Barulho d'Água Música

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943- Conheça Paulo Rubens Gimenes, escritor de Franca, autor de O Poeta e o Cantadô/Uma Odisseia Caipira

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Minha cantiga é de cantar e alertar/é pelo prazer te ver dançar, voar no ar/(…) é dança antiga para chover/molhar o sertão, teu coração, e o chão (…) voltar ao ar ao ar, ao chão do teu lugar

Cantiga, faixa 2 de O Poeta e o Cantadô/Uma Odisseia Caipira, de Paulo Rubens Gimenes

O Barulho d´água Música voltou às páginas do blogue Terra Brasilis, de Daniel Lamounier, para de lá trazer e compartilhar com amigos e seguidores a dica para baixar e conhecer O Poeta e o Cantadô/Uma Odisseia Caipira, o mais recente álbum do escritor e músico Paulo Rubens Gimenes. Este ótimo disco de 15 faixas é daqueles que exigem “dar um tempo nesta vida louca” (para ser ouvido mais e mais, sem pressa, permitindo-se o encantamento,  saboreando um bom gole de café que lambuza a boca ou como quem ouve prosa boa de compadre, como Paulo Rubens Gimenes bem ensina logo na primeira música, Simples Composto) e acompanha livro de 37 contos e poemas do paulista de Franca, cidade onde nasceu e mora, formou-se em Comunicação Social pela Unifran, cria jingles publicitários e ainda atua como microempresário do ramo de produtos para calçados. Os dois “troncos da mesma raiz”repetem com idêntico sucesso o formato do primeiro combo — o livro de poesias Poemas para Cantar, Músicas para Ler (2010), que também traz encartado um disco, lançado no Centro Médico de França em outubro de 2010 após ser contemplado (depois de muitas tentativas do autor) pelo Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo (ProAc) e que contou ainda para ir ao prelo e ao estúdio com iniciativas da FM Editorial, situada em São Paulo.

O cotidiano de tarefas de Paulo Rubens Gimenes inclui a criação de dois filhos e escrever artigos para o caderno Nossas Letras, do jornal Comércio de Franca, mas não o impede de se dedicar sempre o mais que pode tanto à música, como à literatura.  Atuante  em Festivais de Música do Estado de São Paulo, ele já lançara em 2008 Letra e Música (em parceria Tunico Magno); posteriormente, saiu MCB- Música Cidadã Brasileira, produto independente, de 2012, reeditado com o apoio da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo em 2014. Atuando em áreas artísticas como a literatura, num país onde pouco se lê, e na música regional, fora do contexto comercial e ignorada pelos  grandes centros culturais do país, pode-se dizer que esta produtividade chega a impressionar. E a quem possa interessar, o próprio Gimenes explica: “Vivo adaptando para minha vida o conto de fadas A Cigarra e a Formiga. Na fase de criação de uma obra alimento a ‘cigarra/dom’ e quando vou viabilizar o projeto, concretizar o sonho, alimento mais a ‘formiga/trabalho’”.

“A população cresce, migra do campo para os centros urbanos, busca trabalho nas cidades cada vez mais inchadas”, diz Sônia Machiavelli, editora do Comércio de Franca, uma das maiores incentivadoras de Gimenes. Os que buscam os grandes centros, entretanto,  levam consigo “tanto quanto as histórias ouvidas de pais e avós, um jeito de falar que, no caso deste Nordeste paulista, tem muito do sul de Minas Gerais”, completa Sônia. “Pois até não dizem que Franca é um pedaço de São Paulo ocupado por mineiros? Nossa prosódia é o atestado cultural mais expressivo desse intercâmbio de experiências. É ela, tratada de forma literária, que caracteriza o estilo de Paulo Gimenes, pesquisador interessado no falar de segmentos de nosso povo que ainda se mantêm impermeáveis às influências da prosa citadina, contaminada por diferentes fatores.”

Grande mestre da Filologia, dos maiores nomes da Etimologia no Brasil, o saudoso professor João Alves Pereira Penha, com quem muitos universitários francanos aprenderam a pensar com mais profundidade os fenômenos linguísticos, já escrevera na década dos anos 1980 a respeito deste fenômeno que é a evolução mais lenta do idioma nos rincões afastados. Um dos livros de Penha registra o fato linguístico que é a fala caipira, tema do qual também se ocupam as histórias curtas de Paulo Rubens Gimenes, conforme pode se ler no páragrafo abaixo, extraído de um dos seus contos:

“Dizem que os caipira, que os contadô de causo, é tudo mentiroso. Que mardade! Pura ingnorância do povo da cidade, dessa gente que não querdita, que acha que tudo é lenda, tudo crendice popular(…) Imaginem ocês que saci-pererê, lobisome, boitatá, pr’eles é tudo um tar de forclore, que o boto nem num vira home formoso, que vai pros baile da roça de terno de linho branco e chapéu e que tira as donzela pra dançá, que enfeitiça as donzela, que encanta as donzela inté a donzela deixá de sê donzela. Dizem que é mentira pra cubri as sem-vergonhice das moça.”

