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Garrincha bate bola, Cora Coralina divide doces e Cartola puxa o refrão em novo álbum de Zeca Collares (MG)

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zeca collares campinas arte 2 

O cantor e compositor Zeca Collares (Grão Mogol/MG) lançou no domingo, 21 de junho, o oitavo álbum da carreira, acompanhado pelos músicos Cléber Almeida (percussão), Zé Marcos (violão) e Luiz Anthony (contrabaixo) e como plateia para a primeira audição de Estação, biscoito de nata que chegara apenas dois dias antes, teve o público que frequenta a unidade Campinas do Sesc. Zeca Collares ocupou o palco da área de convivência como atração do projeto Folias de Junho. O disco tem dez faixas, das quais duas são instrumentais, e apresentam o universo das rezas, das folias e das vivências sertanejas que formam o ambiente onde, desde menino, ele está inserido, compostas em parceria com Valter Silva e que extrapolam a sonoridade da viola caipira com inovações nas propostas melódicas e harmônicas. “Sempre fui conhecido como um violeiro dedicado ao lado tradicional do instrumento, e já toquei, por exemplo, com Pena Branca e Xavantinho, mas neste novo trabalho vocês notarão: fiz questão de manter os pés nas raízes, com a cabeça colocada no mundo”, disse Zeca Collares que, atualmente, reside em Sorocaba (SP).

Uma das novidades de Estação, no disco, está logo na primeira faixa, Sonho de Menino. Enquanto canta a canção, Zeca Collares toca ukulelê, instrumento de quatro cordas de proporções semelhantes a um cavaquinho, popularizado no Havaí (Estados Unidos), lá introduzido por portugueses da Ilha da Madeira, no século XIX, e popularizado por George Harrison em canções como Here Comes de Sun, além de rabeca. Em Campinas a apresentação de Sonho de Menino motivou o público a pedi-la como bis, mas um dos momentos mais marcantes do show que também transcorreu em ambiente dos mais descontraídos ficou registrado quando Zeca Collares apresentou a instrumental Reza, dedicada à mãe, morta há dois anos após sofrer por mais de uma década do mal de Alzheimer.

Collares, ao conceber a música, tentou ilustrar por meio de vários sons mesclados na mesma melodia a confusão que passaria pelo cérebro da senhora, ativa rezadeira que de uma hora para outra passou a protagonizar comportamentos e estranhos hábitos, inicialmente sem que os familiares os associassem à doença degenerativa que, entre outras faculdades, ataca a memória e a percepção do tempo, provocando graus severos de amnésia e outras formas de demência. Zeca relembrou detalhes como o dia em que a mãe temperou o prato do dia com detergente, e cozeu roupas no forno antes de a enfermidade piorar até chegar a uma fase na qual se tornou menos agressiva, entretanto deixou a mãe silenciosa e menos agitada, embora profetizando a seca que estava a caminho.

A iminência da estiagem diversas vezes levava a senhora a pedir a Zeca e aos demais familiares que orassem para, entre outras consequências da falta de água, que o gado não morresse de sede. Esta solicitação está expressa no verso “ei menino reza, reza que a seca já vem e vai matá o gado/pega uma pedra branca, coloca no meio do rio para que não falte água”, incutida em meio à execução instrumental de Reza, que soa perturbadora, sobretudo pelos efeitos sonorosdos instrumentos percussivos que Cléber Almeida combina, entre os quais sinos que parecem prenunciar mau agouro ou comunicar morte nas redondezas, agogô e batidas nos pratos. “Vamos aproveitar a canção para soltar as bruxas, minha gente, pois é manhã de domingo e estamos lúcidos, ou pelo menos dentro daquilo que a gente considera lucidez”, observou Zeca antes de os músicos entrarem em ação.

Outra faixa que merece atenção em Estação recebeu o título Meu Torrão, homenagem ao Brasil em cuja letra Zeca Collares convoca com apoio vocal da esposa Silvana importantes personagens da nossa história, reais e imaginários, como Ariano Suassuna, Miguilin, Capitu, Antônio Conselheiro, Lampião, Chiquinha  Gonzaga, Cora Coralina e o gênio das pernas tortas que encantava as torcidas com seus dribles marotos. “Chamei o Garrincha para um bate-bola/Pedi ao Cartola para puxar o refrão/Deste balanço que eu escrevi/Dizendo que aqui é meu torrão”, escreveu o mineiro que é autor ainda de Pés Descalços, Primavera Mineira e Feito de Rendas, entre outros trabalhos da discografia.  zeca collares campinas 1

Zeca Collares é um cantor experiente e em seu currículo consta apresentações com expoentes de várias vertentes da música nacional tais quais Hermeto Pascoal, MPB4, Duofel, Francis Hime, Renato Borguetti, Ivan Vilela, Inezita Barroso, Décio Marques, Pereira da Viola, Levi Ramiro e Zé Mulato e Cassiano, que, por sinal, estiveram na plateia em Campinas na tarde daquele mesmo dia se apresentaram pelo Folias de Junho. Já percorreu vários países da Europa e protagonizou célebres programas na televisão, além de ganhar prêmios como o do Concurso Nacional de Excelência da Viola Caipira, na categoria Melhor CD Instrumental (2004). É cineasta e assina trilhas sonoras para documentários, como a premiada no Festival Guarnicê de Cinema do Maranhão como melhor trilha original do documentário João do Vale – Muita Gente Desconhece, do jornalista e cineasta Werinton Kermes.

Antes de se apresentar no Sesc de Campinas, Zeca Collares coordenou o projeto Viola dos 5 Cantos, acolhido pelo Sesc da Vila Mariana (SP), e encerrado na noite de 19 de junho, com as apresentações de Adelmo e André Arcoverde, pai e filho representantes da viola Nordestina, da cidade de Nazaré da Mata (PE).

O Viola dos 5 Cantos oferece uma mostra da diversidade dos ritmos e das sonoridades que a viola de dez cordas encontra nas várias regiões do país, permitindo revelar por meio de diversas afinações o que cada linguagem tem de peculiar e em comum, além das tradições como festas religiosas e profanas às quais ela está vinculada e se encontra inserida. Cada convidado representa uma região brasileira.Júlio Santin (Irapuru/SP), do Sudeste, tocou no dia 10, e no dia 12, Daniel de Paula, com uma viola de cocho, mergulhou a plateia no universo do Centro-Oeste. No domingo, 12, o grupo Botas de Ouro(Guarulhos/SP), comandado por Floresta e Tião Ramalho, dançou e ensinou passos básicos de catira ao público que estava na área de convivência do Sesc Vila Mariana. Zeca Collares saiu dos bastidores no dia 18 para, baseado no repertório de seu disco Pés Descalços, brindar a plateia com congadas, cocos, folias de Reis, calangos, e marujadas. Quem não viu, perdeu. Quem viu, ficou com saudades e espera que outras casas, alem do Sesc, ofereçam o projeto entrando em contato com a Chasquento Produções, cujos dados seguem abaixo.

Chasquento Produções: (15) 98713-1512 |http://www.chasquento.com |chasquento@chasquento.com |www.zecacollares.com.br

Discografia de Zeca Collares, extraída do blog Em Canto Sagrado da Terra

• 1986- Brejo nós Gostamos de Você • 1998- Contos Sertanejos, com o Grupo Mucunã • 2000- Aboio (Grupo Mucunã) • 2001- Mucunã e Pena Branca ao Vivo • 2002- Primavera Mineira – Instrumental de Viola Caipira (eleito melhor Cd instrumental de 2004) • 2006- Pés Descalços – Instrumental • 2012- Feito em Rendas • 2015- Estação

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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