nordeste, eu sou um poeta de caneta: escrevo meus poemas e os coloco dentro de um contexto.”

 ASSIM SE ASSUCEDE (Mauri de Noronha) 

Inda me alembro do tempo que eu tava lá no sertão
Onde eu rezava pro chuva enquanto o sol queimava o chão.
Eu com a enxada na mão cavando cova na terra, prantando milho e fejão
E do suó da minha cara caía as gota solitára que regava a prantação.

E eu oiava pro céu, a Deus pedindo perdão pru num tê belas palavra
pra fazê as oração
Que certamente é o motivo dos castigo do sertão
Poi quando né seca, é cheia, tudo lá é mardição.

Eu vivi lá muito tempo, tive muié e três filho
A muié morreu de fome, os filho morreu de sede
Eu não morri por castigo, não foi por sê home não
Home lá é tão inútil que nem a voz do passado

Deu morreu a esperança, sobrando só a lembrança
do nada que deixei lá.

Saí da terra arrastado por um jumento cansado
que sobrô junto comigo
dispoi um caminhão de um senhô muito bão
me troce pra capitá
E eu com as ropa rasgada num custô chegá um cabra
pra me chamá de ladrão
Eu me virei na mulesta, lasquei-lhe a faca por riba
fui resolvendo a questão.
Asdispoi do acontecido, eu não tive mais ação
joguei a faca no chão, me assentei perto do moço
na verdade era tão moço que doeu no coração
Mas porque diabo o caboco foi me chamá de ladrão?
E não demorô nadinha, já foi chegando a pulíça
Fardadinha de justiça,tudo de arma na mão
Fui arrastado, pisado pelos home da razão
E asdispoi fui atirado dentro de um carro vermeio
como quem se atira um cão
Neu os home viro tudo, mas não viro um home não.
Mermo assim fiquei calado; num chorei, num recramei
Pois já tava acostumado a levá surra do tempo
Que é bem maió que a da lei.

Levaro eu pro delegado, um sujeito arto e forte
Que mais parecia a morte do que um home fardado.
Já foi logo preguntando quem eu era, donde eu vinha
qual o mutivo que eu tinha pra num sê gente, sê fera.
Eu me chamo Bastião, foi meu pai que escoieu
Tô chegando do sertão terra que diabo me deu
mas seu dotô, num sô fera, eu sô gente sim senhô.

Eu vim cá pra capitá num foi pra sê criminoso, juro vim trabaiá
Mas por arte dos pecado já fui matando um marvado
Que me chamô de ladrão sem nunca me vê robá
Mas eu sei que tô errado
Por isso seu delegado tô aqui sem recramá.
Num me preguntô mais nada, só mandô um dos seus cabra
me rebocá pra prisão
Onde eu fiquei conformado, e inté hoje eu tô calado
sem fazê recramação
Poi ficando preso ou sorto num faz deferença não
Queu já nasci condenado pru sê de lá do sertão.

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

Um pensamento sobre “Com vocês, senhora e senhores, o “poeta de caneta”: Mauri de Noronha, de Garanhuns (PE)!

  1. Parabéns pela Celebração do Barulho d’Água Música e pra toda a Equipe!

    Parabéns pela reportagem com o Mauri de Noronha, um Talento que resgata tantas Lembranças de um tempo em que a Caneta já estava presente e as Camisetas, espalhavam as trovas de um Sonho que se realiza cada vez mais há cada dia!

    Mais de 20 anos depois e o Talento só consegue ficar mais proFundo e toCante!!
    Abraço Amauri de Noronha e o Amigo Poeta Santiago Dias!!

    Abraço a tds!!

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