Barulho d'Água Música

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931 – Após “uma surra boa”, Vento Viola (MG) encerra dezesseis anos de silêncio e lança “Em Nome do Vento”

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O acervo fonográfico do Barulho d’água Música recebeu, recentemente, mais um considerável reforço: o álbum Em Nome do Vento, do grupo sul-mineiro de Itajubá Vento Viola, entregue por um dos seus integrantes, o jornalista do Correio Popular (Campinas/SP) Clayton Roma. O disco é o segundo do quarteto que além de Roma é formado por César Dameire, Lúcio Lorena e Aidê Fernandes, e foi lançado em dezembro de 2016, sucedendo Viola de Todos os Cantos (2000), que conta com a participação do violeiro Levi Ramiro e é considerado entre os amantes da música regional e caipira uma verdadeira relíquia por não dispor mais de cópias. Em Nome do Vento reúne 13 faixas e conta com as participações em três delas de Ronaldo Chaplin (Cheiro de Minas), João Lúcio (Amo Minas) e Adriano Rosa (Pinho e Violeiro). Abaixo, em entrevista ao portal Música à Vista, concedida a Ronaldo Faria, Clayton Roma fala, entre outros assuntos correlatos, sobre a produção do novo álbum destacando que “no primeiro disco a gravadora não interferiu no trabalho, mas corrigiram arranjos e fizeram a direção que acharam do jeito que tinha de fazer. Mas, neste segundo, foi o jeito do Vento Viola. Nós concluímos esse e já estamos com a cabeça no próximo. Afinal, música é o que não falta!”

Ronaldo Faria (RF) – Minas tem cheiro, sei lá, de coisa presta em festa? Tem. Com certeza, tem. Tem também cheiro de bosta de vaca, de mato a crescer livre, de riachinho que corre quieto na divisa indivisível entre suas terras e um São Paulo a pulular do lado de cá.

Minas tem cheiro de viola a correr e sangrar, a brotar além nas cordas de aço que discorrem entre o leite e o café. Para deleite de São Gonçalo, se fará vida em qualquer um. Quem sabe até um gole de pinga a respingar às horas e noras na fé.

Minas tem mais: tem junção de mundos entre o início e o fundo, a correr de lá e para cá num mundo entre a cidade e a roça, o início e o precípuo final. Ácida, indelével, entre a missa e o refrão, ficam a saudade e o que ainda resta de mundão.

Minas tem minério nenhum, tem um ilícito poema de madrugada em torpor, tem o imaginário e glacial louvor. Pedaço de mãos e vozes em imaginário torpor. No fim, nos sobra música mágica a voar feito ébrio e perdido, inútil e grave ateu.

Minas, misturada em quilômetros afônicos e tônicos, sobrevoa feito os pássaros atônitos que a cobrem de poemas e açucenas. No permear de qualquer coisa talvez não seja nada: se apequene no seu sem mar, a seguir a onda no cerzir e sorrir.

Minas, porém, grave que serás ainda eternamente nunca finda e que tua grandeza te fará feito canto de vento longe ou de sabiá… Vento Viola, quiçá.

Na verdade, ouvir o Vento Viola é se reportar ao primeiro CD – Viola de Todos os Cantos – e àquilo que temos dentro de nós, desatado em nós. É também pensar porque o que é bom fica tão escondido nos rincões musicais de um lugar qualquer dos ouvidos enquanto sons sem sentido e letras sem noção tomam de assalto as rádios, as tevês, a internet e o que mais exista par ase ouvir e viver. No palco do Música à Vista!, hoje, o Vento Viola na voz de um do seus integrantes – Clayton Roma – que vive em Campinas. Ele falará em nome de César Dameire, Lúcio Lorena e Aidê Fernandes, os outros viajantes de um universo onde o importante é pegar a viola, largar o dedo em acordes mil e virar uma pinga diante das montanhas de Minas, que se calam para ouvir a vida passar. Assim, depois de muito e do ainda está por vir, viver ao porvir.