A supressão do fonema s nos plurais; a subtração do r e do m finais; a troca do som l pelo r; a elisão do v no pronome de tratamento você , que vem evoluindo desde o século XVIII a partir da forma vosmicê  — por sua vez oriunda do quinhentista vossa mercê — são alguns dos exemplos clássicos desse nosso Português que ainda evoca longínquos traços arcaicos. Junto a este resgate linguístico importante,  o autor empreende a busca de histórias que se mantêm permeando o imaginário popular e revelam heranças europeias, africanas, indígenas. O tom coloquial, de quem bate um papo descontraído, é característica expressiva da prosa do autor, que avança em criações pessoais e alça voos românticos em Marlene e Piolim; constrói metáforas frescas em Amigo é planta; faz crítica social em Dia de Faxina;  investe em memórias líricas no bem estruturado Eu tinha um tio…O humor também é traço estilístico importante ao contribuir para a leveza de contos de tom fortemente autoral  como O doce do capeta; Pode fumar lá no céu?; O padre sem paciência; A geringonça que guspia dinheiro; Papai matou uma assombraçãoOs fantasmas Bilevis, entre vários.https://web.facebook.com/1385121735146931/videos/1572618083063961/

Um conto clássico, com sua estrutura linear e ordem cronológica, ganha maior valor na forma como é contado. Por isso se afirma que todo contador é um poeta que sabe inscrever nas entrelinhas uma emoção específica. Paulo Gimenes é a maior expressão desse aforismo que transparece no título de seu recente lançamento.

 

Os 37 contos e  poemas, portanto, possibilitam ao serem deschavados o mesmo prazer com que se ouvem as 15 canções do disco, gravado em parcerias com expoentes francanos tais quais Tunico Magno, F. Jaiter, M. Prado, I. Brasil. Tiago Leitonez, Grupo Balaio, e a dupla Canário e Passarinho. A capa, de forte poder sugestivo, traz a assinatura de Vítor Fonseca e ajuda a compor as áreas imagéticas do universo buscado pelo autor. E nunca é demais lembrar a etimologia tupi da palavra caipira — presente no título e no espírito da obra: ela nos remete diretamente para o morador do mato, mas um mato que, no momento histórico do registro, já não é mais selva, e sim mata,  o lugar onde foram engendrados os antepassados dos protagonistas da maioria dos contos; cada conto, assim, é uma conta no colar que é a odisseia relatada pelo autor.

Poemas para cantar…

Os textos, crônicas e poesias (de conteúdos ecléticos e temas saudosistas que resgatam a cultura de raiz, passeando pelo cotidiano de uma cidade interiorana, fazendo protesto político e social e também falando de amor) selecionados para Poemas para Cantar, Música para Ler resumem os 12 primeiros anos de contribuição ao caderno Nossas Letras e foram reunidos a partir de sugestão de Sonia Machiavelli. Concluída a lista, foram três anos de recusas até o projeto receber o aval do Proac e da FM Editorial, de São Paulo.

“Gastei meses em ligações telefônicas e contatos, muita espera, muita paciência”, recorda o autor, que precisou recorrer a um agente cultural (Marcelo Conti,  empresário que cuida dos assuntos burocráticos junto às Leis de Incentivo à Cultura) para a aprovação. Quanto ao patrocinador que ainda faltava, ele recorda que já estava pensando em desistir ao ser procurado pela FM Editorial – que por fim viabilizou o sonho por meio de uma famosa empresa líder em vendas de impermeabilizantes, a qual considerou a importância dada a conservação e divulgação da cultura legítima, com destaque para os poemas/músicas de raiz, do interior paulista.

