Em Araraquara (SP) cala-se a segunda voz do Duo Glacial: menos de um mês depois de Ana, morre Miguel Cervan

duo glacial
Duo Glacial, com Inezita Barroso, em uma das edições do Viola, Minha Viola: o nome da dupla que imortalizou a toada clássica Poeira é sugestão de José Fortuna

A data de hoje, 13 de junho, era para ser apenas de alegria, por ser de louvor a Santo Antônio, o primeiro do trio festejado em junho, mas o transcorrer deste dia não está sendo nada feliz. Depois de registrar a passagem ao andar de cima do músico e compositor Fernando Brant, cumpre ao Barulho d’água Música publicar mais este texto de luto e de pesar, agora sobre a morte de Miguel Cervan, em Araraquara (SP), também na sexta-feira, 12. Miguel formou com a irmã, Ana, uma das duplas mais simbólicas e queridas do cancioneiro rural, o Duo Glacial. A morte decorreu de uma série de infartos que se iniciou ainda em casa e prosseguiu no Hospital Beneficência Portuguesa, da Morada do Sol. Ele tinha 79 anos e, por aqueles fatos que apenas a vida (ou a morte explica), perdera Ana pela mesma causa (paradas cardíacas agudas, associadas a suspeita de dengue e infecção urinária) há menos de um mês, em 19 de maio. Na ocasião, Miguel já passava por tratamentos e era Ana quem zelava pela saúde do irmão.  

Escrever sobre o Duo Glacial, algo que o blog ainda antes não fizera, dá um nó na garganta, um misto de saudade e de satisfação por recordar e reafirmar as raízes me invade. Quem já me ouviu comentar qual foi a razão que entre outras levou-me a dar às costas ao trabalho formal como jornalista e me dedicar espontaneamente a uma tarefa sem remuneração, árdua e até certo ponto utópica, sabe que, quando eu era guri ainda vestido em calças bem curtas, tinha o hábito de pular de minha cama e me abrigar aos pés da dos meus pais.

Era uma gostosa mania. Nestas horas, normalmente perto do amanhecer, mas ainda “escuro”, o Caco Véio sempre estava sintonizado em programas caipiras como o do Zé Béttio, ouvindo clássicos do gênero em um rádio portátil à pilha que mais chiava do que nos permitia entender o que se proseava e se cantava. “Cresci” ouvindo canções que me levavam a viajar por campinas e outras paisagens rurais, a bordo de carros de boi, sentindo saudades de “minha terra”; este hábito escalavrou em mim as profundas marcas, as paixões e as ideologias que hoje exponho e as trago no peito, cunhou a preferência e a defesa intransigentes pela moda de viola como uma das mais belas, puras e fiéis manifestações de nossa identidade e da cultura popular — “quem não gosta de viola, não gosta de Deus também”, canta em Viola Divina “seo” João Macuco, tio da Andreia Beillo, e o parceiro dele, Renato Braga, ambos do Mato Grosso.

arte duo

Poeira (Um carro de boi lá vai/gemendo lá no sertão…) era uma das canções que aos pés da cama de papai e de mamãe eu mais escutava, posto que fazia sucesso no princípio dos anos 1970, e justamente nas vozes de Miguel e de Ana! Com esta composição, de Dino Franco e José Fortuna, os irmãos alcançaram a fama — ao menos no sagrado meio sertanejo, o autêntico, aquele que, felizmente, sobrevive à “modernagem” em outro plano, um universo fora da cabotina mídia que dele, oportunamente, apropriou-se, esvaziando-o e o enojando. Além de Poeira, o Duo Glacial cantava, também, e esta dividiam com Cascatinha e Inhana, Beijinho Doce (Nhô Pai);  estas músicas, além de Flor do Cafezal, Saudades de Matão, Saudades de Minha Terra, Chitãozinho e Xororó esculpiram os entalhes, forjaram o homem e o crítico, são fontes a cantar, são águas a correr em meu peito, chuá-chuá que não cessa de barulhar e eis o porque de, de vez em quando, cada vez mais a medida que meu carro de boi avança estrada  a dentro, eu simplesmente, do nada, me pego chorando, e nunca é por conta da poeira que poderia ter entrado em meus olhos…

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Ouvindo Poeira com o Duo Glacial no chiado rádio de pilha do meu pai eu viajava pelo sertão dentro do carro de boi que gemendo pelo estradão deixava suas profundas marcas no chão (Arte: Marcelino Lima)

Duo Glacial

Miguel nasceu na cidade de Mirassol e Ana em Onda Verde, ambas em São Paulo, respectivamente em 1936 e em 1941, mas foi em Araraquara que começaram a cantar juntos, em 1955. Em 1959, já em São Paulo, adotaram o nome artístico Duo Glacial, que tinha Cascatinha e Inhana, dupla referência para a música caipira, como inspiração. Segundo José Cervan, sobrinho e fã número 1 da dupla, tudo começou quando Ana foi ao circo em Araraquara para cantar Beijinho Doce. No dia seguinte, voltou com o irmão e os dois se apresentaram como Miguel e Aninha, nome que seria alterado para Duo Glacial por sugestão do cantor e compositor José Fortuna, falecido em 1983. Gravaram 30 álbuns, dos quais quatros em formato digital e com Poeira conquistaram o primeiro lugar em um concurso da Rádio Nacional, promovido em 1967. A música, curiosamente, conforme Miguel Cervan recordou em entrevista a Inezita Barroso em uma das edições de Viola, Minha Viola, “estava praticamente no lixo”, ninguém queria tocá-la, mas o maestro Luís Bonan acreditava na letra e pediu à dupla para interpretá-la. “Ai a poeira levantou”, riu, gostosamente, Ana Cervan à observação do irmão: “Deus escreve por linhas tortas!” 

Esta é a versão de Poeira, com o Duo Glacial, que marcou a infância deste blogueiro

zc

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