Clayton Roma (CR): Eu comecei a tocar violão com cinco anos de idade. Com sete já tocava na igreja. Com 15 fui para o barzinho, que é a grande escola da música. Quem toca em bar conhece tudo e toca depois em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Esse é o grande ensinamento do bar. Você não precisa ter entrosamento ou ensaiar com uma pessoa que já tocou na noite. É o que acontece muitas vezes comigo. Comecei em Minas Gerais. Sou de Santa Rita de Caldas. Tocava lá nos bares e ia também para Caldas e Ibitiúra de Minas, que são cidades vizinhas. Em 2009, fui convidado a entrar no Vento Viola, mas o grupo começou mesmo em 1978/79, na primeira formação. Mas essa realidade durou o tempo da faculdade do César Dameire, do Lúcio Lorena e do Aidê Fernandes. Depois, cada um se formou e foi para um canto. Em 2008 o César convidou o Lúcio para voltar e, no ano seguinte, o Lúcio me convidou para integrar o grupo.

Eu toco violão, mas toco viola, piano, teclado e percussão. Aprendi a viola porque ela está presente no grupo e, por incrível que pareça, ser um instrumento mais fácil de tocar do que o violão, apesar dela ter dez cordas. É mais gostoso tocar viola. Você começa a tocar ela e não quer parar mais. Eu tinha um violão antigo que o Levi Ramiro (http://www.leviramiro.com.br/) fez uma experiência: o transformou em viola. Eu o chamava de Roberta Close, por ter mudado o sexo de violão para viola. Mas não deu certo, porque o braço não aguentou a tensão das cordas e empenou. Hoje eu tenho uma viola feita pelo Levi que demorou sete meses para ser entregue. Fiz também três meses de aula com o Ivan Vilela (http://dicionariompb.com.br/ivan-vilela) para pegar o jeito da coisa, pois o músico autodidata é meio sem-vergonha. Ele não estuda. Tive aulas e quando eu achei que dava conta do recado, do meu jeito, parei.  Falei para o Ivan que dali para a frente iria sozinho. Não sou violeiro e nem falo que sou. Não conheço tudo de viola. Não consigo tocar Tião Carreiro porque não é a essência que está no meu sangue. A viola que está no meu sangue é a do Vento Viola, onde aplico muito. Tem uma balada no CD novo onde eu toco violão, viola e contrabaixo, o César toca violão requinto e tem até guitarrista. Então é o meu estilo. Eu sei tocar viola, mas não sou violeiro como o Levi Ramiro, Júlio Santin (http://www.juliosantin.com/), Ricardo Vignini (http://www.ricardovignini.com.br/) e o Ivan Vilela. Mas meu instrumento de verdade é o violão. O César que é o violeiro oficial do grupo e também aprendeu brincando. O filho dele está entrando agora no Vento Viola e assumindo a viola porque o César está curtindo o violão requinto.

Em 2009, participamos de um festival de música, porque em Minas Gerais tem festival de música todo o final de semana, no Inverno principalmente. No segundo festival que entramos já ganhamos o segundo lugar, com a música que se chama Segredo. E essa foi a grande música do Vento Viola. Através dela surgiu o convite para gravarmos um disco, que foi o nosso primeiro CD – Viola de Todos os Cantos. Com essa música chegamos a ir até para o Festival de Boa Esperança (MG), que era o grande festival e que tem até hoje. Tinha gente que tentava entrar nele há dez anos e nós fomos no primeiro ano. Foi aquela coisa que nem a gente acreditava, do tipo: o que estamos fazendo aqui no meio dessa turma?! Lá, por exemplo, foram revelados Chico César, Tadeu Franco e Lenine, entre outros. Então era um festival muito forte. Nós passamos por lá, gravamos o disco, mas em 2002 demos um tempo.

