Barulho d'Água Música

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Adelmo e André Arcoverde (PE) trazem em suas violas tanto o encantamento das feiras nordestinas, quanto a elegância dos conservatórios

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O burburinho e o cheiro das feiras populares; um romance proibido entre uma índia e um bandeirante que vinga e resulta em nova família, outro entre um padre e uma freira, este condenado à moda da inquisição; histórias de cangaceiros que guerreiam em defesa de sertanejos explorados ou que bem na horinha “h” negam fogo, deixam de cumprir a “encomenda”, e se convertem; mensagens celestiais transmitidas por querubins por meio das quais Deus reafirma seu amor pela humanidade. Estes e outros temas e personagens da cultura Nordestina inspiram Adelmo Arcoverde em suas magistrais composições e afinações para viola caipira — literatura de cordel da melhor qualidade que ele recita pela voz dos dez arames, ora com sabor ibérico e trovadoresco, ora com elegância camerística — encheram o auditório do Sesc Vila Mariana (SP) na noite de 19 de junho, quando Adelmo e o filho, André, encerraram o projeto Viola dos 5 Cantos. Quem não se rendeu ao frio que castigava Sampa na ocasião, e foi prestigiá-los, acabou voltando para casa com as palmas aquecidas de tanto batê-las!

Bendito conflito e confronto estes, os das mãos. Se em pleno sertão da Bahia vicejou, em Vitória da Conquista, Elomar e seu pupilo João Omar, em Pernambuco brotou, na cidade de Nazaré da Mata, o “Duo DNA”, como Adelmo, brincando, mas bem disse, poderia se chamar a dupla entre ele e André — “o parceiro ideal pelo qual eu esperei por trinta anos para me acompanhar”. A família Albuquerque Arcoverde, assim como a Figueira de Mello, já tem seus continuadores, a sorte é nossa! Incelença, frevo ou baião, por mais complexa que pareça ser a peça selecionada para o repertório, pai e filho a tocam em sintonia umbilical e cirúrgica, dialogam as caboclinhas encontrando as partituras no olhar um do outro, os enredos em meneios de cabeça, as narrativas e as rimas em sinais com os polegares ou outra sutil forma de tabelinha entre ambos.

Às vezes Adelmo rasqueia as cordas ou percute o tampo da viola, parece nervoso. A música ganha, subitamente, uma pitada de estranhamento, parece que vai desandar. Entrementes, em momento algum perde o encantamento, nem sai do tom: André segura as pontas, erudito, quase imóvel a não ser com os dedos em movimento, mantendo o equilíbrio, a leveza e a pluralidade do espetáculo. É hora de tirar o chapéu e ficar em pé; cabe uh! uh!, mais adequado, ainda, um uau!; minto: perfeito é o “Bravo!” que alguém da plateia soltou. O preço do ingresso, senhoras e senhores, está mais do que valorizado.

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Com exceção de Campanário, composição que Adelmo Arcoverde apresentou sozinho e até então estava inédita já que brindou o público do Sesc com sua primeira audição, todas as peças apresentadas no concerto para o Viola dos 5 Cantos fazem parte dos álbuns O Convertido (cuja faixa título, conforme relatou o autor, faz referência à conversão ao catolicismo de Antônio Silvino, ex-cangaceiro anterior a Lampião destemido e impiedoso, mas que mijou para trás e descumpriu o trato de sangrar um cabra, deixando furioso o prefeito que encomendara o homicídio) e Mensageiro, respectivamente de 2013 e 2014. Os dois álbuns, que tanto sugerem um passeio pelos incipientes burgos da idade média, quanto um visita aos imponentes Conservatório de Pernambuco e Sala São Paulo (com direito a um saboroso naco de queijo de manteiga ou rapadura enquanto não fica pronta a pintura que se faz à mão ou se revela a imagem captada pelo retratista) podem ser adquiridos pelo endereço eletrônico adelmoarco@yahoo.com.br.  

Mais sobre Adelmo Arcoverde

Em uma de suas vindas a São Paulo, na década dos anos 1990, Adelmo Arcoverde dividiu o palco da sala Cecília Meirelles, nada mais, nada menos, que com Turíbio Santos. Como se apenas este dado biográfico já não bastasse, foi o primeiro violeiro do país convidado a participar do Free Jazz Festival, em 1988,  quebrando  a histórica resistência dos promotores do evento em abrir espaços para representantes de outras sonoridades, principalmente para nomes tangentes ao do circuito popular da música brasileira.

