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809 – Correios promovem em Brasília exposição que retrata 50 anos de carreira do artista plástico Elifas Andreato

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O Museu Correios, situado em Brasília (DF), abriga desde 4 de fevereiro Elifas Andreato, 50 Anos, exposição que possibilita ao público contato com parte significativa da obra do artista plástico autodidata que é referência das mais importantes de resistência cultural e política do país. O nome de Elifas Andreato ganhou força e respeito no auge da ditadura militar, época na qual o paranaense já radicado em São Paulo encampou e reforçou lutas em várias frentes, não apenas para a restituição do regime democrático, mas também pela afirmação da identidade cultural brasileira. Os Correios patrocinam a mostra que poderá ser vista até 3 de abril no Planalto Central e depois será trazida ao público paulistano e das cidades da região metropolitana de São Paulo, que poderá contemplá-la no Centro Cultural Correios.

Interrompa um pouco a leitura deste texto, consulte sua coleção de discos, bolachões ou digitais. Se você curte música popular de qualidade e sem amarras com o caolho mercado de entretenimento, certamente possui ao menos um exemplar cujo projeto gráfico é assinado por Elifas Andreato, com traços típicos que recriam a imagem com interpretações visuais bastante particulares do cantor e valorizam capas, contracapas e encartes. Este segmento do ofício dele é um dos destaques da exposição que entre outros nomes de expressão da MPB celebrizou álbuns de Paulinho da Viola, de Elis Regina, de Martinho da Vila, de Tom Zé, de Chico Buarque, de Adoniran Barbosa e de Vinícius de Moraes, entre outros.

A assessoria de imprensa dos Correios informa que o acervo dos 50 anos, sensorial e lúdico, vem assinalado por uma linha do tempo que revisita desde os primeiros trabalhos de Elifas Andreato, quando ele ainda era jovem e operário, chegando às mais recentes produções, todas revestidas de sensibilidade e de aguçada percepção crítica do momento que o país atravessava. Neste passeio, rememoram-se fatos e acontecimentos que entraram para a história da música, do teatro e da política no Brasil, alguns devidamente identificados pela pena de Elifas Andreato.

A tecnologia a serviço da exposição favorece o visitante: por meio de estações multimídia é possível selecionar e assistir a depoimentos de Elifas Andreato sobre alguns dos principais projetos culturais que legou ao campo da música (incluindo, além das capas de discos, coleções de fascículos). E este mergulho pode ser completado pela audição, naquelas mesmas estações, de discos nos quais ele deixou sua marca. O aplicativo que reproduz os sons remete às antigas vitrolas, com direito a chiados e à forma de operação daquele tipo de aparelho.

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Clementina de Jesus, Paulinho da Viola e Chico Buarque, três ícones da MPB que Elifas Andreato representou em capas de discos e cartazes, entre outros suportes

A atenção de Elifas Andreato dedicada ao universo infantil também ganhou espaço. A principal atração, neste caso, é a reprodução, em grande escala, da arca e dos animais que compõem a capa do álbum Arca de Noé, de Vinícius de Moraes. Crianças e adultos podem adentrar à capa, consumado uma proposta expográfica que desdobra os planos da obra, quase como em um livro. Esta mesma experiência se repete em discos como Canto das Lavadeiras, de Martinho da Vila, e nos cartazes para Elis Regina e para as peças Rezas de Sol e Missa do Vaqueiro.

Outro destaque é a releitura da histórica capa do disco Ópera do Malandro, de Chico Buarque – uma das mais caras produções de arte para a indústria fonográfica. O malandro trajado de branco que repousa num vagão de trem de subúrbio surge na exposição representado em uma escultura com tamanho humano. Assim, os visitantes têm a oportunidade de participar da cena, sentando-se ao lado do personagem no banco do vagão, como se tivessem entrado na capa do disco de Chico Buarque.

Há, ainda, contribuições de Elifas Andreato para o teatro e o jornalismo de combate que evidenciam sua veia política, sobretudo quando desafiava os generais de plantão como expoente da chamada “imprensa nanica”, ou “alternativa, meio no qual militou, fundou e dirigiu os jornais Opinião e Movimento e a revista Argumento. Algumas obras denunciam crimes cometidos pelo brutal regime — entre as quais 25 de Outubro (1981), tela que desnuda o assassinado do jornalista Vladimir Herzog, ocorrido nas instalações de um aparelho repressivo, o Doi-Codi, em São Paulo; e o painel A Verdade Ainda que Tardia (2012), encomendado pela Comissão da Verdade da Câmara, presidida pela deputada federal Luiza Erundina.

Os Correios expõem também um raro exemplar do Livro Negro da Ditadura Militar, com capa assinada por Elifas Andreato, além de outras reproduções e objetos valiosos que ajudam a recontar a história do artista plástico e seu engajamento em prol da cultura popular e da história do país pela ótica das minorias e dos artistas que também empunham esta bandeira.

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25 de Outubro, pintura de 1981, que denuncia o assassinato do jornalista Vladimir Herzog pelo regime militar

 

Elifas Andreato nasceu em Rolândia (PR) em 1946, mas já em 1965 estava em São Paulo. Neste ano, abandonou o trabalho de aprendiz de torneiro mecânico para dar os primeiros passos em sua trajetória artística profissional. Ainda na década dos anos 1960, participou da equipe de criação de revistas, fascículos e coleções publicados pela editora Abril, que à época ainda não guinara à direita do espectro político, como atualmente. Para combater a censura e outras mazelas reinantes nos anos de chumbo, fundou órgãos da imprensa alternativa como Opinião, Argumento e Movimento e também iniciou trabalhos como programador visual e cenógrafo para peças teatrais memoráveis. É deste período conturbado e de enfrentamentos as capas de discos mais célebres, gravados por importantes expoentes da MPB. Elifas Andreato fez as contas e concluiu: ao longo da carreira, produziu em torno de 400, algumas antológicas.

A partir da década dos anos 1990, passou a dedicar-se à área editorial, tornando-se responsável por históricas coleções tais quais MPB Compositores e História do Samba, lançadas pela Editora Globo, e pelo Almanaque Brasil, publicação mensal distribuída a bordo de uma companhia aérea nacional.

Em 2011, pelo conjunto da obra,  Elifas Andreato recebeu o Prêmio Especial Vladimir Herzog, concedido a pessoas que se destacam na defesa de valores éticos e democráticos e na luta pelos direitos humanos. O reconhecimento, assim como a comenda da Ordem do Mérito Cultural, juntou-se a diversos prêmios recebidos pela contribuição ao país, seja no campo artístico, político ou social.

 

Exposição Elifas Andreato, 50 Anos
Visitação com entrada franca de 5 de fevereiro a 3 de abril 
Entre terça e sexta-feira, das 10 às 19 horas 
Sábados, domingos e feriados, das 12 às 18 horas

Museu Correios
Setor Comercial Sul, Quadra 4, Bloco A, 256, Brasília (DF), telefone (61) 3213-5076

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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