Barulho d'Água Música

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968 – Disco importantíssimo para entender o Brasil, Cabaça d’água, de Alberto Salgado, é finalista do 28º PMB

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Cabaça d’água, álbum de Alberto Salgado, é um dos três indicados da categoria Regional para vencer o 28º Prêmio da Música Brasileira, concorrendo com Celebração (Valdir Santos) e Vivo! Revivo! (Alceu Valença). O compositor e letrista brasiliense ainda poderá sair da cerimônia que ocorrerá em 19 de julho com o título de campeão entre os melhores cantores — disputa que também travará contra o pernambucano autor de Espelho Cristalino, e Raymundo Sodré (BA), que entrou no páreo com Os girassóis de Van Gogh. Sucessor de Além do Quintal, com o qual Salgado estreou em disco, Cabaça d’água desembarcou em 16 de fevereiro como atração do Clube do Choro (DF), em um show durante o qual o público aplaudiu efusivamente a nada convencional soma de ritmos — uma das marcas do trabalho de Salgado, que utiliza para interpretar as próprias criações violão de nylon, cavaco de cinco cordas, baixo elétrico, percussão, bateria, berimbau e até violoncelo conquistando a plateia ao som de xaxado, bumba-meu-boi, samba e baião, entre outros ritmos.

Autodidata em música erudita e violão clássico, Salgado também gosta de marcações com atabaques africanos ou o tampo do violão, batidas que remetem às rodas de capoeira que frequenta. Ao comentar seu processo criativo, ele observou que o experimentalismo também o guia como fio condutor. “O som surge de dentro para fora num processo abstrato, mais sinestésico que auditivo, mais intuitivo que racional, diferente da letra, que é externa, mais fria”, disse. Geralmente a música vem primeiro, depois surge a letra. “No entanto, as palavras não saem das notas, porém, respeitam a métrica”. Quanto à escolha do tema da canção, afirmou:  “Busco um mote que se encaixe na melodia.”

O disco busca ainda ser um clamor pelo uso racional da água, já que Alberto Salgado é militante ambientalista Além de composições próprias traz parcerias com Chico César (Ave de Mim), Arthur Maia,  baixista de Gilberto Gil (Histórias do vento), Silvério Pessoa (Pele  debaixo da unha), Wander Porto (Oferenda) e Werner Scheller, coautor da faixa título.“Estou muito feliz com o resultado”, afirma, ponderando que apesar de Cabaça d’água não ter samba “considero o bem brasileiro, com compassos marcantes que passeiam pelo baião, pelo xaxado e carrega, ainda, influências africanas, que é a base da identidade musical do nosso país”.  

O projeto do disco obteve patrocínio do  Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura (FAC) do Governo de Brasília. Agora, caso conquiste ambas as consagrações na edição deste ano do Prêmio da Música Brasileira, os dois novos troféus irão para a estante na qual Salgado já exibe glórias de vários festivais que faturou pelo país — dentre as quais o par recebido por Serra do Mar: Prêmio Sesc Tom Jobim de Música, como vencedor na categoria Melhor Interprete, e segundo lugar (categoria Melhor Canção)

Do site Nossa Dica, de Brasília, em 10 de fevereiro:

“Salgado é um tempero a mais na moderna música popular brasileira. O diferencial na sua maneira de tocar está nas marcações rítmicas, no violão percussivo e em compassos compostos e alternados marcados por influências da bossa nova, do samba, do afro-samba e de mantras-percussivos, que se unem dentro de uma identidade única e envolvida por uma atmosfera moderna, forte e marcante de sua música experimental e contemporânea. Sonoridades que se fundem às letras que tratam de assuntos ecológicos, cotidianos de forma inteligente e com pitadas de bom humor.