RF – Tempo, tempo, tempo, esse ser inequívoco e frágil que ensina, lapida e transmuta as pessoas. Às vezes estraga tudo, envelhece a alma e os sonhos. Outras vezes, porém, dá o caminho, mostra as esquinas e encruzilhadas a seguir. Assim, do nada, renasce tudo que estava parado como se não fosse apenas tempo e cria coisa nova e revivida. Com o Vento Viola foi assim.

CR – Por ser conterrâneo do Lúcio e ele ser meu parceiro desde Santa Rita a coisa aconteceu com o Vento Viola. Tocávamos nas festinhas de Santa Rita, em bares, durante uns quatro ou cinco anos direto. Mas aí eu vim para Campinas e o Lúcio foi para Três Corações (MG). Continuamos a tocar um tempo, mas ficava cansativo, porque tinha a coisa de viajar para tocar e o que você ganha muitas vezes não paga nem a viagem. Quando o Vento Viola voltou, o Lúcio falou de mim porque sabia que eu poderia somar e acrescentar alguma coisa ao grupo. Tanto que a gente brinca que eu sou o arranjador do Vento Viola. Arranjo a corda que arrebenta, o fio que está com defeito, confusão, ou seja, a gente arranja tudo. Mas foi um jeito de somar. Eu toco violão com corda de aço. O César, por exemplo, toca viola de um jeito todo próprio, onde não deixa nem a unha do dedão crescer. Foi unir na música um instrumento de seis cordas com um de dez. E o casamento da viola com o violão deu sorte.

O Vento Viola está na estrada, novamente, desde 2012, e após lançar o segundo álbum, em 2016, avisa que ainda tem várias músicas inéditas (Foto: Denize Assis)

Em 2012 nos reunimos de novo. Acho que esse período afastados foi uma fase de amadurecimento musical para todos nós. Nesse ínterim, o César fez uma sala de gravação onde ele mora. Antes morava na cidade e agora em Cristina (MG), ou seja, ele mora na roça. Tem uma sala de gravação lá. E nós voltamos a nos encontrar, gravarmos junto. Surgiu a ideia desse novo CD – Em Nome do Vento. Esse disco foi feito inteirinho por nós, o nome é nosso e a verdade é nossa, do Vento Viola. Fizemos do jeito que a gente quis. Quem fez a direção musical, o arranjo, a gravação, composições e ainda toca é o Vento Viola. Então, tem músicas que têm, além do violão e da viola – que são o padrão do Vento Viola no primeiro disco –, contrabaixo, guitarra, violão requinto, violeta, viola caipira, violão normal, percussão. Nós inovamos naquilo que fizemos da outra vez, mas tem música que está só com o violão e a viola. Não perdemos o estilo de tocar que é nosso. E o vocal continua os quatro cantando ao mesmo tempo a maioria das músicas, que é uma coisa que ninguém faz.

Você pega os grupos vocais que têm quatro pessoas e nem sempre todas cantam. Um canta ou dois cantam e os outros fazem outras coisas. Mas nós nos mantivemos cantando os quatro. E como os timbres de vozes são diferentes, quando você dá uma nota existe um arranjo vocal pronto, apesar de não ter notas diferentes. O timbre de voz proporciona isso. Foi uma escola para nós fazermos isso. Ralamos o dedo para ficar bonito e ficou. Um aprendizado grande. O disco está bonito, do nosso jeito. Nós aprendemos a fazer um disco e, com certeza, virão mais e feitos de forma mais fácil. Nós apanhamos para fazer o novo disco, mas foi uma surra boa de levar. No primeiro disco a gravadora não interferiu no trabalho, mas eles corrigiram arranjos e fizeram a direção que acharam do jeito que tinha de fazer. Mas, neste segundo, foi o jeito do Vento Viola. Nós concluímos esse e já estamos com a cabeça no próximo. Afinal, música é o que não falta.

RF – Mas de onde vem tanta canção? Teve gente que já disse que criar é 99% transpiração e 1% inspiração. Então, haja suor para dedilhar tantas cordas e tirar da cabeça letras e sílabas, rimas e estrofes. Mas, se assim o for, que o tal suor se largue como os rios que cortam Minas Gerais, lavam ouro, prata e pedras preciosas e agora enxaguam córregos que São Gonçalo dedilha de lá do céu para o pessoal daqui pegar e fazer cerzir.

