Barulho d'Água Música

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857 – Galeria do Sr. Brasil entroniza Dércio Marques (MG) ao lado de músicos notáveis como Noel Rosa e Tom Jobim

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Estandarte com a imagem de Dércio Marques foi entronizado ao lado de outros de expoentes da música brasileira de qualidade que decoram as paredes laterais à plateia e ao palco do teatro do Sesc Pompeia, situado em São Paulo, no qual transcorrem as gravações do programa Sr. Brasil, capitaneado por Rolando Boldrin. O querido apresentador sempre gosta de contar ao público antes de começar a receber os convidados a razão pela qual — em trabalho conjunto com sua produção, que tem à frente a esposa, Patrícia Maia, e ainda o sobrinho, Lenir Boldrin — decora o ambiente com as bandeirolas remissivas às congêneres de festas santificadas e relembra fatos e dados sobre a biografia dos homenageado. Boldrin comenta que alguns daqueles artistas que formam o altar póstumo “partiram antes do combinado”, salienta que todos deixaram lacunas e que todos, independentemente do estilo ou vertente musical que representavam, contribuíram de forma irrefutável à cultura popular e à preservação de tradições brasileiras. E antes de dar o “ok” para que entre a primeira atração da noite, pede humildemente aos ídolos que abençoe os trabalhos e todos os envolvidos.

O Barulho d’água Música está há quase dois anos na ativa e testemunha: Dércio Marques é mencionado em praticamente quase todos os shows que acompanha. É rara a ocasião  na qual quem canta não recorda uma passagem desfrutada ao lado dele ou deixa de fazer uma mesura em respeito ao menestrel. Dércio Marques desencarnou em 2012 e apesar de todo o carisma que ainda segue intacto em seu jardim, a morte, em Salvador (BA), passou quase em branco no noticiário geral, repercutindo aqui e acolá apenas em alguns blogues ou em mídias sociais. Seguramente, entretanto, ele ocupa ao lado de Heitor Villa Lobos, de Tom Jobim, e de Noel Rosa, por exemplo, a academia dos mais notáveis compositores brasileiros de todos os tempos. E marcou época não apenas cantando e compondo, mas ainda por posturas engajadas em defesa do meio-ambiente, de causas políticas e sociais, aliadas a grande saber e práticas espirituais.

Katya Teixeira, uma de suas mais diletas seguidoras e amigas, passou a homenageá-lo por meio do premiado circuito Dandô de Música, impedindo que a memória dele se esboroe. Ela, ao lado de vários outros expoentes da música regional vem caminhando como firme difusora dos seus ensinamentos pelo país afora. Déa Trancoso, Titane, Wilson Dias e Pereira da Viola integram o Quarteto Crescente, formado em Belo Horizonte (MG) e que protagoniza os espetáculos Segredos Vegetais, nos quais oferecem uma releitura de uma das mais profundas obras de Dércio Marques. Boas árvores, portanto, sempre deixam suas raízes, e sabia natureza, elas se reproduzem e abrigam sabiás que ajudam a espalhar a semente de um mundo mais encantador.

As canções de Dércio Marques se notabilizam pela defesa da natureza e de valores dos povos mais simples, presentes em congadas e folias de reis, por exemplo. Poucos dias depois da morte em um hospital de Salvador, decorrente de complicações após uma cirurgia de retirada de três órgãos vitais, é que soubemos do ocorrido. E, acreditem, foi por acaso, já que procurávamos informações sobre outro assunto.  A perda de um ícone como Dércio Marques foi tratada como uma pauta menor, corriqueira, sem atenção alguma fora das páginas, dos blogs especializados e dos programas que cultivam o cancioneiro de raiz e ibero-americano, duas das vertentes ao qual ele mais se dedicava na hora de escrever suas obras.

A trajetória marcante e luminosa de Dércio Marques, por sinal, começou a ser traçada em plenos ditos “Anos de Chumbo”, na década dos anos 1970, o que já faz dele alguém cuja biografia merece atenção, assim como se cultua Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Taiguara. Filho de uruguaio, despontou no circuito universitário e independente de shows cantando para os companheiros e para o público canções de Violeta Parra e Atahualpa Yupanqui, entre outros nomes da música do continente. Era um período turbulento demais para letras com cunho libertário e avesso ao poder estabelecido por meio de baionetas e torturas, a ideologização ianque imperava na música popular, mas Dércio Marques assim como Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo escolheu marchar pela contramão, sustentando com coragem bandeiras proibidas entre as quais reivindicações políticas e ligadas à ecologia e à valorização da diversidade da cultura nacional, sem jamais fazer concessões.