 

Do site Mais Cultura Brasileira, em 14 de abril de 2017, reproduzido no blogue Terra Brasilis, na qual estão disponíveis para serem baixadas todas as faixas e o encarte de Cabaça d’água:

“O bom artista é aquele que sintetiza a sua obra em cima de sua outra obra, buscando o seu melhor e interiorizando o mecanismo de conhecimento pleno de sua arte por meio de mensagens criptografadas em forma de música, dança, letras e artes cênicas. Muitas vezes ocorre o contrário: o artista, seja ele em qualquer esfera, baseia-se em trabalhos anteriores para que seu reconhecimento seja marcado por sua marca registrada, não fugindo do lugar comum e com ambientações dentro de um mesmo segmento, de uma mesma moldagem, não se utilizando de outras roupagens, não usufruindo novas ferramentas ou novas inspirações. Não é o caso do cantor e compositor brasiliense Alberto Salgado, que vêm de uma inquietação transparente e inerente perante o seu trabalho musical. Se olharmos para trás, veremos que Além do Quintal (2014) é um disco brilhante, com ritmos que agradam a todos e com a perfeição em um trabalho que o destacou no cenário da música brasileira por ser um disco autêntico, verdadeiro e ser considerado por muitos como uma obra-prima.

Quatro anos distancia o primeiro CD de seu novo lançamento, Cabaça D’Água (2017), que já se tornou clássico antes mesmo de vir a público. É sempre uma ansiedade esperar pelo novo trabalho de Alberto Salgado, que é um desses cantores que nos pegam pela forma como compõe e pela voz que enaltece seu talento. Diferentemente de Além do Quintal, esse novo CD traz toda a movimentação sombria que o Nordeste assola, a tragédia de Mariana (Minas Gerais), as belezas de um futuro, os amores possíveis e a seca que matam os peixes. É um disco importantíssimo para entender o Brasil, pois Cabaça D’Água traz uma antropologia filosófica nas entrelinhas e que fica fácil a sua associação com a politicagem herdada em alguns âmbitos nacionais.  A esfera de escopo musical para a música de Alberto ressurge em um momento importante dentro daquilo que podemos catalisar com o inesperado, com o surreal, com a fantasia imaginada e idealizada por nossas mentes para que tudo não passe de um simples sonho. A realidade está embutida em versos como a vaidade do homem consome sede de viver, tanto pinga que some água de beber (Cabaça d’Água) e em ói que a tua coragem não me põe medo, ói que a minha vontade é teu desejo, ói que ce dormiu tarde e eu acordei cedo (Ói).

Com produção do próprio Alberto Salgado e com a arte gráfica de Carol Senna, o disco ganha ares de uma estrutura privilegiada referente à mensagem que se deseja passar: antropologicamente, a cabaça é utilizada para servir alimentação para alguns povos e para muitos é utilizada como recipiente de água. Também podemos associar a cabaça como utensílio de várias gerações desde Cristóvão Colombo, no ano de 1.492, para guardar ouro e outras relíquias importantes para que não fossem furtadas. Levada da África para a Ásia, Europa e Américas como formalização da migração humana, a cabaça foi um importante instrumento como fonte de alimentação por meio dos oceanos para esses povos.  Aqui encontramos uma contradição que no disco de Alberto Salgado é bem explorada em ambos os aspectos: na música que leva título do álbum, Cabaça D’Água, o cantor se preocupa com a falta de água no planeta e nos lança a questão sobre a sede por água de beber. Já na música Da jangada em pleno mar, Alberto canta sobre as injustiças sociais que assolam nossas vidas perante as utopias existenciais. Vale ressaltar que esse decantamento é importantíssimo para a competência de todo o trabalho de Alberto, pois ele soube ministrar muito bem os lados representativos pela cabaça d’água refletida sociologicamente entre nós.

As participações especiais são para lá de especiais: Chico César dá o ar poético de sua graça em Ave de mimSilvério Pessoa nos surpreende pela força vocal no xote Pele debaixo da unhaRafael Miranda nos encanta na derradeira Quem foi? e a sensacional cantora Carol Senna (grande revelação) dá o tom de lirismo em Força da fé. Um CD que precisa ser ouvido com o mesmo encantamento provocado pelo sentimentalismo de Alberto Salgado, um cantor que se torna a cada dia um expoente da nova safra da música nacional, com suas competências e sua originalidade impecável e que nos favorece o melhor de sua música.”

 

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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