Barulho d'Água Música

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659 – Ivan Vilela e José Hamilton Ribeiro, mediados por Sérgio Martins, falam sobre música caipira em festival literário de Santos (SP)

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O Barulho d’água Música acompanhou no Teatro Guarany, em Santos (SP), na noite de sexta-feira, 25 de setembro, As Raízes da Música Caipira, rodada do 7º Tarrafa Literária mediada pelo jornalista Sérgio Martins com o violeiro escritor, compositor e pesquisador Ivan Vilela (Itajubá/MG) e o jornalista José Hamilton Ribeiro (Santa Rosa do Viterbo/SP). Os convidados abordaram o tema da mesa contando fatos, causos e comentando aspectos históricos e atuais relacionados à música caipira — uma das mais ricas e duradouras expressões das tradições populares do Brasil, presente com grande força no Interior de São Paulo e em estados como MG, PR, GO.

Ivan Vilela e Zé Hamilton também responderam perguntas encaminhadas pela plateia e o público assistiu a um trecho de um dos dois vídeos que acompanham o livro do jornalista Música Caipira, as 270 maiores modas – Edição Revista e Ampliada, novidade que a Realejo Livros estava lançando no dia do evento; Zé Hamilton, após a palestra, autografou exemplares em uma sessão de autógrafos ao lado de Ivan Vilela, este assinando Cantando a própria história – Música caipira e enraizamento, editado pela Editora da USP (Edusp). Durante o bate-papo, entre outras composições, Ivan Vilela tocou Viola Quebrada, de Mário de Andrade, Pra Matar a Saudade de Minas e Saudades de Minha Terra (Goiá e Belmote), presentes no álbum Paisagens, além de Carreirando, de Pereira da Viola,em homenagem a Tião Carreiro.

O 7º Tarrafa Literária terá atividades, inclusive para crianças, ainda nos dias 26 e 27 de setembro, no Sesc Santos e no Teatro Guarany. Para mais informações vejwww.tarrafaliteraria.com.br.

Mestre em Composição Musical pela Unicamp,  doutor em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), com pesquisas voltadas ao universo da cultura popular, Ivan Vilela atua em diversas frentes divulgando a música caipira e como violeiro  em seus mais de 30 anos de carreira dirigiu e foi  arranjador da Orquestra Filarmônica de Violas, sediada em Campinas.  Após o bate-papo mediado por Sérgio Martins, ao lado de José Hamilton ele autografou exemplares de  Cantando a própria história – Música caipira e enraizamento, editado pela Editora da USP (Edusp).

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“Podemos afirmar que o nascimento da música caipira deriva de duas vertentes, uma das quais é narrativa. Todos os povos iletrados do mundo arrumaram um jeito de contar sua própria história. Se eu conto uma história ao saírem daqui talvez vocês não consigam reproduzir de maneira precisa, mas se eu a transmito de forma rimada, metrificada e melodiada daqui a 50 anos vocês ainda estarão cantando e lembrando dela. A outra vertente é a fusão da música portuguesa no início da colonização com as danças indígenas. Dois dos ritmos mais presentes e mais gravados na música caipira derivam das danças deles e foram utilizados pelo padre José de Anchieta no processo de catequese dos índios, o cururu (aquela dança de bater o pés) e o catira, ou cateretê”, contou Ivan, dedilhando em sua viola Menino da Porteira (Luizinho e Teddy Vieira) como exemplo de cururu.