Mas Adelmo é mesmo um ponto fora da curva, capaz de tocar clássicos de Vivaldi em uma viola caipira, a mesma na qual dedilha as cordas com a mesma técnica e versatilidade dos antigos trovadores. Não se sabe se ele, também, como reza lendas, teria introduzido os dedos em ocos de árvore ou de buracos em capelas retiradas em noite de lua cheia, mas referências espirituais marcam sua vida desde garoto. Adelmo teve avó rezadeira  e tanto dela, quanto da mãe católica, recebeu considerável bagagem a respeito do tema.  Com 17 anos, ele compôs Dança da Morte para homenagem o avô. Quando este morreu durante certa noite, ninguém avisou  o garoto, que, ao acordar no dia seguinte, abriu a porta e deu de cara com um caixão no meio da sala.

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Fotos: Marcelino Lima/Barulho d’água Música®

Em 1979,  Adelmo solidificou sua formação de músico popular, dois anos antes de, conforme o Dicionário de Música Brasileira Cravo Albin mudar se para Recife, onde ganhou diversos prêmios em festivais de música como arranjador, compositor e instrumentista. Em 1987, participou do disco Marvada viola, homenagem ao Capitão Furtado que saiu em vinil e contou, ainda, com Roberto Corrêa e João Lyra, além das participações especiais de Sivuca, Rolando Boldrin, e Zé Mulato e Cassiano.  Já em  2004, integrou o álbum Violeiros do Brasil, assinando a  faixa Antônio Conselheiro e o arraial do Bom Jesus. O disco foi gravado ao vivo no Teatro do Sesc Pompeia  (SP)entre agosto e setembro de 1997 e lançado em junho de 1998, pelo SESC-Núcleo Contemporâneo e, em outubro de 2004, relançado pelo Selo Revivendo. A edição apresenta importantes artistas da viola caipira das várias regiões do Brasil, entre os quais, Almir Sater, Zé Gomes, Renato Andrade, Roberto  Corrêa, Paulo Freire, Ivan Vilela, Pereira da Viola, Josias Dos Santos, Angelino de Oliveira, Renato Andrade, Tavinho Moura, Heitor Villa-lobos, Zé Mulato e Cassiano e Zé Coco do Riachão. O projeto foi idealizado pela produtora Myriam Taubkin e a gravação do disco foi sugerida pelo músico e produtor Benjamim Taubkin.

Mensageiro, álbum lançado m novembro do ano passado, no Conservatório Pernambuco de Música e gravado no Batuk Studio, na cidade de Carpina, com a produção artística assinada por André Arcoverde, tem 11 faixas e conta ainda com a participação de Allison Budega de Freitas (baixo elétrico), e Júnior Codorna (percussão). O novo trabalho e Convertido valorizam a xilogravura em suas capas e encartes, reforçando a ligação de Adelmo, também, com a literatura de cordel.

O projeto Viola dos 5 Cantos, concebido por Zeca Collares, oferece uma mostra da diversidade dos ritmos e das sonoridades que a viola de dez cordas encontra nas várias regiões do país, permitindo revelar o que cada linguagem tem de mais peculiar e em comum, além das tradições, como festas religiosas e profanas, as quais ela está vinculada e se encontra inserida. Cada convidado representa uma região brasileira. Júlio Santin (Irapuru/SP), do Sudeste, tocou no dia 10, e no dia 12, Daniel de Paula, com uma viola de cocho, mergulhou a plateia no universo do Centro-Oeste. No domingo, 12, o grupo Botas de Ouro (Guarulhos/SP), comandado por Floresta e Tião Ramalho, dançou e ensinou passos básicos de catira ao público que estava na área de convivência do Sesc Vila Mariana.  Zeca Collares saiu dos bastidores no dia 18 para, baseado no repertório de seu disco Pés Descalços, brindar a plateia com congadas, cocos, folias de Reis, calangos, e marujadas. Quem não viu, perdeu. Quem viu, ficou com saudades e espera que outras casas, alem do Sesc, acolham o projeto entrando em contato com a Chasquento Produções, cujos dados seguem abaixo.

Chasquento Produções:

(15) 98713-1512 | http://www.chasquento.com |chasquento@chasquento.com |www.zecacollares.com 

tiozinho33

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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