CR- O César é o maior compositor do grupo, apesar de todos comporem. Quando nos reunimos para tocar, nos divertir, costumamos dizer: ‘vamos mexer no baú do César’. E sempre arrancamos uma coisa nova que eu, pelo menos, não conhecia. Eu que sou o mais novo do grupo. Logo, ainda tem muita coisa a ser registrada e que não pode se perder no tempo. Coisas com letras bem escritas, bem trabalhadas, com poesia. O trabalho nosso foi uma coisa que deu certo e todo mundo gostou. Mas, infelizmente, a gente fazer música séria no Brasil nem sempre é muito valorizado. Não toca nas rádios ou na televisão. Em televisão fomos no programa da Inezita Barroso (http://dicionariompb.com.br/inezita-barroso) duas vezes. A gente tem esperança agora de ir no Rolando Boldrin (http://dicionariompb.com.br/rolando-boldrin). Mas no Faustão nós nunca vamos e no dia que ele chamar a gente, não vamos também.”

Nosso tipo de música, para ter mais espaço, falta somente a gente poder mostrar o trabalho. Mas, veja por Campinas, por exemplo, que é uma cidade 1,2 milhão de habitantes e tem um único teatro municipal, hoje. Para tocar nele você tem de enfrentar diversas dificuldades. Conseguimos fazer o primeiro disco no Centro de Convivência, que já não existe hoje como espaço. Mas foram dois meses de trabalho forte, no boca a boca. Esse nosso primeiro disco, por exemplo, tocou na Morena FM porque nós divulgamos o show lá. Foi um acordo do tipo ‘pagamos o anúncio e vocês tocam o disco’. Mas, acabou o show, nunca mais tocou. Quando a gente fala em música comercial, o que quer dizer? É aquela que vende. E hoje a moda é o sertanejo, sertanejo universitário, que o pessoal compra em CD e DVD. A música nossa não vende. Mas por que não vende? Por que não é tocada, as pessoas não têm acesso a ela. Mesmo com o uso da internet para divulgação, muita gente não chega a ela. E quem tem alcance pela internet fala que queria nos ver tocar. Mas a gente não tem esse espaço. O músico que faz um trabalho independente depende de outras pessoas para fazer um show no teatro. A gente não consegue divulgar também porque não é uma música que vai dar lucro para alguém. A nossa música não dá lucro como dá um sertanejo, um rock, apesar de já estar difícil você escutar rock brasileiro nas rádios.”

RF- Eita Brasil difícil de entender. Com tanta beleza e coisa boa por aqui ainda se esquece das raízes, daquilo que é nosso, saindo das entranhas de um pé a correr pela poeira de um estradão, que dorme na rede e acorda a pitar. E não é só ser caipira. Pode ser urbano também. É ser brasileiro, destravar correntes e poder ser parte de algo que só por ser já há o que sempre ser.

CR- O espaço que tem hoje para o músico que queira fazer um trabalho diferenciado, um trabalho regional e intimista, acaba sendo festival. Lá é que ele consegue mostrar o trabalho. Caso contrário, fica difícil você divulgar por causa do ‘lado comercial’. Como na televisão. Antes nós tínhamos a Inezita que levava pessoas diferentes. Hoje tem o Rolando Boldrin, que tira umas coisas da gaveta, de bons músicos, que nem você que é da música conhecia, é o lugar. E não tem mais. Em Brasília tem um programa na TV Câmara que é de música caipira de violão e viola, de dupla. Mas muitas vezes as duplas que vão até Brasília sequer têm ajuda de custo. É difícil. Tanto que quando a Inezita morreu ninguém quis substitui-la. Uma que substitui-la é uma responsabilidade muito grande. Eles estão reprisando porque houve uma mobilização para que não tivesse fim. Hoje, o boca a boca é o único espaço que nós temos. Falta divulgação. No passado, por exemplo, peças de teatro tinham Campinas como ponto nacional de lançamento. Acho que falta incentivo, valorizar, ajudar e ceder espaço cultural. Valorizar a sua cultura.