Estandarte DM

E assim seguiu até expirar, sempre com a irmã Dorothy Marques ao seu lado, parceiros como a mencionada Katya Teixeira e João Bá, João do Vale, Paulinho Pedra Azul, Xangai, Hilton Accioly, Carlos Pita, Milton Edilberto, Luiz Perequê, Diana Pequeno, Elomar, presentes em shows ou assinando com ele letras de conteúdo crítico e identidade. Dércio participou de vários projetos ligados às manifestações do nosso folclore como congado e folia de reis, além de promover entre outros benefícios e bons serviços à sociedade oficinas para crianças e jovens em várias regiões do Brasil.  Hoje André Siqueira, Amauri Falabella, João Arruda, Consuelo de Paula, Carol Ladeira, Levi Ramiro, João Bá, Daniela Lasalvia, Fernando Guimarães, entre outros, são baluartes desta postura em que a arte está acima da fama, como os ensinou Dércio Marques.

Os álbuns da carreira, como Fulejo, Terra, Vento, Caminho, Monjolear, Segredos Vegetais, Cantigas de Abraçar I e II não têm ao menos uma faixa em que  o poeta possa ser acusado de fazer média para afagar meios de comunicação e empresários, nada desvia de seus valores e da sensibilidade de seu modo de olhar desde os pequenos seres até a grandeza de uma floresta; sim, ah, tomara que seja verdade, que exista mesmo disco voador e que traga até nós um povo inteligente, que valorize a paz e o amor; quiçá tenha lições e soluções a curto prazo para um sistema global de produção e de vida coletiva que já começam a dar sinais de colapso evidenciados por eventos extremos e de proporções calamitosas.

Vai ver deriva desta atitude de quem não se dobrou o motivo de sua partida ter sido relegada, ofuscada; vai ver tratou-se de uma espécie de troco de emissoras, gravadoras e produtores que não conseguiram tirar dele compromissos com seus lucros, não conseguiram banalizar seu profícuo trabalho e esvaziar suas mensagens de amor à natureza, aos bichos, aos homens, à vida. Mas quem nasceu para ser estrela jamais perde o encanto, o viço, a capacidade de orientar, de despertar admiração, de alimentar a poesia, os sonhos. Tal qual os próprios astros que se espalham pelo firmamento, haverá de brilhar ainda por muito tempo. Mesmo que seu corpo já tenha se desintegrado e seja apenas a sua luz que viaje pelo espaço até nossos olhos e corações, ora e viva! 

A benção, São Dércio Marques!

H1n1-2

 

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

2 pensamentos sobre “857 – Galeria do Sr. Brasil entroniza Dércio Marques (MG) ao lado de músicos notáveis como Noel Rosa e Tom Jobim

  1. Estou enternecida por este comovente depoimento sobre Dercio Marques, não sei que é o autor deste texto, mas sei que é nosso “parente”. Assim dizem os índios quando sentem identificação por alguém. Estou concluindo uma tese na área da Geografia da Música, sobre a trajetória de vida e obra de Doroty e Dercio Marques, agora nos arremates da pesquisa encontrei estes escritos que bem descreve o menestrel. Gratidão! Lucimar Albuquerque

    • Boa tarde, Lucimar Albuquerque. Sou o autor do texto, meu nome é Marcelino Lima, um dos produtores deste blogue. Agradeço por suas palavras e me sinto muito honrado pela condição de “parente” que você me atribuiu. De certa forma é verdade: todos estamos ligados por algum tipo de afinidade, mas acredito que os laços culturais são os que mais identificam a alma e a face de um povo; há um conceito no universo kardecista de “nuvem”, que seria uma espécie de força atrativa que reúne sobre o mesmo “teto”, ou ambiente, aqueles que são afins. Não tive a honra de conhecer Dércio Marques, em sua condição carnal, mas a obra dele e os valores espirituais venho tendo a satisfação de conhecer a cada dia convivendo com estes artistas que disseminam a obra do Dércio Marques e preservam a memória dele. A missão deste blogue é justamente esta: ser um canal de divulgação e de preservação destas memórias e destas manifestações das tradições brasileiras que tiveram em Dércio Marques uma de suas mais combativas e criativas forças. Sucesso em sua tese, que, digo de antemão, em muito me interessa conhecer!

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