Barulho d'Água Música

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649 – Cláudio Lacerda no Imagens do Brasil Profundo: a arte de melhorar o que já é ótimo!

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Cláudio Lacerda, cantor e compositor paulistano, acompanhado por Daniel Franciscão (viola caipira) e Leonardo Padovani (violino), protagonizou na noite de quarta-feira, 16, mais um dos seus memoráveis shows, durante o qual cantou na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, sucessos da carreira que já soma três álbuns gravados, um prestes a ser colocado à disposição dos amigos e fãs (inúmeros, mas ainda poucos para um artista da sua magnitude e capacidade interpretativa e veia composicional!) e vários projetos dedicados à pesquisa, preservação e divulgação das tradições populares que abastecem o inesgotável e rico manancial da  música regional e de raiz nacionais, concebidos e costurados independentemente não sem mergulhar em dedicados estudos.  Cláudio Lacerda atendia ao convite do curador do projeto Imagens do Brasil Profundo, o professor de Sociologia Jair Marcatti, e mais uma vez provou: quando ele sobe ao palco o que já é normalmente ótimo pode ficar ainda melhor!

Nesta apresentação, Cláudio Lacerda começou sozinho, ao violão, trazendo, de saída, Quero, do amigo e compositor Zé Paulo Medeiros, a qual sucedeu com Sina de Cantador, dele e de Júlio Bellodi, que estava na plateia, em parceria com Edmundo Villani-Côrtes. As músicas são, respectivamente, a primeira faixa de Alma Lavada (2003), disco abre-alas da carreira, e última do mais recente, Cantador (2010). “Gosto de cantar músicas que tenham algo de mim e não fui eu quem as escolhi, pois normalmente são as musicas quem nos escolhem”, disse Cláudio Lacerda, que do trabalho do “meio”, Alma Caipira, trouxe, já acompanhado por Franciscão e Padovani,  O mundo daqui a 100 anos, de Palmeira e Capitão Furtado. Alma Caipira revela não apenas a face de pesquisador atento, mas ainda o respeito e a gratidão que Cláudio Lacerda devota a ícones da música caipira; reúne um sofisticado repertório de composições pouco divulgadas de expoentes tais quais Nonô Basílio, Mário Zan, Nhô Pai, Elpídio dos Santos e Teddy Vieira, João Pacífico, Raul Torres; saiu em 2007, com participações especiais entre outros de Tinoco, Pena Branca, Alzira e Tetê Espíndola, Katya Teixeira, Daniela Lasalvia e Lula Barbosa!

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Dos mestres, por sinal, um em especial conta com a constante atenção tanto de Cláudio Lacerda, quanto da maioria dos músicos destas vertentes: Dércio Marques. Deste cultuado cantor e compositor nascido em Uberaba (MG), o cantador lembrou a canção Mourão de Cerca, além de Disco Voador (Palmeira e Bia), ambas gravadas por Dércio Marques em Fulejo. Serrinha e Athos Campos, ainda meninos, legaram o hino Chitãozinho e Xororó ao público devoto da música caipira, uma singela composição que evidencia o quanto o homem do campo é atento e comunga com a natureza ao seu redor. Muitos intérpretes e cantadores já o gravaram com esmerada e devida competência, mas quando se diz que com Cláudio Lacerda tudo fica ainda mais caprichado não se comete exagero. Ainda mais se ao lado dele, dedilhando as cordas do violino, há alguém chamado Leonardo Padovani reproduzindo com fidelidade de arrepiar a pele o piar do inhambu.

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O ponto alto da noite, entretanto, revelou um talento pouco conhecido e mostrado por Cláudio Lacerda em suas apresentações solo ou com os amigos do projeto cultural 4 Cantos (Luiz Salgado, Rodrigo Zanc e Wilson Teixeira): o de declamador. Ao som da viola de Franciscão, em alguns momentos com voz embargada e quase rouca e os olhos a marejar, ele relembrou Resposta do Jeca Tatu, escrita por Catulo da Paixão Cearense para se contrapor a terrível mancada de sir Ruy Barbosa. O eminente baiano, no começo do século XX,  quando candidato à presidência da República, em sua campanha atribui o atraso do país aos lavradores brasileiros —  que tratou por “verdadeiros jecas”, inspirando-se em Monteiro Lobato, autor do conto do Jeca-Tatu e que retratava o sertanejo como supostamente faminto, doente e preguiçoso. O contra-ataque do maranhense (Catulo, apesar do sobrenome, é nascido em São Luís) é uma das mais antológicas poesias nacionais, texto que exige fôlego e conhecimentos de dramaturgia, e que costuma ser interpretada com maestria por Rolando Boldrin nos programas do Sr. Brasil.