Nós nunca tivemos pretensão de ficar famosos ou ricos. Quem começa com essa pretensão não vai para a frente. A gente toca por querer fazer um trabalho diferente e bem feito, o melhor dentro da nossa capacidade e limite. Quem toca as cordas no grupo somos eu e o César. Somos autodidatas, nunca estudamos música. Mas a gente consegue casar dois instrumentos com harmonia, somado às vozes, onde se cria um trabalho diferente. Hoje há um grupo capixaba, o Moxuara ( http://www.moxuara.com.br/joomla_joomla/) – que lembra o Vento Viola. Mas do jeito que gente faz, ninguém fez ainda. Nós não copiamos de ninguém e ninguém nos copiou ainda. Mas se quiserem copiar, a gente acha bonito. Tem um músico amigo da gente, o João [Arruda], do Grupo CantaVento, que define o Vento Viola como um coral caipira. Mas o que é o caipira? É aquele bobão da roça? Não. O caipira é aquele que é o mais inteligente do mundo. As letras do César, por exemplo, que é caipira, têm frases que ele tem de explicar o que são, pela poesia. Por que ele te dá formas de pensar mil coisas.”

RF- Mas o importante é acreditar que tudo pode ainda mudar. Que os ouvidos do futuro saberão entender que o agora é para o que é bom e sempre há lugar. Senão, que cada um dedinho de prosa ao lado da vitrola virtual, a catar uma notinha daqui e um acorde de lá, logo ali, valha mais do que uma plateia entorpecida de 100 mil. Afinal, não vamos levar o mundo conosco. Se muito, um enrosco, um poema afoito, uma música dedilhada feito os anjos que harpearão no céu na nossa chegada. No caso do Vento Viola, haja anjo para tocar tanta belezura e coisa feita. Por isso, curta eles agora, enquanto há vida afora.

CR- Hoje para vender disco está uma coisa muito difícil. Gravadora que eu tenho contato diz que o pequeno que fazia mil discos continua fazendo mil. O grande que fazia um milhão, hoje faz dez mil e dá risada, porque não vende mais do que isso. O pessoal hoje quer MP3, quer pôr no celular, quer pôr no pen drive. Não quer carregar ou ouvir mais disco. Por isso fica bem difícil você fazer um disco bem feito, com encarte bem trabalhado, ter letra. Já não se lia antigamente, hoje muito menos. Mas você acompanhar uma música lendo a letra é muito melhor. Você entende. No caso desse novo CD, tem uma coisa que eu sugeri e o César escreveu foi o que é o causo de cada música, a historinha de cada uma delas. Muitos falaram para fazermos só um envelopinho e colocarmos o disco dentro. Mas não quisemos. É prazeroso você ter um disco com encarte, completo. Logo, não temos intenção inicial de lançar em outros meios, como MP3 ou coisa parecida. Vamos lançar o CD em Santa Rita de Caldas e depois em Campinas.

 

A música que abre o CD é Cheiro de Minas, já que nós somos mineiros. O Aidê é baiano, mas mora muito tempo em Minas, então nós chamamos ele de baianeiro. O Levi fala que nós somos muitos bairristas. Então já abre com Minas, numa música feita pelo Ronaldo Chaplin, que é mineiro e morou um tempo em São Paulo. Teve um final de semana que não pôde ir para Minas, mas parou em Campinas e encontrou outro chapa nosso, o Alexandre Buselli, e ficou falando de Minas e o quanto gostaria de estar lá. Daí surgiu a música. As músicas do meio são todas do César, em parceria com alguns de nós. A mais nova foi de uma parceria comigo – ‘Espera’. A música eu fiz e o César com o filho dele fizeram a letra. Nela tem até uma história engraçada. Nós fomos gravar o instrumental e o César falou para eu tomar uma cachaça e limpar bem a voz, para servir de guia. Aí ele foi ajeitar tudo e eu peguei o copinho de pinga, pus no dedo e fiquei brincando no violão, para fazer um slide. Até esse slide está na música. Uma coisa que o Dércio Marques (http://dicionariompb.com.br/dercio-marques) me falou uma vez: ‘o disco é criado no estúdio’. E eu falei para ele que não. Que o disco era criado fora e ia para o estúdio pronto. Mas, agora, no segundo CD, descobri que ele tinha razão. Disco você faz no estúdio.

