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723 – Noel Guarany, um dos quatro “Troncos Missioneiros”, ganha memorial em Bossoroca (RS)

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O monumento a Noel Guarany tem 4 m de altura a partir da base e foi confeccionado por Vinicius Ribeiro (Foto acima e no destaque: Billy Valdez/Coletivo Catarse-RS)

O gaúcho Noel Guarany ganhou no sábado, 7, homenagem que (pretendem) supostamente atingirá a altura de sua contribuição não apenas à difusão da peculiar cultura do seu estado natal – sobretudo da região das Missões –, mas também de elementos nativos que ao se fundirem a valores correntes de outros pontos do país ajudam a formar a múltipla identidade nacional e a comprovar que não é apenas no eixo São Paulo-Rio de Janeiro-Minas Gerais, portanto na porção Sudeste de Pindorama, que o Brasil se afirma. Oito meses depois de as obras começarem com apoio de amigos, de familiares e a da entidade cultural Confraria do Icamaquã ficou pronto memorial constituído de monumento de sete metros a partir do chão que, à entrada do município de Bossoroca, guarda as características do músico de descendência italiana Noel Borges do Canto Fabrício, nascido em 26 de dezembro de 1941, época em que Bossoroca ainda era distrito de São Luiz Gonzaga. 

Noel Guarany era um guri ao aprender sozinho o idioma Guarani, bem como começar a compor, tocar e cantar. Corria os anos 1960 quando percorreu diversos países latino-americanos a colher ensinamentos utilizados como subsídio para criação de suas músicas durante toda a carreira. Sua importância como difusor da vida do gaúcho, da lida do homem campesino e da história Missioneira, daí em diante, só aumentou — a ponto de ele tornar-se um dos quatro Troncos Missioneiros, nome do quarteto que reúne expoentes daquele cenário do Rio Grande do Sul que conta com Jaime Caetano Braun, Cenair Maicá e Pedro Ortaça, este o único remanescente, com 73 anos, e ainda em atividade para não deixar cair no esquecimento ou ser afrontado o legado que construíram. 

Além de fomentar uma Música Regional Missioneira, a contribuição dos Troncos Missioneiros reside no pioneirismo da construção de uma identidade missioneira, com assento na música. As composições enfatizam entre os temas as características de um passado rural; a fronteira de integração latino-americana; as Reduções Guaraníticas e suas ruínas. A construção do perfil da Música Regional Missioneira reflete ainda influências anteriores importantes, mas só se consolida e torna-se ramificação indissolúvel da identidade nacional pela tarefa dos artistas citados. Depois deles, a bandeira ganhou a defesa de alguns conterrâneos novos, entre os quais parentes diretos, mas fora dos quadrantes gaúchos é pouco difundida e valorizada hoje. 

Com base no artigo de 2012 “Os Troncos Missioneiros e a construção da identidade missioneira a partir da música”, assinado por Iuri Daniel Barbosa na revista eletrônica Para Onde?, do programa de Pós Graduação em Geografia da UFRGS,  consideremos um contexto maior para, ainda mais, embasar a grandiosidade ao Brasil de Noel Guarany e seus parceiros. Sem que queiramos promover julgamento de valores, para o bem ou par o mal, mencionaremos as pesquisas apontadas por Barbosa que demonstraram um salto a partir dos anos 1990 da música regional gaúcha, entrando no gosto popular e do mercado por dois caminhos: o da Música Campeira e o da Tchê Music — movimentos que ganharam escala nacional a despeito de outros que já pulsavam como a Ramilonga/Estética do Frio, de Vitor Ramil, e de sucessos da dupla de irmãos de Vitor, Kleiton e Kledir.  

