Barulho d'Água Música

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895 – Estreia em Porto Alegre (RS) “Violas ao Sul”, projeto para difusão da música gaúcha e clássicos do cancioneiro nacional

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A Fundação Ecarta reservou o palco onde está acostumada a receber em Porto Alegre (RS) grandes talentos da resistência cultural gaúcha para o primeiro concerto, transcorrido na noite do sábado, 25, do grupo Violas ao Sul, reunião de quatro violeiros, quatro vertentes, quatro mentes e quatro corações que se dedicam à guerrilha artística por meio da música. Valdir Verona, Mário Tressoldi, Angelo Primon e Oly Júnior têm a viola de 10 cordas permeando seus trabalhos ao longo dos anos e agora, juntos, irão se dedicar à apresentação de canções autorais, clássicos do cancioneiro gaúcho e brasileiro, bem como da música contemporânea. No programa de estreia constaram Milonga Blues e Desculpe Meu Filho (Oly Júnior), Das Bandas do Poente e Chamamé Blues (Valdir Verona), 10 de Fole (Angelo Primon), Violas do Sul do Brasil (Chico Saga/Mário Tressoldi), Na Volta que o Mundo Dá (Vicente Barreto/Paulo Cesar Pinheiro), Lamento (Fernando Reis Júnior), Maré Baixa (Ivo Ladislau/Mauro Moraes), Portas dos Sonhos (Mário Barbará/Sérgio Napp), Cantiga de Eira (Barbosa Lessa) e Os Homens de Preto (Paulo Ruschel).

O projeto consiste em espetáculos de aproximadamente 1h40 cujo objetivo é difundir a versatilidade da viola de 10 cordas como instrumento musical e de manifestação cultural empregada para tocar desde canções folclóricas a músicas contemporâneas de qualquer região do país e do mundo, com foco especial àquelas que trazem marcas de pertencimento à cultura gaúcha. Popular em São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, a viola também ocorre no Nordeste, mas tem pouco aproveitamento nos estados sulistas. O Rio Grande do Sul, por exemplo, hoje é mais fortemente representado pelo violão e pelo acordeão, mas coube à viola o protagonismo durante as primeiras manifestações nativas, pois se trata de instrumento trazido pelos portugueses e difundido pelos padres jesuítas.

A viola animava missas, mas também acompanhava danças indígenas. Simultaneamente, viajava em garupas dos tropeiros nas rotas para São Paulo. Gradativamente acabou substituída por outros instrumentos em algumas regiões do nosso país, a partir do século XI, e consequentemente também rareou nas terras meridionais. No início do século XX, mais precisamente em 1912, temos a publicação do livro Assumptos do Rio Grande do Sul, de autoria do major João Cezimbra Jacques, que nos traz preciosas informações a respeito da viola neste estado:

“A poesia popular no Rio Grande do Sul começou a definhar com o injusto abandono da viola, da qual tivemos exímios tocadores. […] Devemos notar que as senhoras daqueles tempos também cultivavam vantajosamente e com frequência esse instrumento tradicional. […] O motivo do abandono da viola na nossa campanha uns atribuem à invasão de outros instrumentos dentro dela e outros à péssima qualidade das cordas de arame próprias para encordoar esse instrumento, as quais apareciam ultimamente no comércio, sendo tão fracas que não resistiam a uma afinação sem se partirem. […] na nossa campanha, dizem que a gaita é a assassina da “viola”, instrumento entre nós tradicional e cremos que entre todos os latinos, pelo menos entre o povo Ibérico. E a par da viola, tendo quase que desaparecido outros objetos de uso dos nossos antepassados, apareceu entre a nossa população rural a seguinte quadra: A gaita matou a viola, / O fósforo matou o isqueiro; / A bombacha o xeripá; / A moda, o uso campeiro.”. (JACQUES, 1979 [1912], p. 47).

Ainda a respeito da viola no Rio Grande do Sul e por descrever o instrumento com cordas metálicas afinadas em oitavas, temos o relato do viajante alemão Avé-Lallemant, quando de sua viagem para Alegrete. O acontecido passa-se em uma venda à margem do Toropasso, quando da chegada de um rapaz com enormes esporas de prata: “Pela porta aberta da venda, que deitava para o interior da casa, vi-o pouco depois sentado aos pés de uma jovem tocando uma guitarra de cordas metálicas, cada corda acompanhada de sua próxima oitava, o que soa muito bem.” (Avé-Lallemant, 1980, p. 313-314).

O projeto musical intitulado Violas ao Sul é uma tentativa de retomar essa tradição violeira há muito esquecida no estado do Rio Grande do Sul, integrar e destacar o estado no circuito violeiro brasileiro, por intermédio dos quatro ases que têm a viola de 10 cordas norteando seus trabalhos autorais, no intuito de manter viva essa cultura e enriquecer ainda mais as possibilidades musicais recebidas por herança cultural.

A ideia de reunir o quarteto que trabalha separadamente no cenário musical para exprimir um conceito em comum não é nova, basta ver como exemplos os projetos Juntos que reúne os artistas Bebeto Alves, Totonho Villeroy, Nelson Coelho de Castro e Gelson Oliveira, o “Doces Bárbaros” com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Cost; Crosby, Stills, Nash & Young, e em São Paulo o 4 Cantos, com Cláudio Lacerda, Luiz Salgado, Rodrigo Zanc e Wilson Teixeira, entre outros. O Violas ao Sul difere-se pelo ineditismo no que diz respeito à reunião de violeiros sulistas, compositores de obras essencialmente violeiras, e que invariavelmente vertem músicas do cancioneiro gaúcho e brasileiro para arranjos a partir da viola de 10 cordas.

SOBRE OS ARTISTAS

Valdir Verona é natural de Caxias do Sul, músico com mais de 25 anos de carreira profissional. Faz apresentações solo e em grupo, é músico acompanhante, ministra aulas de música, bem como faz produções e direções musicais.

Mário Tressoldi, arranjador, compositor, produtor musical e pesquisador da cultura do litoral Norte do Rio Grande do Sul. É bacharel em Música (cordas) pela UFRGS, professor de violão, técnica vocal, teoria e harmonia funcional. Participa do grupo Chão de Areia.

Angelo Primon é compositor e produtor com mais duas décadas de trajetória dedicada à música. Atuou ao lado de inúmeros artistas do Brasil e do Uruguai e recebeu o Prêmio Açorianos de Melhor Instrumentista, em 2006 e em 2008. Pesquisa as sonoridades orientais e populares de instrumentos como a viola de dez cordas, a viola de cocho, o oud árabe e o sitar indiano.

Oly Júnior é atuante cantautor desde 1998 e gosta de fundir milongas com blues. Tem 11 discos lançados e quatro Prêmios Açorianos de Música. Participou de festivais nacionais e internacionais de blues e de coletâneas musicais do gênero.

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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