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633 – João Arruda fala sobre a carreira, cultura popular e canta em nova rodada do Imagens do Brasil Profundo (SP)

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arrudinha

O compositor, pesquisador e multi-instrumentista João Arruda, de Campinas (SP), animou mais uma rodada do projeto Imagens do Brasil Profundo, realizado a cada quinze dias, sempre às quartas-feiras, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Abrindo a programação de setembro, João Arruda conversou com o curador Jair Marcatti sobre temas e ritmos relacionados à cultura brasileira e que influenciam sua carreira que, neste ano, completa 10 anos. O bate-papo transcorreu entremeado por músicas dos álbuns Celebra Sonhos e Venta Moinho, além de um terceiro, ao vivo, com músicas do show Entre Violas e Cordas (que está gravando), e as canções Minha História (João do Vale/MA) e Tapera (Vitor Ramil/RS). Para acompanhá-lo, Arruda chamou ao palco o violinista Antônio Galba e a cantora Katya Teixeira.

jair e joao

A atração por música começou quando João Arruda ainda era um menino, por volta dos 13 anos, estimulado por uma flauta de pífano que o irmão comprou para dar de presente, mas não a entregou. O garoto herdou o instrumento e a partir daí não parou mais. Crescendo em um ambiente no qual o pai ouvia músicas étnicas e do folclore andino, desenvolveu interesse por vários outros instrumentos e autores — entre os quais mencionou, inicialmente, Elomar Figueira de Mello (BA), autor da expressão Futuca a tuia, da música Arrumação, que batizou o primeiro grupo de Arruda. A viola caipira soou mais alto quando em um ensaio na casa de um amigo encontrou uma caboclinha encostada. Ao dedilhar as cordas, recorda: “eu congelei, disse ‘para tudo’: quero tocar viola!”.

João Arruda, em sua trajetória, encontrou mestres como Stênio Mendes, João Bá e Levi Ramiro atribui a Dércio Marques um papel de “divisor de águas” devido às várias sonoridades de diversos sotaques e ritmos, brasileiros e internacionais, que o mineiro incorporava à obra autoral. Levado por Dércio Marques (que conhecera em Campinas durante um show) para um sítio chamado Rosa dos Ventos (Pocinhos do Rio Verde/MG), João Arruda gravou Celebra Sonhos, em 2007. “Com o Dércio Marques é que minha água começou a engrossar”.

As vertentes musicais que influenciam João Arruda veem de países sul-americanos tais quais Bolívia e Argentina, de ibéricos e africanos, como o Marrocos, e da França, e do Brasil se estendem do Nordeste, com mais força, aos ritmos gaúchos. Elementos e santos populares que constituem a religiosidade e embalam a fé do brasileiro (de Folias de Reis e outras festas católicas às celebrações afras) e hábitos e costumes campesinos, como o aboiar dos vaqueiros, complementam suas composições e também são tópicos de suas pesquisas.  

galba e arrudinha

katya e joão

“O cantador é um polinizador, aquele que tem a missão de levar mel de um canto para outro, pois a canção que a gente faz é mel”, observou João Arruda. “Aprendi com mestres Dércio e João Bá: os cantadores têm a missão de ligar os pontos de tradições populares andando por este mundo com a missão de polinizar as flores, bebendo nas fontes e devolvendo para o povo em forma de arte”.

Minha História (João do Vale/MA) e Viola (Levi Ramiro/SP) foram as músicas que Arruda cantou com Galba e com Katya Teixeira; o repertório incluiu ainda Viva Jujuy!, que é uma homenagem dele à província argentina onde reside a amiga Maryta de Humahuaca. 

Canta Vento

Nos dias 5 e 6, 12 e 13, e 26 e 27, sempre a partir das 12 horas, João Arruda também estará em São Paulo para apresentações ao lado dos amigos do grupo Canta Vento no projeto Brincatoria, do Sesc Pinheiros. Neste show, o grupo interage com o público para brincar com a cultura popular do Brasil e de outros cantos do mundo por meio de cantigas de roda, trava-línguas, improvisos coletivos, lendas, mitos e danças. O Canta Vento, além de Arruda (viola e charango), conta com Marcelo Falleiros (violão, voz); Aline Moraes (flauta, voz) e Carol Ladeira (voz, percussão)

Olhar aprofundado e amplo

O projeto Imagens do Brasil Profundo tem curadoria do historiador e sociólogo Jair Marcatti, que o desenvolveu com o intuito de por em debate por meio de músicas, de filmes, de manifestações populares e de objetos o Brasil por dentro, aquele país que nas palavras de Ariano Suassuna, escondido em rincões considerados profundos, é muito vivo.  Iniciado em 2014, na primeira temporada foram convidados violeiros para falar sobre as ligações de sua música com a cultura caipira. Em 2015, com a ampliação do programa, passaram a ser abordados outros aspectos das diversas culturas regionais do Brasil, agora desvendados em diferentes formatos: shows, bate-papos musicais, debates e palestras.

Ao invés de promover abordagens tradicionais, Marcatti prefere convidar músicos, documentaristas, diretores de cinema, ativistas culturais e pesquisadores da cultura popular que em comum nutrem um modo de olhar aprofundado e amplo sobre o Brasil e promovem  trabalhos de pesquisa e resgate das nossas mais entranhadas tradições. Com cada um dos participantes, Marcatti aborda aspectos do universo cultural brasileiro, de nossas trajetórias, continuidades e rupturas; daquilo que sem nenhuma pretensão definidora poderíamos chamar de identidades brasileiras, no plural, com a vantagem dos exemplos serem pontuados no calor da prosa, ao vivo, pelo som dos instrumentos, muitos artesanais, e pela apresentação de outras formas de expressão cultural.

As rodadas do Brasil Profundo são quinzenais. Depois de João Arruda, o público poderá curtir e conhecer o cantador Cláudio Lacerda, no dia 16 de setembro. Marcatti já convidou neste ano, entre outros, Katya Teixeira e Cássia Maria, Benjamin Taubkin, Luiz Salgado, Paulo Dias, Galileu Garcia Júnior, Ivan Vilela e José Miguel Wisnick. Até dezembro haverá ainda sessões com Jean e Joana Garfunkel, Consuelo de Paula, Trio José, Antônio Nóbrega, Renata Mattar (Companhia Cabelos de Maria) e Conversa Ribeira.   

Catamara

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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