Barulho d'Água Música

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822 – Rodrigo Zanc (SP) estreia “Violas para Dominguinhos”, promove dois bis e ouve público pedir ainda por pelo menos mais um

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O Barulho d’água Música mais uma vez pegou a estrada e baixou em São Carlos, no interior paulista, para acompanhar a estreia de Viola Para Dominguinhos, projeto por meio do qual o violeiro Rodrigo Zanc presta tributo a um dos maiores artistas de todos os tempos do Brasil. A apresentação rolou na sexta-feira, 26 de fevereiro, acompanhada por Ricieri Nascimento (baixo), Bruno Bernini (bateria e zabumba), Gustavo Camilo (teclados), Thiago Carreri (violão e guitarras) e Thadeu Romano (acordeon) e estava cercada de expectativas. Uma chuva forte caiu hora antes do show, mas ouvir Rodrigo Zanc cantar e tocar com este time de músicos, ainda mais interpretando Dominguinhos, quem os conhece não perde nem sob dilúvio. E o Galpão do Sesc São Carlos ficou pequeno, em alguns momentos ganhou ares de CTN (Centro de Tradições Nordestinas) e o público que ocupou todos os espaços, inclusive os jardins, pode ouvir (e dançar) um belíssimo repertório para o qual solicitou não apenas mais um bis, mas insistiu no pedido mesmo com os funcionários da entidade já desplugando os instrumentos.

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Rodrigo Zanc e seus “meninos” mereceram cada aplauso, grito de entusiasmo e de aprovação, cumprimentos, abraços, beijos  e selfies após o espetáculo. Nos últimos meses o violeiro não apenas ouviu e pesquisou o que pode sobre Dominguinhos para poder interpretar à altura do homenageado “um repertório sofisticado, mas singelo” de uma personagem de nossa música que foi um músico “dos mais generosos e que com toda a capacidade e talento que possuía sabia que a arte estava acima dele e se colocou a serviço dela”. Antes de subir ao palco, onde se confessou no começo “nervoso”, Rodrigo Zanc escovara os dentes todos os dias pensando em Dominguinhos, adoçara cafés memorizando trechos das canções que escolhera, trocara marchas do seu “Besouro Verde”, intimamente, tentando encontrar o melhor “tempo” para destacar ou alcançar uma ou outra nota em sua releitura da obra do pernambucano, dormira com Dominguinhos rezando para estar iluminado e sem dor de garganta nos dois momentos de, talvez, maiores ápices de emoção nos quais entoaria Contrato de Separação ou Lamento Sertanejo, por exemplo; afinara em seu sofá enquanto o almoço esfriava as cordas da viola para que ela (a viola) não perdesse, nem ganhasse, da sanfona de Thadeu Romano, mas ambas, em uníssono e harmônicas, soassem, também afinadas com os demais instrumentos, com a maior fidelidade possível a verdade, a alegria, a irreverência, a dor ou qualquer que fosse a motivação que Dominguinhos tivesse buscado imprimir nas letras de seus xotes, baiões, xaxados e demais composições que assinou e legou ao cancioneiro nacional.

Dominguinhos teve uma legião dos melhores parceiros — Fagner, Gilberto Gil, Velho Lua, Anastácia, Climério, Chico Buarque — e agora conhece um intérprete que não é apenas mais um: é um que sabe em cada minúcia das letras revelar o quanto é duro ficar sem alguém como Dominguinhos neste país de cartas marcadas na política, no futebol, no entretenimento, em tudo o que é bastidor e atividade, das mais corriqueiras às mais decisivas para a vida em sociedade e a formação de uma nação minimamente decente. Rodrigo Zanc conseguiu enquanto reafirmava a própria rememorar a magnitude das contribuições e da trajetória de Dominguinhos. Valeu a dedicação e o esmero, pois levou-nos de volta para um gostoso aconchego, colocou-nos em plenos braços da paz, abraçados a uma morena, segurando um bebê ou arrastando os pés sozinhos, mesmo. Mais do que as pedras, Rodrigo Zanc fez nossa esperança cantar. “As pessoas como Dominguinhos passam, mas deixam um legado imprescritível. Cabe a nós, artistas que ficamos, passar esta mensagem adiante, com humildade e muito respeito.” 

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Ao ter a oportunidade de mais uma vez ver e ouvir Rodrigo Zanc, fiquei me perguntando: gente, onde estão os produtores culturais e empresários deste país, que, mais do que uma provável mina de dinheiro, não enxergam neste caboclo de Araraquara e seus músicos artistas completos em seus ofícios, posto que mais do que sucesso e fama (que se não almejam, merecem!) estão comprometidos com o valor da cultura popular e as tradições do nosso Brasil mais profundo? Ah, blogueiro, mas é ai que reside a questão, é onde a porca perde a rosca e não mais torce, a peça fica sem aperto. Rodrigo Zanc não faz concessões ao mercado, preocupa-se apenas em agradar seu cada vez mais crescente e fidelizado público, apenas quer mostrar sua verdade e referências, sem rótulos, máscaras, gritinhos e cabelinhos bem cortados; não faz o gênero e nem combina com os modelitos de camiseta fashion colada, com calça de couro agarradinha, não prende as que veste com cintos de fivelões. O chapéu não é de caubói, não calça botas; quando muito, vai de botina, e sem sempre combinando com a bata — pois é caipira absoluto e disso se orgulha, embora transite com muita facilidade por outros gêneros da música brasileira autêntica, conforme comprova sua discografia.

Como poderá alguém que escolhe caminhar com as próprias pernas, voz e violas, sem apelar para apelidos e aumentativos que não conjugariam com o caráter que preserva e compromissos triunfar? Olhem, amigos e seguidores: eu daria tudo para estar onde estiver Dominguinhos e ouvi-lo, satisfeito, perguntando ao Velho Lua: “Ô seu Luiz Gonzaga: quem é este moço cantando em Sanca que o Brasil ainda não conhece? Arretado de bom ele, né? Ah, se eu tivesse lá!”

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Thiago Carreri, Gustavo Camilo, Bruno Bernini, Rodrigo Zanc, Ricieri Nascimento e Thadeu Romano antes de subirem ao palco onde tocaram e interpretaram grandes sucessos de Dominguinhos, e, abaixo, recebendo os aplausos da plateia (Foto: Marcelino Lima/Arquivo Barulho d’água Música e Nalu Fernandes)

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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