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Pedro Ortaça, um dos quatro “Troncos Missioneiros”

Estas vertentes, Campeira e Tchê Music, englobaram regravações da obra musical dos Troncos Missioneiros.  Com o objetivo de discutir esse tema, Iuri Barbosa utilizou como metodologia a pesquisa em arquivos sonoros no Museu do Som Regional do RS, localizado junto ao Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF) e também do acervo de discos que se encontram na internet. O trabalho do pesquisador vincula-se ao conceito de Geografia Cultural Renovada, a partir da inclusão de novos objetos de estudo, neste caso, a música, e pode ser acessado em .pdf com visita ao linque http://seer.ufrgs.br/paraonde/article/view/36494

“Noel Guarany abriu caminho para muita gente, foi pioneiro, pois antes dele havia apenas uma gravadora em São Paulo, outra em Buenos Aires” que acolhiam cantores e composições como as dele e dos demais Troncos Missioneiros, apontou Neidi Fabrício da Silva, esposa do bossoroquense. “O reconhecimento [por meio do monumento] não tem preço”, completou a ex-companheira. Ortaça, por sua vez, comentou que se trata de “justa homenagem ao grande cantor, meu irmão de vida e de arte, por uns esquecidos, por nosotros, imortal”.  

Giancarlo Borba, músico e arte educador de Terra de Areia, também se congratula com a “linda homenagem ao Véio Noel!”, mas tem fundas observações, por exemplo, à reportagem de uma emissora gaúcha sobre a entrega do monumento. “Em nenhum momento falaram das posições políticas e sociais, em nenhum momento houve referências ao fato de que o canto de Noel Guarany era dos peões e não dos patrões”. Combativo representante da estética “gaúcho a pé” (vertente que tematiza hábitos simples da vida, dos que vivem à margem da sociedade, do lado de fora das cercas do latifúndio), Giancarlo Borba pondera: o conterrâneo não foi só alguém que abriu caminhos à música regional, pois ainda “bateu de frente”, “resistiu ao bitolamento dos CTGs e MTGs”  e “cantou os índios (não como bonitinhos amigos dos Padres), mas como um povo humilhado e explorado, que se juntou e apoiou os movimentos sociais e sindicais”. Noel Guarany, emendou o autor de Milongador, “foi um Guitarreiro de Esquerda, político, crítico, com sede de liberdade aos oprimidos, cantava opinando, mas pelos mais humildes, não pelos de cima” 

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Giancarlo Borba: “Noel Guarany foi Guitarreiro de Esquerda, político, crítico, com sede de liberdade aos oprimidos, cantava opinando, mas pelos mais humildes, não pelos de cima”. Nesta foto de Melo Herrera Leon, o gaúcho de Terra de Areia se encontra em uma praça boliviana, durante recente turnê que por lá empreendeu, país que também esteve no roteiro de Noel Guarany)

Noel Guarany passou a sentir em 1982 os primeiros sintomas da doença que, aos poucos, afastou-o dos palcos — não sem antes redigir e entregar, em 1983, carta aberta à imprensa na qual reclamou do tratamento recebido pela gravadora. Em conjunto com Jorge Guedes e João Máximo, lançou em 1988  A Volta do Missioneiro, mas os dez anos seguintes aceleram a debilitação e a degeneração física enquanto permanecia recolhido a um sítio de Vila Santos, no município de Santa Maria. Partiu em dia 6 de outubro de 1998, paciente da Casa de Saúde de Santa Maria e descansa em Bossoroca — onde, agora, sob a estátua, amigos e admiradores poderão ler “é o cantor da Bossoroca que canta com galhardia!”   

A estátua de Noel Guarany foi confeccionada manualmente em concreto armado pelo escultor, Vinícius Ribeiro, que também foi construtor da réplica dedicada à Jayme Caetano Braun, em São Luiz Gonzaga. O monumento alcança 4 metros de altura e está assentado em base de pedra de arenito, esta de 3 metros. O projeto utilizou recursos exclusivamente particulares de doações de pessoas físicas e jurídicas, amantes da obra de Noel Guarany. O investimento somou R$ 106.777,00. A obra ocupa 321,31 m² à entrada da cidade, entre a rua Severiano Bonfim e a Avenida João Cândido Dutra.

 

 

 

de-pulperiasÁlbuns de Noel Guarany

 1971 – Legendas Missioneiras
1973 – Destino Missioneiro
1975 – Sem Fronteiras
1976 – Payador, Pampa, Guitarra (com Jaime Caetano Braun)
1977 – Canto da Fronteira
1978 – Canta Aureliano de Figueiredo Pinto
1979 – De Pulperias
1980 – Alma, Garra e Melodia
1982 – Para o Que Olha Sem Ver
1988 – A Volta do Missioneiro (com Jorge Guedes e João Máximo)
2003 – Destino Missioneiro – Show Inédito

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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