Barulho d'Água Música

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759 – Após 38 atrações, entre as quais o Conversa Ribeira, projeto Imagens do Brasil Profundo (SP) entra em recesso

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cribeira

O Conversa Ribeira, trio formado  desde 2002 por Andrea dos Guimarães (voz), Daniel Muller (piano e acordeom) e João Paulo Amaral (voz e viola caipira) foi atração de encerramento da segunda temporada do Projeto Imagens do Brasil Profundo e se apresentou na quarta-feira, 9, no palco do auditório Rubens Borba de Moraes da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Iniciativa do professor de Sociologia Jair Marcatti, o projeto Imagens do Brasil Profundo estará de volta em 13 abril, e as rodadas em 2016 ocorrerão sempre às quartas-feiras, às 20 horas, com entrada franca.

 O Conversa Ribeira selecionou 14 músicas presentes em seus dois álbuns, Conversa Ribeira e Águas Memórias, mescladas com composições que fazem parte da memória afetiva popular há várias gerações e que permitiram visitar autores como Milton Nascimento, José Fortuna e Pitangueira, Dorival Caymmi, Laurindo de Almeida, Lupicínio Rodrigues, Raul Torres e João Pacífico, e Angelino de Oliveira. Às obras escolhidas o Conversa Ribeira sobrepõe novas concepções de arranjo, de harmonia, de improvisação, das interpretações instrumentais e vocais. Assim, ao mergulhar na particularidade de cada canção que escolhe recriar ao longo da trajetória, o Conversa Ribeira traz à tona, sob um novo ponto de vista, toda a força e beleza de sua expressividade.

andrea guimaraes

O resultado é uma música que transborda fronteiras dos gêneros musicais, um conjunto que abrange desde melodias folclóricas e modas compostas ou gravadas por grandes artistas da música caipira de raiz, até novas composições de autores contemporâneos, conscientes de seus enraizamentos culturais e interessados em transformá-los em frutos.  Alinhavando o canto de Andrea dos Guimarães, a viola caipira e o canto de João Paulo Amaral, o piano e o acordeom de Daniel Muller, o trio segue o caminho que escolheu percorrer desde sua origem e já acumula shows por todo o país e também no exterior; representou o Brasil em festivais no México e em Portugal, por exemplo. Após lançar Conversa Ribeira, em 2007, foi selecionado no Projeto Pixinguinha (Funarte) e no programa Rumos Itaú Cultural (2008). Recebeu, em 2011, o prêmio Inovação do Festival Voa Viola. Em 2012,  dividiu o palco com a Orquestra Municipal de Jundiaí – os próprios integrantes do trio escreveram arranjos para incorporar a orquestra de cordas à sua concepção peculiar da música caipira. Ao longo de sua trajetória, apresentou-se ao lado de artistas consagrados como Guinga, Monica Salmaso e Paulo Freire.

Há um tom solene no modo do Conversa Ribeiro cantar, uma forma de os artistas demonstrarem reverência aos mestres nos quais se inspiram, mas que sem dúvidas é também a maneira de reafirmar, no palco e no estradar, a escolha por um estilo baseado nas próprias vivências de Andrea, Daniel e João Paulo. Os três revisitam suas lembranças e emoções em busca de valores universais e atemporais, imprimindo a cada interpretação uma linguagem transmitida com tamanha sensibilidade que em todos prontamente desperta sentimentos que vão de saudades à descoberta de que pertencemos a um povo e a um lugar.  Reaviva-se o sabor imperecível de infância e do crescer à beira de límpidos regatos misturados ao piar de quero-queros e voos de bem-te-vis, seja ao aconchego do sertão ou à brisa do mar, propiciando ao público (voltar a) sentir na pele o arrepio provocado por uma bem contada história de lobisomem; vai-se de carro de boi, volta-se de jangada e no meio da viagem, como há lamento e também há fé, além de causos, pode- se rir ou chorar.

