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Daniel de Paula: epifânico e abrejeirado

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daniel de paula arte

O Sesc Vila Mariana, em São Paulo, acolheu o projeto Viola dos 5 Cantos, com curadoria de Zeca Collares, mineiro de Grão Mogol atualmente residente em Sorocaba (SP), que pretende por meio desta iniciativa belíssima mostrar as particularidades e as semelhanças das várias afinações e modos de tocar a viola nas diferentes regiões do país. O primeiro convidado, Julio Santin, de Irapuru (SP), mostrou em 10 de junho, por meio de cururus, cateretês, pagodes, guarânia e até chamamés, falou um pouco sobre cada estilo e as sonoridades que a viola caipira tem no Estado de São Paulo. Santin estava acompanhado por Marcos Azevedo (violão) e Andre Rass (percussão).

Na sexta-feira, 12 de junho, Daniel de Paula, aniversariante, revelou ao público que ainda não conhecia o instrumento a magia e a singularidade da viola de cocho, presença obrigatória em festas religiosas há séculos no Centro-Oeste e diretamente vinculada a festas populares como  siriri e a cururu. É de impressionar a variedade melódica que ele consegue extrair das suas duas acompanhantes — que, para começo de conversa, na maior parte do tempo, toca de olhos fechados, como se estivesse em oração, no auge de uma epifania, ou saracoteando o corpo como se brejeiro fosse, em sutis bailados e movimentos como se a música fluísse por ele, ou dele estivesse se esvaindo em meio a uma celebração litúrgica cuja comunhão ele atinge com siriemas, araras e arancuãs, rios, peixes, poentes e luares, rituais pantaneiros nos quais ele parece estar imerso.

Em peças essencialmente curtas, sem recorrer a nenhum lá-la-lá-lá, com quatro minutos quando muito, Daniel é capaz de trafegar do flamenco ao camerístico na mesma composição; soam das cordas notas de harpa, de viola caipira, de acordeon e diluem-se as linhas fronteiriças que possam haver entre popular e  erudito; de um movimento para o outro, o auditório não está mais em um galpão, celebrando de forma espontânea uma colheita dançando animado com a família ou em um baile tradicional… mas em recolhido silêncio no interior de uma capela, suspenso no ar pela leveza sacra de uma sublime “orquestra”!

di brandao

E a orquestra, no caso, quando não é ele mesmo, sozinho a acariciar ou a acelerar as cordas, de nylon de pescador, é ele, mais o parceiro de velhos tempos e vários festivais, Di Brandão, violonista do distrito de Bom Jardim, em Nobres (MT), além de, mais uma vez, Marcos Azevedo. O paulistano Azevedo, como já dissera Santin na antevéspera, é o melhor músico para fazer base de violão (e baixo) para as violas de todos os sotaques que os artistas do meio caipira conhecem, e o cara no qual mais confiam; Brandão além de tocar, acompanha Daniel de Paula cantando em várias modas. Entre as canções, destaque para a clássica Galopeira, do paraguaio Mauricio Cardoso Ocampo… em guarani castiço, da gema!

As músicas do repertório que Daniel de Paula executou com os parceiros na Vila Mariana são dos álbuns Lufada em Viola de Cocho e Viola e Sentimento, mas ele brindou os ouvintes também com releituras de Mercedita e Siriema do Mato Grosso.

” Ouvir a música de Daniel de Paula é vivenciar alguns minutos de uma conexão que transcende o real, é experimentar uma sensação de suave levitação para contemplar um sopro Divino na composição. São como pequenos milagres, feitos aqui e ali, e é preciso estar disposto e atento para percebê-los… Daniel os percebe, e os traduz com as mãos”. Andreia Beillo

marcão azevedo

O Viola dos 5 Cantos teve sequência no domingo, 14 de junho, com uma roda de catira com o grupo Botas de Ouro, de Guarulhos,  na área de convivência do Sesc da Vila Mariana que fez bater os pés e palmas pessoas de várias idades, entusiasmando sobretudo crianças. Floresta e Tião Ramalho coordenaram o grupo de sete catireiros ao ritmo de modas de viola, recortados e chulas.  A apresentação começou com coreografias complexas de sapateados do grupo sobre um tablado. O público aprendeu os passos básicos da catira vai interagindo com os catireiros em uma grande roda de dança.

Em 18 de junho, Zeca Collares sairá dos bastidores onde coordena sem descansar o evento e voltará a representar o Sudeste, mas desta vez por meio das Folias de Reis, dos Calangos, dos Cocos e das Marujadas mineiras. 

O encerramento, no dia seguinte, 19, trará de Serra Talhada (PE)  Adelmo Arcoverde e o filho dele, André.

Além do talento e da qualidade de seu trabalho, Adelmo destaca-se por ser o principal responsável por desenvolver um novo conceito da viola popular, tradicionalmente utilizada por repentistas apenas para marcar a poesia de cordel. Adelmo Arcoverde trará a Sampa um viola dinâmica e é hoje o maior nome no Brasil deste instrumento utilizado com a concepção da escola nordestina de tocá-lo, estilo único que se perde no tempo com as regras e belezas que só o nordestino sabe fazer.

botas

O Sesc Vila Mariana fica na rua Pelotas, 141, e dá início aos espetáculos sempre às 20h30. O endereço está a menos de 1.000 m da estação Ana Rosa do Metrô e, para mais informações, o telefone é (11) 5080-3000. 

O Barulho d’água Música agradece à direção do Sesc da Vila Mariana pela gentileza de autorizar a cobertura dos shows do projeto Viola dos 5 Cantos, incluindo o registro fotográfico.

zcaaverde

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

2 pensamentos sobre “Daniel de Paula: epifânico e abrejeirado

  1. Me encanta quando fala que ouvia músicas de um rádio a pilha. Isso também marcou minha infância. Meu pai acordava muito cedo, antes do Sol nascer e os chiados do rádio me acordavam junto com ele.

    • Palmira, boa noite!

      Sinto imensa saudades daquela época, eu ainda era um garoto. Mas a vida é mesmo o correr de um rio e felizes somos nós que podemos nos realimentar de boas lembranças! Obrigado pelo contato! Felicidades, sempre!

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