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999 – Paraná guarda com carinho e saudade a obra de Romano Nunes, o Cabelo, desde menino exímio violonista

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“O violão de Cabelo vale por uma orquestra inteira. Só assim para dar noção do talento desse músico paranaense. Mas, mesmo prevenido, você ainda pode sofrer de queixo caído quando ouvir a mágica” Beto Feitosa**, crítico musical fluminense

O Paraná despediu-se em 27 de fevereiro de 2015 de João Batista Nunes, um dos mais talentosos e virtuosos multi-instrumentista do Estado. Cabelo, como ficou conhecido pelos admiradores de todo o país, também utilizava o nome artístico Romano Nunes, sofria de trombose e morreu na véspera, em Curitiba, em consequência do entupimento de uma das vias do coração por um coágulo, após sofrer uma queda. O corpo do músico que estava com 65 anos encontra-se sepultado em Jacarezinho– cidade para a qual a família se mudou em 1951 (oriunda da terra natal, Carlópolis) formada pelos pais, Juvêncio Antônio e Rosa, e mais quatro filhos — um deles a menina Maria Margarida, com a qual, aos 7 anos, João Batista já cantava no programa A Bola da Semana, produzido em Jacarezinho. Aos 17 anos, levando entre os itens da bagagem a primeira guitarra elétrica, Cabelo trocou o Interior pela Capital, onde apesar da natureza humilde e tímida amadureceu profissionalmente, desenvolvendo a maior parte da carreira de violonista, de violeiro, de cavaquinista e de guitarrista, além de compositor, diretor musical e arranjador.

O início da trajetória de sucesso de Romano Nunes remonta ao começo dos anos da década de 1980, sempre se apresentando com o cabelo quase à linha da cintura, característica que lhe rendeu o famoso apelido. Os primeiros shows em  teatros curitibanos foram ao lado de João Gilberto Tatára, com quem gravou, em 1983, Águas do Futuro. Mais tarde, Cabelo passou a ser convidado dentro e fora do Paraná como atração de programas de emissoras como Rede Bandeirantes, CNT e TV Educativa, atuando simultanemente como diretor musical e artístico de parceiros como Eron Viana, Hilton Barcelos, Plínio Oliveira, José Alexandre Saraiva, Gil Gabriel e Rosi Greca.

Ao empunhar o violão e os demais instrumentos de corda que dominava, Cabelo conseguia tocar a mesma composição em vários ritmos — fosse Something, dos The Beatles (como Pop ou Jazz, por exemplo) ou clássicos de Villa Lobos (variando da Bossa Nova e deste ritmo para Tango, Bolero e até Flamenco). O vasto repertório também inclui temas latinos, joias do cancioneiro caipira (que fazia questão de valorizar em homenagear as origens e respeitar as influências do pai) e, igualmente belas, peças regionais, como ele próprio dizia, “com cheiro de terra e gente comum”.

O vôo do beija-flor*, primeiro álbum solo, entretanto, saiu apenas em 2.000. Reúne doze faixas instrumentais que à época os críticos classificaram como músicas da Nova Era (New Age) — o que, independentemente de ser ou não um mero rótulo, situa a obra de João Batista em outro campo estilístico e reforça a sua bem calibrada veia eclética: nada mais natural para um artista que aos cinco anos de idade já emocionava amigos da família e parentes tocando, entre outras composições, Abismo de Rosas (Américo Jacomino/Canhoto), antes mesmo de formar o duo com Maria Margarida.

Cabelo assina dez das composições de O vôo do beija-flor — O vôo do beija-flor, Horizonte, Paranã, Craviolando, Thomaz Alvarez, Raphaela, Hermetiando, Michele, Catedral de Jacarezinho e Fronteira; duas são temas inspirados em sua filha e em sua neta –, as quais gravou ao lado de releituras dos clássicos Índia (M.Ortiz Guerreiro e J.A.Flores) e As mocinhas da cidade (Nhô Belarmino e Nhá Gabriela). A faixa título guarda uma bela história, e sua inspiração teria, acreditava Cabelo,  a guia da mão divina. O músico, após show beneficente em uma fazenda de Rolândia (norte do Paraná), tocava um violão Folk, de 12 cordas, quando, ao chegar ao meio da melodia, beija-flores começaram um lindo balé ao seu redor. Quanto mais velocidade Cabelo alcançava com a cordas, mais as aves o sobrevoavam, fazendo evoluções sobre sua cabeça, ou, ainda, voando muito próximo de seu ouvido. Inspiradíssimo, Romano começou a imitá-las e assim cômpos a música.

Diamante de raro brilho que concentra luz própria, emana calor e muita emoção com cordofones de seis, dez ou doze cordas, conforme as palavras de Beto Feitosa**, Cabelo, recorda os que o ouviram em ação, procurava falar com o público enquanto tocava, sem precisar apelar para receitas ou rótulos já que agradava a muitos gostos. Lembra-se daquela primeira guitarra: usando-a em bandas de rock como Garotos Unidos e Início do Século, ainda antes de começar a se destacar em carreira solo, ganhou o respeito do público que já percebia uma de suas mais marcantes características: o desejo de contínua superação, aliado à capacidade de improvisação. Talvez tenha sido este traço da sua personalidade que o fez, logo depois, aproximar-se e se dedicar, também, ao som que fazia a cabeça de Miles Davis ou Gizzy Gillespie, por exemplo, o jazz, gênero pelo qual foi apaixonado. Foi neste diapasão, em um meio fio entre o erudito e o popular, que Cabelo arrancou elogios até do exigente maestro Júlio Medaglia — que o conheceu durante uma apresentação na Serra da Cantareira, em São Paulo. Cabelo viajou muito pelo Brasil e também cruzou fronteiras para levar sua música a outros rincões, como ocorreu em 2008, quando esteve em turnê pelo Uruguai.