Em tempos de tanta interpretação errônea de leis de incentivo e polarizações à esquerda e à direita no especto político, Gimenes faz questão de realçar: o ProAc permite a empresas da iniciativa privada e de economia mista renunciarem parcialmente ao ICMS devido para poderem apoiar projetos culturais. “Muitas desconhecem esse programa”, lamenta.  Já a assessoria de imprensa da FM Editorial resumiu bem a importância do projeto do poeta francano. “Engana-se quem pensa que a obra de Paulo Rubens Gimenes diz somente àqueles de Franca e região. É poesia e como tal atinge o coração de todos, independentemente de sua aldeia, de sua metrópole”.

A cada passo, um poema

Paulo Gimenes Gomes tira proveito da solidão como um dos fatores que mais o condiciona a criar. “Minha inspiração dá-se em momentos em que estou só, geralmente em longas caminhadas que tenho por hábito fazer, seja em pequenas estradas vicinais da região, seja pelas ruas de cidades que visito, em meio às suas histórias e personagens.” De acordo com Gimenes, a ideia do trabalho é fazer com que as pessoas explorem novas mensagens, sensações e sentimentos ocultos nas palavras, nas melodias e nas imagens. “Enfim, em todo o universo único que se descortina no íntimo de cada um ao contemplar qualquer forma de arte”.

Poemas para Cantar, Músicas para Ler apresenta 17 faixas e foi dividido em três grupos, baseados no estilo da música, na temática do poema. O primeiro, e menor de todos, é De Capim… uma homenagem à terra do capim mimoso, como Franca já foi chamada. O único poema musical, Conjugando Franca, é um samba interpretado por Marcos Prado e Leninha.

O segundo grupo, Da Terra…, é composto por poemas musicais que realçam o lado sertanejo de Gimenes, o amor à terra, o êxodo rural. Oito composições são interpretadas por Isaac Brasil, Ronaldo Sabino, Cláudio Silveira e Júlio Cesar, Ângelo e Desirê, André Bolela e o próprio autor, que “se permitiu” colocar a voz na romântica Daqueles Amor.

 “Acredito que sou da geração chamada híbrida, derradeira. Vivi a infância no campo com todas as tradições rurais e músicas de raiz, mas também tive contato com o rock”, afirma Gimenes.

Fechando o disco, De Asfalto… mostra o lado urbano e as diferentes facetas do autor. São oito poemas/canções de protesto e crítica político social, que ganharam ritmo nos gêneros blues, MPB e pop rock, interpretadas pelos cantores Maury Gatti, João Carlos e André Canto (Banda Index), Téti e Paulim, Enrico Nery, Afonso Henrique e Tunico Atallah. O destaque desta parte, segundo Gimenes, é a homenagem ao seu ídolo, o cantor cearense Belchior.“Dei total liberdade aos músicos convidados para criarem os arranjos, que ficaram maravilhosos”, avalia Gimenes, que também é influenciado por compositores e cantores como Chico Buarque, Gilberto Gil, Renato Teixeira, Adir Blanc, Fernando Brant, entre outros.

Foram confeccionados dois mil livros de capa dura, com o DVD anexado. A obra tem 54 páginas coloridas , com imagens da designer Suzana Taveira. “Cada interpretação dos poemas e músicas representa um sentimento”, observa Rubens Gimenes, que pretende dedicar-se também a workshops para o público infantil, pois  pretende “despertar a curiosidade nas pessoas e incentivar a leitura e toda a forma de arte. Cultura é curiosidade. Grande parte da minha cultura adquiri com a leitura de músicas.”

As 15 faixas do álbum O Poeta e o Cantadô/Uma Odisseia Capira estão disponíveis no blogue Terra Brasilis, mediante acesso ao linque http://terrabrasilis2.blogspot.com.br/2016/08/paulo-rubens-gimenes-o-poeta-e-o.html . Há, ainda, plataformas digitais nas quais as músicas estão à venda e os livros/discos também podem ser encomendados diretamente com Paulo Rubens Gimenes ou entrando em contato com a livraria da FM Editoral, cujo número de telefone é (11) 2936-9667 / e o correio eletrônico contato@fmlivraria.com.br

Faixas de O Poeta e o Cantadô/Uma Odisseia Caipira

1 – O Simples Composto 
2 – Cantiga 
3 – Canção Estradeira 
4 – Troco Minha Sogra 
5 – Viola Maldita, Viola Bendita 
6 – Escancarando Brasis 
7 – Festa Na Roça  
8 – Eu E A Rosinha 
9 – Troncos Da Mesma Raiz 
10 – Tudo É Porteira 
 11 – Metrópole Solidão
12 – Daqueles Amor  
13 – Ciranda Do Destino
14 – Trem Caipira 
15 – Boiadeiro Pecador 

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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