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626 – Liverpool e a roça se encontram em álbum instrumental de Neymar Harrison Dias e Igor Lennon Pimenta, da Borandá

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neymar e igor - Copia

“Para mim este disco já nasce clássico e somos todos privilegiados em poder escutá-lo”.

Impossível discordar de André Mehmari, que nas palavras acima refere-se a Come Together Project, trabalho de Neymar Dias em parceria com Igor Pimenta — lançamento recente do selo Borandá, o mesmo pelo qual Neymar e Toninho Ferraguti assinaram Festa na Roça, um dos finalistas (vai vendo!) do Grammy Latino. Amigos há mais d quinze anos, um dos quais tem um pé fincado no meio caipira, e o outro é jazzista de primeira ordem, juntos ambos traçaram uma ponte imaginária entre São José do Rio Preto e Liverpool, com escala na Índia. Nesta viagem, em 13 elaboradíssimas faixas, revisitaram o universo melódico dos The Beatles, produzindo o trabalho que encantou o pianista. 

A impressão de Mehmari ao ouvir neste momento em casa o álbum (com a cumplicidade de uma suave chuva caindo!) confirma-se e torna-se arrebatadora quando ambos estão no palco apresentando o concerto que revela o quanto os possuem de matutos os quatro rapazes ingleses mais populares que Jesus Cristo — o qual jamais deve ter se encanado com esta tirada do John, posto que tanto como fora à época do Sermão da Montanha, passando pelo período da beatlemania, como segue até hoje, sempre andou com cabelos para baixo dos ombros. 

Neymar Dias a gente já conhecia, com suas transformações e as manhas de (se) transcender para outras margens ao empunhar a caboclinha e interpretar. Durante apresentação na noite de quarta-feira, 28, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, o violeiro parecia, às vezes, deixar ser levado pelas próprias cordas para um canto sossegado de varanda de uma recôndita fazenda. Ali, ou lá, recém-regresso da lida da roça, entre um trago de fumo de corda, um ponteio, um gole de café coado de agorinha e outro gole – este, antes de molhar o beiço, oferecido em louvor a São Gonçalo –, rendia-se dolente ao lusco-fusco. Com ele, além do bragado fiel, o compadre Igor — Pimenta apenas de sobrenome, posto a delicadeza com que acaricia e extrai as notas de tempero das músicas, ao ponto, nem doces, nem salgados –, Neymar e Pimenta tocando não Rio de Lágrimas ou Chico Mineiro (que já seria para arrepiar e trazer para a cena também o gato que toscanejava no telhado), mas In my life ou Hello Goodbye, em celebração com os crepitares de lenha no fogão cozendo polenta e couve ao fundo, o chilrear de grilos e o coaxar de sapos distantes, mais um mugido perdendo-se no horizonte.

nymar diaspb

 

Come Togheter Project recebeu do ProacSP verbas previstas em lei para ser produzido, ao final do ano passado. A contrapartida de Neymar Dias e de Igor Pimenta (promover vários shows grátis pela Capital e pelo interior paulistas) findou-se com a apresentação no auditório da Mário de Andrade, mas quem perdeu estas oportunidades e reside em Sampa ou cidades próximas poderá ouvi-los, em novo concerto, também com entrada franca, dia 6 de setembro. No domingo que será véspera do feriado da Independência, os músicos que vestiram xadrez em Lennon, Paul, Ringo e George (ou, como queiram, trajaram-se com irreverentes ternos pretos, bem cortados numa alfaiataria londrina), vão oferecer o repertório do álbum ao público que frequenta o projeto Música no MCB (Museu da Casa Brasileira), a partir das 11 horas. O MCB fica na avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705, e o telefone para mais informações é  +55 11 3032.

“Desde os primeiros esboços que fiz para começar a elaborar os arranjos deste disco já pensava em fazer nada caricato, algo como ‘Beatles no Choro’ ou ‘Beatles no Jazz’, principalmente por que abordamos uma obra que está no ouvido de todo mundo”, disse Neymar Dias ponderando que as músicas do quarteto inglês são populares e consagradas no mundo todo e que ele não precisou recriar ou inventar nada sobre elas, pois encontrou nas próprias melodias os elementos que buscava para tornar concreto o esboço da ponte São Paulo-Londres-Índia “Queria promover um trabalho para ser curtido entre amigos reunidos na sala de uma casa, em um ambiente de intimidade”, prosseguiu Neymar, arranjador, compositor e  também um dos mais aclamados instrumentistas da atualidade. “Em tudo o que se envolve, Neymar Dias faz toda a diferença, pois traz uma musicalidade sem fronteiras debaixo de cada dedo”, observa, mais uma vez, Mehmari sobre o proficiente “caipira transcendental”.

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“Reduzir para este formato de viola e de contrabaixo músicas dos The Beatles não significou tarefa simples, já que lidamos com uma banda de rock que tocava com baterias, guitarras, baixos elétricos e outros instrumentos que formavam uma ‘senhora’ orquestra, mas com muita dedicação e estudos mergulhamos no repertório deles e encontramos a gotinha mágica que contem e permitiu traduzir para esta formação sonoridades, arranjos e melodias das obras”, disse Igor Pimenta. O contrabaixista integra o grupo de jazz Kvar (com o qual gravou um álbum homônimo em 2014 e do qual gentilmente cedeu um exemplar ao acervo do blogue) mas voltemos a Mehmari para destacar: o “comparsa [de Neymar Dias ] Igor Pimenta coloca toda madeira de seu instrumento a serviço dos brilhantes arranjos” de Come Toghter Project. “Mesmo nas oportunidades mais solísticas, Igor se mostra sábio ao adotar gestos mais econômicos e melódicos que são sempre inspirados e sinceros, além de memoráveis”. Mais uma vez Mehmari tem razão, sem uma vírgula que possa ser acrescentada ou contestada.

  

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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