Daniel mullerr

jpamaral

“A gente estava saindo da faculdade e ainda não havia decidido o que fazer musicalmente; pensávamos em samba, em nomes como Aldir Blanc, mas quando falamos em música caipira… bateu o sino!”, contou à plateia Daniel Muller. “Todos temos trajetórias muito parecidas, somos os três de cidades do Interior [Daniel, de Jundiaí; João Paulo, de Mogi das Cruzes, ambas paulistas; Andrea floresceu em Tupaciguara, situada em Minas Gerais] possuímos experiências familiares ligadas a essa música, muito profundas e afetivas, importantes para nossa formação musical e humanista”, completou o músico. “Então surgiu esta vontade de ir ao encontro destas fontes mais profundas e beber delas toda a sua riqueza.”  

 João Paulo Amaral rege a Orquestra Filarmônica de Violas de Campinas e é ex integrante do Trio Carapiá

Daniel Muller é bacharel e mestre em Música pela Unicamp, arranjador e instrumentista do Quatro a Zero, grupo que propõe uma releitura do choro e de sua tradição, utilizando instrumentos como guitarra, contrabaixo elétrico, piano e bateria

Andrea dos Guimarães é arranjadora e compositora, bacharel em Música Popular e Mestre em Música pela Unicamp, integrante do Garimpo Quarteto, grupo com conceito fundamentado na música instrumental que apresenta a voz como instrumento por meio da utilização de vocalizações sem palavras. Em fevereiro lançou Desvelo, seu primeiro trabalho autoral.

Darcy, Mário e Ariano

O Projeto Imagens do Brasil Profundo tem como referências básicas as obras, os ensinamentos, e as visões de mundo de Darcy Ribeiro, de Mário de Andrade e de Ariano Suassuna, de quem Jair Marcatti conta ter tomado de empréstimo a expressão Imagens do Brasil Profundo.

“O Ariano sempre dizia que é preciso mergulhar no Brasil Profundo, ir além das aparências brasileiras, temos de entender o Brasil de dentro”, disse Jair Marcatti. “E pela conjuntura que a gente vem atravessando mais do que nunca esse projeto se tornou necessário ao longo do caminho”.

Em 2015 passaram pelo palco Rubens Borba de Moraes como convidados do curador 38 pessoas. Conforme o próprio Jair Marcatti, todos buscaram revelar um painel não só da diversidade brasileira, “mais de um Brasil rico, intenso, absolutamente interessante; um Brasil que consegue se colocar de frente a uma espécie de espelho simbólico onde encontra, claro, suas mazelas, suas contradições, mas também seus momentos de luminosidade e de profunda afirmação”.

jmarcatti

Para Jair o que se revelou, então, é a síntese “de um Brasil para além das dicotomias ligeiras e fáceis, um Brasil de bem com a vida” posto em debate por meio de músicas, de filmes, de manifestações populares e de objetos que consubstanciam as recomendações de Ariano Suassuna, que mesmo que escondam ou se encerrem em rincões considerados profundos, são vivas e inesgotáveis, posto que ainda possuem o condão de se renovarem, sem ferir tradições, e ainda de resistir às regras reducionistas do mercado de entretenimento  e das produções culturais de massa.  

Para a primeira temporada, em 2014, foram convidados violeiros que falaram sobre as ligações de sua música com a cultura caipira. Em 2015, com a ampliação do programa, passaram a ser abordados outros aspectos das diversas culturas regionais do Brasil, agora desvendados em diferentes formatos: shows, bate-papos musicais, debates e palestras.

A meta para 2016 é amplia-lo ainda mais, mantendo-se no entanto os principais pilares de enfoque e o perfil, já que ao invés de promover abordagens tradicionais, Marcatti prefere que o protagonismo caiba aos músicos, documentaristas, diretores de cinema, ativistas culturais e pesquisadores da cultura popular que em comum nutrem um modo de olhar aprofundado e amplo sobre o Brasil e promovem trabalhos de pesquisa e resgate das nossas mais entranhadas tradições. Com cada um dos participantes, Marcatti aborda aspectos do universo cultural brasileiro, de nossas trajetórias, continuidades e rupturas; daquilo que sem nenhuma pretensão definidora poderíamos chamar de identidades brasileiras, no plural, com a vantagem dos exemplos serem pontuados no calor da prosa, ao vivo, pelo som dos instrumentos, muitos artesanais, e pela apresentação de outras formas de expressão cultural.

Que seja breve, então, o intervalo e chegue logo abril!

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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