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806 – Tributo à Dominguinhos, na viola caipira de Rodrigo Zanc (SP), estreia em São Carlos neste mês

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O violeiro Rodrigo Zanc (São Carlos/SP) estreará em 26 de fevereiro, com uma apresentação marcada para começar às 20 horas, no Sesc daquela cidade, um novo projeto por meio do qual promete aos admiradores e amigos interpretar com a mesma emoção e sensibilidade que o caracterizam clássicos do repertório de um dos maiores sanfoneiros do Brasil. Em Violas para Dominguinhos, Rodrigo Zanc promoverá a releitura de sucessos que considera “perenes da MPB” legados à cultura popular pelo conterrâneo de Luiz Gonzaga (PE) tais quais Eu só quero um xodó, De volta pro aconchego, Gostoso demais, Isso aqui tá bom demais e Lamento sertanejo. Para tornar o show ainda mais memorável, o autor do tributo contará com acompanhamento de músicos tarimbados e já acostumados com seu modo de cantar: Ricieri Nascimento (baixo e vocal); Bruno Bernini (bateria); Thiago Carreri (violão, guitarra e vocal); Gustavo Camilo (teclado e vocal); e Thadeu Romano (acordeon). 

Rodrigo Zanc cativa cada vez mais seguidores por sempre levar ao palco o que chama de sua “verdade interior”. Apesar das influências da música caipira de raiz em sua obra autoral, sua carreira está baseada na pesquisa de novos caminhos e possibilidades com a viola caipira, perfil que deixa evidente o desapego do artista aos modismos e às tendências constantemente impostos pelo mercado. O trato com as canções, as harmonias, os arranjos, a colocação da voz nos remetem a um campo novo, belíssimo. Já Dominguinhos nunca abandonou o baião de seu padrinho, mas também não deixou de brincar em outras praias da música brasileira. A mesma verdade inerente a Rodrigo Zanc, portanto, também está nitidamente refletida na obra de Dominguinhos, e fez despertar no violeiro o desejo de prestar esse tributo: o trabalho de ambos é mais uma prova de que os sotaques ou origens quando se trata de fazer música pouco importam. 

Dominguinhos e Zanc

Foto maior de Dominguinhos, no destaque: Amannda Oliveira

José Domingos de Moraes, o Dominguinhos, nasceu em Garanhuns (PE) no ano de 1941 e já aos seis anos de idade estava na ativa, tocando em feiras livres e às portas de hotéis entre outros locais de concentração popular. Nesta época formava o Trio Pinguins com dois dos seus quinze irmãos, Moraes e Waldomiro. O guri tocava pandeiro e triângulo nesta formação que até poderia ser considerada exótica para quem vivia no agreste.  Em 1950, quando conheceu o Rei do Baião, ídolo que estava justamente hospedado em um hotel de Garanhuns e, para o qual, a convite deste, os rapazes foram chamados a tocar. O Velho Lua, então, deu uma sanfona a Dominguinhos. A princípio como Nenén do Acordeon, começava a trajetória aliada ao instrumento do qual, então, nunca se apartaria e por meio do qual, inovou no sotaque, introduzindo um estilo diferenciado. 

Em 1956, ele e Gonzagão gravaram juntos pela primeira vez, e, um ano depois, adotou, então, o nome artístico com o qual se consagrou — outra indicação do patrono mais famoso que, com certeza, já previa que o pupilo chegaria ao estrelato. Em 1964, Domingos lançou o primeiro LP, na Cantagalo, de Pedro Sertanejo, um pioneiro do forró em São Paulo. Exímio sanfoneiro, como mestres teve, além de Luiz Gonzaga, Orlando Silveira, e temperou sua versátil formação musical (registrada em mais de 40 discos autorais ou como participante) com influências de baião, bossa nova, choro, forró, xote, e jazz. Esta variedade despertou admiração em parceiros e amigos como Chico Buarque, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Nando Cordel, Anastácia, Fagner, Fausto Nilo e Abel Silva, entre outros ícones da nossa música. O fim deixou o país nos braços da saudade: após um longo coma decorrente de problemas relacionados a um câncer pulmonar, associado a arritmia cardíaca e infecção respiratória, subiu no dorso de uma Asa Branca e partiu para reencontrar os mestres, em São Paulo, no dia 23 de julho de 2013. 

Rodrigo Zanc nasceu em Araraquara, mas fixou residência na vizinha São Carlos. Pesquisa a viola brasileira e suas influências há mais de 20 anos, e, desde então, vem lutando pela manutenção e propagação da cultura ligada ao instrumento. Com um “tocar” autêntico, sua viola passeia por melodias e harmonias rebuscadas e por vezes imprevisíveis, porém, sem perder a singeleza que toca ao coração. Participou de inúmeros festivais para tornar sua música conhecida — dentre eles, cinco edições consecutivas do “Viola de Todos os Cantos” (EPTV/GLOBO), conquistando importantes premiações.

 Pendenga (2006) abre a discografia e o levou à Europa, em 2010. Este trabalho, por aqui, chamou a atenção e proporcionou a Rodrigo Zanc a oportunidade de dividir o palco com importantes representantes da nossa música, como Pena Branca e Zé Mulato e Cassiano. Em 2013, lançou Fruto da Lida, álbum selecionado para o 26º Prêmio da Música Brasileira no ano seguinte. Mesclando o repertorio dos dois álbuns a interpretações marcantes de clássicos regionais, em seus shows vêm conquistando o público das unidades do SESC e SESI no Estado de São Paulo, além de festivais, mostras culturais e projetos incentivados, através do ProAC. Em 2014, este talento emocionou Rolando Boldrin, que se confessara cativado pelo violeiro e o chamara para participar do Sr. Brasil, inclusive pedindo emprestada a viola do convidado para tocar parte de uma canção.

 “Rodrigo Zanc, mais que um intérprete de canções, é a expressão espontânea dos sentimentos”, opina Isaías Andrade, compositor e escritor de Americana. Isaías conhece bem o artista, pois, com o araraquarense, já compôs mais de 40 canções. “Quando canta uma canção que fala de saudade nos vêm à tona todas as saudades que temos acumuladas no peito”, observa o parceiro. “Quando canta a natureza nos arremessa para campos virgens, regatos puros e límpidos como o cristal, já quando canta com alegria enche nossos lábios de sorrisos que há muito estavam encolhidos. Ele nos liberta das amarras emocionais e nos faz desejar sermos felizes”, completa Andrade, antes de arrematar: “Rodrigo Zanc, homem do mato, da cidade, homem das cavernas desconhecidas do nosso coração.”

O Sesc de São Carlos fica na avenida Comendador Alfredo Maffei, 700, e disponibiliza para mais informações o telefone 16 3373-2333.

 

paulo netho arte

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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