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Um pouco antes, Cláudio Lacerda já emocionara o auditório – encontravam-se na plateia craques violeiros tais quais Marina Ebbecke, Fábio Porte e João Ormond, vindos de Jundiaí (SP), Noel Andrade, Sidnei de Oliveira, Júlio Bellodi, Danilo Moura e Victor Mendes, que compõem o Trio José, e Enos Emerick,  de São José dos Campos (SP)– apresentando Filhote do filhote, de Jean Garfunkel, que acrescentou recentemente ao seu projeto Olhos d’água – do qual está produzindo, também, Olhinhos d’água, que dedicará aos pequenos que quiçá adultos serão guardiões de nossas fauna, flora e recursos naturais como mananciais e lençóis freáticos.

E não acabou, senhores: Cláudio Lacerda, zootecnista  formado em Botucatu, terra de Angelino de Oliveira, possui profunda vivência roceira e, sagaz filho de mineiros, desde menino juntou à invejável e empírica bagagem conhecimentos e observações sobre costumes tradicionais e hábitos dos boiadeiros e de outras personagens campesinas. Inspirado nestes costumes, em parceria com o amigo compositor Adriano Rosa (Campinas/SP) e arranjos de Neymar Dias, recentemente gravou em São Paulo Trilha Boiadeira, compilação de sucessos cuja temática é a lida dos boiadeiros, com participações de Thadeu Romano e Vicente Castilho (acordeon), André Rass e Kabé Pinheiro (percussão), Daniel Pires e Neymar Dias (viola caipira) e Luiz Ribeiro (vocais) para os 10 anos da emissora Terra Viva. Neste álbum, que Cláudio Lacerda colocará no mercado como seu quarto trabalho, há músicas de Almir Sater, Renato Teixeira e Paulo Simões, Teddy Vieira, Théo de Barros e Geraldo Vandré, destes últimos a clássica Disparada, imortalizada na voz de Jair Rodrigues e que o trio relembrou para encerrar a cantoria na Biblioteca Mário de Andrade.   

Mergulho no Brasil de dentro

Dedos de prosa, boa conversa, música, imagens, artesanato e cultura popular. Essa é a receita de Imagens do Brasil Profundo – Um Olhar sobre a Diversidade Brasileira, projeto que envolve shows, debates, bate papos musicais e ações para crianças iniciado em abril e que se estenderá até dezembro, acolhido pela Biblioteca Mário de Andrade,  que ocorre quinzenalmente, sempre às quartas-feiras, sob a batuta do historiador e sociólogo Jair Marcatti, professor de Relações Internacionais e de Sociologia.

A ideia é mostrar e discutir por meio de músicas, filmes, manifestações populares e objetos o Brasil por dentro, aquele país que nas palavras do mestre Ariano Suassuna, escondido em rincões considerados profundos, é muito vivo. Ao invés de promover abordagens tradicionais, entretanto, Marcatti prefere convidar músicos, documentaristas, diretores de cinema, ativistas culturais e pesquisadores da cultura popular que em comum nutrem um modo de olhar aprofundado e amplo sobre o Brasil e trabalhos de pesquisa e resgate das nossas mais entranhadas tradições.

Com cada um dos participantes, Marcatti aborda aspectos do universo cultural e musical  brasileiro, de nossas trajetórias, continuidades e rupturas; daquilo que, sem nenhuma pretensão definidora, poderíamos chamar de identidades brasileiras, no plural, com a vantagem dos exemplos serem pontuados no calor da prosa, ao vivo, pelo som dos instrumentos, muitos artesanais, e pela apresentação de outras formas de expressão cultural.

As rodadas do Brasil Profundo começam sempre às 20 horas e não há cobrança de ingressos. Depois de Cláudio Lacerda Marcatti receberá em 7 de outubro Renata Mattar, da Companhia Cabelos de Maria, e Magda Pucci, do grupo musical  e de pesquisas étnicas Mawaca. Neste ano, entre outros, já passaram pelo projeto Katya Teixeira e Cássia Maria, Benjamin Taubkin, Luiz Salgado, Paulo Dias, Galileu Garcia Júnior, Ivan Vilela, José Miguel Wisnick e João Arruda. Até dezembro haverá ainda sessões com Jean e Joana Garfunkel, Consuelo de Paula, Trio José, Antônio Nóbrega e Conversa Ribeira.

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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