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José Hamilton Ribeiro está completando 60 anos de carreira como um dos mais premiados e cultuados repórteres do da história da imprensa brasileira, marco invejável que motivou o jovem Arnon Gomes a escrever biografia do santa- rosense a ser lançada no próximo dia 3, entre 16 e 19 horas, na unidade Lorena da Livraria da Vila, em São Paulo. Já o livro de Zé Hamilton Música Caipira, as 270 maiores modas – Edição Revista e Ampliada, que ele assina com colaboração do médico e catireiro José Maria Campos (Bom Despacho/MG) e do violeiro Júnior Borges mostra quais são os 22 diferentes ritmos já catalogados da música caipira, as dez “eleitas” tanto da categoria que merece rasgados elogios, quanto da categoria que até cadeia daria aos autores de tamanho mau gosto e manifestações de preconceito expresso nas letras, geralmente carregadas de drama; os critérios para separar devidamente música caipira (que é um nicho cultural restrito a uma determinada circunscrição, em uma região geográfica ali encerrada) da sertaneja (que ocorre em todo o país, de Norte a Sul, embora também tenha raízes no meio rural: “música sertaneja é o armário, música caipira é uma gaveta deste armário. Assim, música caipira cabe dentro do gênero sertanejo, mas o sertanejo não cabe na música caipira, é muito maior”, ipsis litteris conforme se lê à página 44); e  lista das composições e seus verdadeiros autores.

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“Fiquei esperando minha vida toda que alguém escrevesse um livro que mostrasse o que a música caipira tem de bom e o lugar de destaque que ela ocupa na cultura brasileira”, disse José Hamilton ao explicar por que redigiu o volume de 442 páginas e dois DVDs, com Sergio Reis, Chitãozinho e Xororó, Zé Mulato e Cassiano, Irmãs Galvão, Zé do Rancho, Mococa e Paraíso, Inezita Barroso, Cacique e Pajé e Dino Franco, entre outros.

“Recorro ao Ivan Vilela para mostrar que o caipira talvez seja o homem do campo brasileiro que tenha a sua história mais bem revelada, mais bem estudada, e esta história é contada na música caipira”, prosseguiu o jornalista. “É uma crônica da vida deste ser humano ao longo do tempo, de suas paixões, do seu trabalho, de sua cultura, de sua diversão, de sua luta e seus conflitos. Pesco no universo caipira 270 modas de grande importância do ponto de vista melódico e que tenha uma letra digna de poesia; na década dos anos 1930 e 1940 está crônica da vida no Interior de São Paulo, em Minas Gerais no Centro-Oeste e um pouco do Sul foi contada pelos compositores caipiras, os maiores poetas de então. Eles só não eram reconhecidos como tais no meio acadêmico e na mídia”, observou José Hamilton, destacando: “A letra de Boi Soberano [Tião Carreiro e Pardinho]  é de alta qualidade literária, poderia estar assinada por um grande poeta brasileiro e internacional.”

Me alembro e tenho saudade do tempo que vai ficando
Do tempo de boiadeiro que eu vivia viajando
Eu nunca tinha tristeza, vivia sempre cantando
Mês e mês cortando estrada no meu cavalo ruano
Sempre lidando com gado, desde à idade de 15 anos
Não me esqueço de um transporte, seiscentos bois cuiabanos
No meio tinha um boi preto por nome de soberano

Na hora da despedida o fazendeiro foi falando
Cuidado com esse boi que nas guampas é leviano
Esse boi é criminoso, já me fez diversos danos
Tocamos pelas estradas naquilo sempre pensando
Na cidade de barretos, na hora que eu fui chegando
A boiada estourou, ai, só via gente gritando
Foi mesmo uma tirania, na frente ia o soberano

O comércio da cidade as portas foram fechando
Na rua tinha um menino decerto estava brincando
Quando ele viu que morria de susto foi desmaiando
Coitadinho debruçou na frente do soberano
O soberano parou, ai, em cima ficou bufando
Rebatendo com o chifre, os bois que vinham passando
Naquilo o pai da criança de longe vinha gritando

Se esse boi matar meu filho eu mato quem vai tocando
E quando viu seu filho vivo e o boi por ele velando
Caiu de joelho por terra e para Deus foi implorando
Salvai meu anjo da guarda desse momento tirano
Quando passou a boiada, o boi foi se retirando
Veio o pai dessa criança e comprou o soberano
Esse boi salvou meu filho, ninguém mata o soberano!

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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