RF- Assim, na criação do tempo, aprendendo e reaprendendo, renovando e fazendo, tornando coisa feita o que antes era só pensado, o Vento Viola vai a correr seus trilhos e trilhas, juntar telhas e tralhas de um novo alicerce. A trazer mais gente para perto, na futura geração do grupo, a tocar canções e receber unções do universo caipira ou urbano em presto. Para nós, meros ouvintes e mortais, que as coisas continuem tais e quais. Isso já está bom demais…

CR- Tem uma música do novo CD, Pinho e Violeiro, que o Zeza Amaral definiu como a nova música caipira, porque ela conta uma história. Tem uma declamação. É uma música de viola e violão com contrabaixo. Ela encerra com a inserção de uma música do Renato Andrade (http://dicionariompb.com.br/renato-andrade), porque o violeiro da história é ele. A coisa nasceu de um artigo que o Zeza Amaral escreveu no Diário do Povo no dia da morte do Renato Andrade. Daí o Adriano Rosa pegou esse artigo e escreveu uma letra. O César pegou e pôs a música. Para o escritório que fez o disco eu mandei a música para verem a necessidade de pagar os direitos autorais pela inserção do trecho do Renato Andrade. Passou um tempo, ligaram e eu pensei que teria de pagar os direitos. Mas não, foi para dizer que há muito tempo eles não escutavam uma música dessa. Por que ela é uma música caipira, que conta uma história. E a música sertaneja hoje é só sobre balada, mulher, boi, peão etc. Para nós, foi um elogio. Pois música séria você não faz mais. Fizemos este CD porque rachamos o custo em quatro. Se fosse só para um bancar, ficaria impossível. Tanto que eu estou há 26 anos em jornal para sobreviver. E ainda falam que músico é vagabundo. Por isso eu respeito muito quem vive só de música. A gente poderia até entrar no universo comercial e ganhar muito dinheiro com isso, mas não faríamos aquilo que a gente gosta e quer mostrar.

O certo é que a viola conseguiu crescer muito. O que não podemos agora é deixar ela sumir. Temos grandes violeiros hoje, como o Chico Lobo, Pereira da Viola, Levi Ramiro e Paulo Freire. Legal foi ter visto um projeto como o que o Levi e o Paulo fizeram no Sesc chamado Sonora Brasil. Foram 120 shows pelo Brasil inteiro. Como o Levi Ramiro falou, foi cansativo, mas ele nunca iria tocar a viola dele no Acre, Rondônia, Roraima, em todo o País, se não fosse assim. Isso mantém a viola e a música regional vivas. E cada região tem sua viola, desde a nordestina, mato-grossense, do interior paulista, norte de Minas, do Paraná e Rio Grande do Sul, entre outros. A viola hoje está esparramada e, se Deus quiser, vai continuar esparramada e criando adeptos por muito tempo afora. Nós, do Vento Viola, estamos aí para isso.

RF- Agora, que São Gonçalo nos proteja e deixe que o vento que bate nas violas da vida não pare jamais. Que cada um dos violeiros que dá seu mundo a espalhar poesia e canções continue assim: criador de tudo que pode existir de bom, seja num mundão verde e de mata ou seja num se perder de concreto que, mesmo cinza e sem graça, ainda pode ouvir o som  da melhor das melodias.

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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