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Inezita Barroso ganha emocionante tributo em histórica noite na Sala São Paulo (SP)

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A homenagem a Inezita Barroso, assim retratada no painel principal que decorava a Sala São Paulo, reuniu mais de 50 artistas, além de autoridades e familiares da eterna rainha da música caipira, nascida em um domingo de Carnaval e que se tornou imortal em outro, Dia Internacional da Mulher (Fotos Marcelino Lima)

A Sala São Paulo, um dos mais clássicos espaços da música em Sampa, acolheu na noite de segunda-feira, 8 de junho,  homenagem comovente preparada pela TV Cultura, amigos e familiares a Inezita Barroso, folclorista que encantou o país como cantora, atriz de cinema e apresentadora por 34 anos do programa Viola, Minha Viola. A eterna rainha da música caipira, entre outros merecidos títulos que a eternizam, morreu exatos três meses antes, no Dia Internacional da Mulher, quatro dias depois de chegar aos 90 anos. A emissora já pretendia na ocasião promover o tributo, mas Inezita já se encontrava internada no Hospital Sírio Libanês, conforme lembrou Marcos Mendonça,  presidente da Fundação Cultura, detentora dos direitos da emissora.

O especial Inezita – Quanta Saudade Você Me Traz foi apresentado por Adriana Couto, do programa Metrópolis, e reuniu mais de 50 artistas. A intenção era contemplar as diversas facetas do legado de Inezita Barroso, que nasceu Ignez Magdalena Aranha de Lima em um domingo de Carnaval, na rua Lopes Chaves, logradouro do bairro paulistano Barra Funda no qual morou também o modernista Mário de Andrade. Filha de família tradicional paulistana, passou a infância cercada por influências musicais diversas ao crescer em fazendas, nas quais teve contato com o universo caipira em várias rodas de viola.  

Para assumir a paixão pela viola e pelo violão, entretanto, teve de bater de frente com as tradições que impediam mulheres de tocar outro instrumento que não fosse o recatado piano — restrito ao ambiente familiar ou de grandes salas, a salvo do universo profano e boêmio evocado por ambos. Inezita ainda remou contra a maré escolhendo ser porta-bandeira da e valorizar a música caipira quando o Brasil vivia os anos desenvolvimentistas e dava as costas para o secular modelo agrário, em detrimento da industrialização que modificou o perfil da sociedade nacional de rural para urbana.

 
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Bia Góes, acompanhada por Léa Freire (flauta) e Arismar do Espírito Santo (violão) abriu o tributo com Azulão

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Neymar Dias, Ivan Lins e Rafael Altério relembraram A Bandeira do Divino

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Renato Borgetthi

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Roberto Corrêa, Pereira da Viola, Neymar Dias

 
Inezita, além da carreira musical, formou-se em Biblioteconomia pela Universidade de São Paulo e fez cinema. Como pesquisadora do gênero musical, por conta própria, sua maior identidade, percorreu o Brasil resgatando histórias e canções. Uma destas etapas a fez musa da música folclórica, na década de 1950 e 1960, período no qual ainda precisou atuar como professora de canto e de violão para fazer frente ao ostracismo que a música caipira começou a amargar com a ascensão da bossa nova e da Tropicália. Inezita, entretanto, era daquelas que, antes de tudo,  tem o DNA dos fortes: bancou sua  persistência em gravar a música raiz de todas as regiões brasileiras, sobretudo a do caipira paulista, mas com dedicado olhar, ainda, para os ritmos da dança gaúcha, influenciada pelo amigo Barbosa Lessa, entre outras.

Plateia participativa

Na lista de artistas que a homenagearam na Sala São Paulo (onde a animada plateia parecia se sentir no auditório do Sesc do Bom Retiro, um dos palcos local onde Inezita esteve à frente do Viola, Minha Viola) estiveram Ivan Lins, Renato Teixeira, Renato Borghetti, Rick Sollo, Mococa e Paraíso, Lourenço e Lourival, Irmãs Barbosa, Divino e Donizeti, João Mulato e Douradinho, Léo, Pereira da Viola, Roberto Corrêa, Braz da Viola, Paulo Freire, Neymar Dias, Toninho Ferragutti, Bia Goes, Arismar Espírito Santo, Léa Freire e o CoralUSP, além do regional Viola, Minha Viola, integrado por Joãozinho (violão), Arnaldo Freitas (viola caipira), Leandro Madeira (baixo), Escurinho (percussão). O CoralUSP tinha entre seus membros a cantora Sarah Abreu.

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Paulo Freire, autor da vinheta “eta programa que eu gosto”, que é uma das marcas do Viola, Minha Viola

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Regional Viola, Minha Viola

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Mococa e Paraíso interpretaram O ipê e o prisioneiro

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O tributo, inteiramente gravado pela emissora, irá ao ar em breve, mas a data ainda não foi divulgada. O repertório reflete a vasta obra de Inezita Barroso, canções que ela considerava prediletas ou clássicos do cancioneiro. Ivan Lins, por exemplo,  interpretou com o parceiro Rafael Altério Bandeira do Divino (Ivan Lins/Vitor Martins), usada como referência por Inezita em suas aulas de violão e canto. Renato Teixeira relembrou De Papo Pro Ar (Joubert de Carvalho/Olegário Mariano), enquanto o cantor Rick  João de Barro (Teddy Vieira/Muybo Cury), um clássico gravado pela musa.  A dupla Mococa e Paraíso fizeram emocionada interpretação de O ipê e o prisioneiro (Liu e Léo) e Roberto Corrêa de Luar do Sertão (Catulo da Paixão Cearense). 

As pesquisas para a produção do espetáculo junto ao acervo de Inezita Barroso permitiram recuperar e digitalizar documentos manuscritos por ela mesma para ajuda a contar sua história. O material, animado com recursos de computação gráfica, foi projetado no telão da Sala São Paulo com a narração da voz da neta de Inezita, Paula Maia, ajudando a dar ainda mais brilho à celebração que enfocou um conteúdo que deverá (assim esperamos) tornar-se indispensável, imperecível e sempre acessível para a compreensão da cultura popular do país, uma das espinhas dorsais da música brasileira, folclórica, de raiz e regional. A estrela de Inezita Barroso está mais cintilante do que nunca.

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Neymar Dias e Toninho Ferraguti

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Léo, da dupla com o irmão Liu

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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