Zé Modesto, historiador e poeta paulistano, um dos esteios da (rara) boa música, receba nossos parabéns pelo aniversário!

zé modesto

O Barulho d’água Música registra que hoje, 29 de julho, é aniversário do cantor e compositor Zé Modesto,  paulistano formado em História pela Universidade de São Paulo. Zé Modesto é autor dos álbuns, Esteio, Xiló e Aos Pés do Ouvido e, entre outros parceiros, tem os amigos de estrada Renato Braz, Marcelo Pretto, Mario Gil, Juçara Marçal, Carol Ladeira e Ceumar.  Estudioso da canção brasileira, aprecia choros antigos, sambas e serestas que aprendeu a curtir desde menino influenciado pelo clarinete do pai e pelo violão tenor do avô, ao qual dedicou Esteio.
O repertório de Zé Modesto é um dos mais marcantes pela beleza e pela simplicidade embaladas em delicadas poesias e expresso por meio de benditos, ladainhas, capoeiras e folias que remetem ao universo mineiro, principal manancial de sua criação. O aniversariante ainda bebe nas fontes do samba das tonalidades urbanas indissociáveis de sua alma paulistana.


Xiló, o segundo álbum de Zé Modesto, ainda pode ser encontrado em boas lojas do gênero, já Esteio é mais raro. Sobre este trabalho, vale a pena  reproduzir o artigo Um vôo panorâmico sobre Esteio, publicado por Cristiane Fernandes e disponível no endereço eletrônico http://mpbnet.com.br/musicos/ze.modesto/index.html

ESTEIO está cheio de estórias… à maneira mineira de Guimarães Rosa, presença poética marcante, especialmente em Diadorando. Composta em tons roseanos, expressa o garimpeiro cuidadoso das palavras nos Campos Gerais da poesia. É lá que este contador de histórias e estórias busca aprumar sua vista. Além de bela paisagem para os olhos, a canção, na voz da cantora Ceumar, encanta a alma com delicadeza e suavidade. É assim, em meio a mais pura poesia, que iniciamos nossa travessia por um sertão musical que une com maestria desvãos de um chão árido e veredas límpidas, margeadas por altos buritis em busca de céu e luz.

Em ESTEIO, o sertão é vasto e sem fronteiras. Ao lado da prosa poética tipicamente mineira, encontramos também o lirismo ibérico melodioso, embalando Estrada, canção interpretada pela cantora Anunciação. O tempo bom de colheita cantado em Estrada, em nada destoa do tempo de lamentos, cantado em Deserto, por Renato Braz, vencedor do último Prêmio Visa, versão cantores. A textura grave da voz irretocável de Renato e a melodia incidental Cantemos a Jesus, de tradição popular católica, tornam macia a caminhada deserto adentro.

Em seu profundo mergulho no interior do sertão humano, Zé Modesto colhe luz e breu e transforma um e outro em poesia. Não são apenas estórias a habitar ESTEIO. A estrada aqui é iluminada também por Estrelas, samba-canção composto a partir de um poema de Ernesto Cardenal, poeta nicaraguense. Com Estrelas, passamos da poeira do sertão à poeira dos Cânticos Cósmicos, dos morros das gerais aos morros cariocas.

O samba de raiz dos mestres Elton Medeiros e Paulinho da Viola, sopra seus ventos em Do Amor, com predominância da poesia metalingüística. Zé Modesto propõe-nos uma reflexão sobre a arte que ordena o caos profundo da existência e também sobre o amor guardado na memória retinta das cores. E já que estamos falando de amor, deitemos olhos e ouvidos sobre Prece, interpretada por Dalci, cantor e compositor de extrema sensibilidade e requinte musical. A reiteração melódica e poética da canção insere-nos em outros espaços. Em Prece, somos levados aos vãos dos degredos e, desorientados, navegamos por leitos densos. A interpretação deste novo cantor convida-nos à rara possibilidade de reverenciar o silêncio, condição indispensável para fazer brotar essências. Este tom reflexivo aprofunda-se ainda em Calendário, parceria com o ator e poeta Gero Camilo e em O ciclo da lua cujo arranjo de Chico Saraiva (vencedor do último Prêmio Visa, versão compositores) e o veludo da voz de Juçara Marçal dialogam de forma ímpar.

Finalizando o cd, temos o lado eclético do compositor na variedade rítmica. O Anel do cirandeiro é um xote que conta com a participação especial de Lula Alencar na sanfona, com a vivaz interpretação de Marcelo Pretto, do grupo A Barca, e de Ana Leite, cantora que alia a técnica vocal à espiritualidade própria da música popular brasileira. Tem jeito não, uma rumba-brasileira iluminada pelo trombone de Alê Arruda, trata com leveza e ironia temas contemporâneos, abrindo caminho, com seu humor irreverente, à linguagem lúdica de Camisa Vermelha, abrilhantada pelas sutilezas da interpretação do cantor Rubi. “Desilhados” e em companhia de um lalaiá entoado em coro, finalizamos o cd com o que na verdade é o início de um sorriso aberto, daqueles raros.

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