Barulho d'Água Música

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986 – Considerado “maldito” no início da carreira, Luiz Melodia conquistou o mundo com a insubmissão nata e deixa aos fãs discografia com 16 álbuns

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O Barulho d’água música se solidariza à dor dos amigos, fãs e familiares do cantor, compositor e músico carioca Luiz Melodia (Luiz Carlos dos Santos), que morreu hoje, 4 de agosto, na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ), aos 66 anos, por complicações causadas pelo câncer, de medula óssea, que combatia. Melodia estava internado no hospital Quinta D’Or e entrou em óbito por volta das 5 horas, desfecho que tentou evitar chegando a se submeter a um transplante do órgão atacado pela doença e à sessões de quimiteorapia, às quais, no entanto, o organismo dele não respondeu favoravelmente. O sepultamento está previsto para este sábado, 5, às 10 horas, no Cemitério do Catumbi, após velório na quadra da Escola de Samba Estácio de Sá.

Luiz Melodia nasceu no morro de São Carlos (Estácio), bairro da cidade do Rio de Janeiro, em 7 de janeiro de 1951. Único filho homem do compositor Oswaldo Melodia e Eurídice, apaixounou-se por música ao ver o pai tocando, em casa: “Fui pegando a viola dele, tirando alguns acordes, observando. Ele não deixava eu pegar a viola, que por ser de quatro cordas era uma relíquia, muito bonita, mas nela aprendi a tocar umas coisas.”

Por conta desta precoce afinidade com a música, Luiz Melodia terminou por contrariar Seu Oswaldo, que planejava ter na família um “doutor” formado: “Ele não me apoiava, mas não adiantou ficar contra, até porque as coisas foram acontecendo. Depois, ele me curtia pra caramba e quando faleceu perdi um grande fã”, contava o autor de Pérola Negra.

Melodia, então, começou a carreira musical. Era 1963 e, inicialmente, dividia as atenções com o cantor Mizinho encarando, simultaneamente, trampos de tipógrafo, vendedor, caixeiro e músico em biroscas noturnas. Em 1964, formou o conjunto musical Os Instantâneos, com Manoel, Nazareno e o parça Mizinho. Abandonou o ginásio na adolescência e se dedicou a compor e a tocar músicas que embalariam a Jovem Guarda e a Bossa Nova, sempre com o grupo Instantâneos. Essa experiência, juntamente com a atmosfera do tradicional samba dos morros cariocas, resultaram em uma mescla de influências que renderam a Luiz Melodia um estilo único que passeou do blues ao hip-hop que logo menos chamou a atenção de dois assíduos frequentadores do morro do Estácio: os poetas Wally Salomão e  Torquato Neto.

Wally Salomão, de cara, apresentou-o a Gal Costa, que, desta forma, passou a dizer que conheceu um dos seus compositores prediletos. A amizade permitiu a gravação do clássico Pérola Negra no bolachão Gal a todo vapor (1972). Pouco depois, era vez de Estácio, Holly Estácio cair no coração de outro ícone baiano e ganhar  consagrada interpretação, agora por intermédio de Maria Bethânia.

Foi nesta época que o compositor incorporou ao nome artístico a homenagem ao pai, utilizando Luiz Melodia já ao lançar, em 1973, o antológico disco Pérola Negra. A partir daí, com temperamento irreverente e inquieto — características que já o faziam se sobressair quando, ainda garoto, tocava iê-iê-iê nos terreiros das cuícas, surdos e pandeiros –, gradativamente foi amalgamando seu estilo musical inconfundível sem dar bola aos chatos de plantão que o rotulavam como “maldito”, julgando que seria ofensivo ao carioca ser guindado ao mesmo escaninho do cearense Fagner e do mineiro João Bosco, dois exemplos para os quais a intelectualia também espichava beiçinhos. “Ah, cara: não éramos pessoas que obedeciam, sabe como é!”, declarava Melodia. “Burlávamos, pode-se dizer assim, todas as ordens da casa, da gravadora; rompíamos com situações que não nos convinham”, completava. “É que sempre acreditei naquilo que fiz e faço!”, arrematava.

Em 2015 Luiz Melodia faturou o prêmio de melhor cantor de MPB com o disco Zerima (Foto: Roberto Filho)

Críticas à parte, a carreira já havia se afirmado e só se fortaleceu em 1976, quando o disco Maravilhas contemporâneas chegou às paradas, sucedido com a mesma aceitação do público por Mico de circo (1978). Nas décadas seguintes, novos álbuns o conduziriam ao estrelato nacional, a ter músicas incluídas em trilhas sonoras de novelas de grande audiência (vide Juventude Transviada, em 1975, sucesso em horário nobre platinado como um dos temas de Pecado Capital) e à fama para além do país — abrindo, entre outras, as portas de casas de espetáculos europeias e de eventos gringos de responsa como o  III Festival de Música de Folcalquier (1992), na França e, em 2004, do Festival de Jazz de Montreux à beira do lago Lemán, onde arrancou aplausos entusiasmados no Auditorium Stravinski, palco principal do festival.

Já aclamado pelo público e com espaço consolidado no cenário artístico tupiniquim, Luiz Melodia lançou Nós (1980), incluindo entre as faixas Codinome beija-flor , do poeta, cantor e compositor CazuzaCinco anos depois Relíquias trouxe novos arranjos para sucessos como Ébano (música que defendeu na final do festival  Abertura, exibido pela TV Globo, em 1975) e Subanormal, fórmula repetida em intenso tom intimista por Acústico – ao vivo (1999), em que Melodia revisitava novamente a própria obra, agora amada tanto pelo público, quanto pela crítica.

Até Zerima, que saiu em 2014 e rendeu a Luiz Melodia no ano seguinte o troféu do 26º Prêmio da Música Brasileira (PMB) na categoria melhor cantor de MPB, a discografia registra 16 títulos autorais — sem contar inúmeras participações em trilhas sonoras de novelas e de minisséries, além de álbuns de amigos e parceiros, entre os quais o solo do titã Sérgio Britto, lançado em setembro de 2011. Melodia era casado desde 1977 com Jane Reis, cantora, compositora e produtora, com a qual teve o filho rapper Mahal Reis, nascido em 1980.

Discografia de Luiz Melodia

  • 1973 Pérola Negra
  • 1976 Maravilhas Contemporâneas
  • 1978 Mico de Circo
  • 1980 Nós
  • 1983 Felino
  • 1987 Decisão
  • 1988 Claro
  • 1991 Pintando o Sete
  • 1995 Relíquias
  • 1997 14 Quilates
  • 1999 Acústico ao Vivo
  • 2001 Retrato do artista quando coisa
  • 2003 Luiz Melodia Convida
  • 2007 Estação Melodia
  • 2008 Especial MTV – Estação Melodia Ao Vivo
  • 2014 Zerima

 Participação em trilhas sonoras de novelas e minisseries

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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