Talento, competência e genialidade não são, portanto, meros lugares comuns quando a obra do músico humilde que veio do campo é revisitada. O maestro, como também ficou amplamente conhecido, lançou ainda, em 2011, em Jacarezinho, o álbum intitulado Minhas Influências. Das 17 músicas deste novo trabalho, 15 são composições próprias que passam por homenagens ou mesmo releituras de temas consagrados da música brasileira. Recorda, por exemplo, baluartes como Baden Powell, Paulinho Nogueira, Waldir Azevedo, Dilermando Reis, entre outros. Cabelo comentou à época do lançamento que o disco resultara de uma vida e dos sentimentos mais caros que o ligam a Jacarezinho. Foi lá que recebeu o primeiro prêmio como violonista, no já referido programa de auditório para calouros chamado A Bola da Semana, da Rádio Difusora, e começou a incursão pelo universo musical, influenciado por músicos como Pedro Jovanácio e Aparecido do Cavaquinho e Anésio Duarte, que integravam um grupo especializado em choros que também acompanhava novatos em programas de rádio na década dos anos 1960.

Outros projetos de Cabelo

Apresentou-se nos seguintes espaços curitibanos: Teatro Paiol, com José Oliva e Zé Leite, no espetáculo Parceria, e com Tatára, em Jogo de Espelhos; Teatro Guairão, em Homenagem a Lápis , o compositor Palminor Rodrigues Ferreira, e participando de projetos do Governo, como O Brasil de todos os povos e Projeto Dez e Meia.

Atuou como diretor musical e arranjador em vários discos, como Desarmamento infantil, de Eron Viana; Olhos de luz, de Hilton Barcelos; Mundo criança, de Plínio de Oliveira; Lamento da asa branca, de José Alexandre Saraiva, premiado na França (categoria Música Instrumental); Luz e cais, de Gil Gabriel; A caminho do céu, de Adriano Sátiro; O menino maluquinho, sobre personagem de Ziraldo, de Rosi Greca, interpretado por Tetê Espíndola, e vários outros.

Apresentações em São Paulo, com participações especiais ao lado das gêmeas Célia e Celma, no Projeto Ary Barroso, no Sesc Pinheiros; no espetáculo Tocando Chamamê, ao lado do violeiro Fernando Deghi e do Maestro Marinho, no Sesc Ipiranga; no projeto Agência Aids Novos Talentos da MPB, também no Sesc Ipiranga, com apresentação solo de O vôo do beija-flor.

 

Para a TV, em Curitiba, gravou programas de entrevista como  Mulher, de Laís Mann (Rede Bandeirantes); Tons do Brasil, de Plínio de Oliveira,  e outros como Augusto Canário, Baruk ( CNT). Na  TV Educativa, Especial da Reinauguração do Teatro São João na Cidade da Lapa, sobre direção de Luis Tovar;  e Rede Vida, Progama Ponto de Encontro Cultural. Já em São Paulo, na TV Cultura, o programa da apresentadora Soninha, Célia e Celma, no Canal Rural; Comando da Madrugada, de Goulart de Andrade, na Rede Bandeirantes.

Seis meses antes de partir fora do combinado, o músico paranaense ocupou o palco do Sr. Brasil e gravou participação no programa de Rolando Boldrin ao lado da conterrânea Eliane Bastos (Foto: Daniel Kersys)

Cabelo também esteve no programa Sr. Brasil, de Rolando Boldrin, da TV Cultura, quando dividiu o palco com Eliane Bastos (Pitanga/PR) sua parceira no recital e no álbum João e Maria. Ambos apresentaram três das 13 canções do disco (Atriz, de João Gilberto Tatára; Vento Bravo, de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro; e Corsário, de João Bosco e Aldir Blanc) além do instrumental solo Thomaz Alvarez, de O vôo do beija-flor. “Vivi naquela noite um dos momentos mais importantes de minha história dentro da música, algo que ficará marcado para sempre”, disse Cabelo sobre a experiência. Eliane Bastos também não escondeu a emoção: “Foi um momento inesquecível, afinal não é sempre que a gente está do lado de lá da tela, fazendo com amor e alegria o que Deus nos deu para fazer, música, e ao lado de quem entende muito disso e são dois grandes mestres: Rolando Boldrin e o parceiro João (Romano Nunes Cabelo)!”

João e Maria, sucesso de crítica que ganhou projeção nacional, apresentava poesia e mesclava guarânias, bossas e jazz em peerfeita harmonia entre a voz de Eliane e o virtuosismo de Cabelo ao tocar, incluindo entre os já referidos violões, viola caipira e guitarra (que dominava com maestia) o buzuki, instrumento grego.

N.R.: *Em todo o texto o substantivo masculino comum voo, como se deveria grafá-lo desde 2009, foi mantido com o acento circunflexo vigente até aquele ano em que passou a valer a Reforma Ortográfica dos Países de Língua Portuguesa em respeito à forma como está registrada no álbum O vôo do beija-flor

** Beto Feitosa é o jornalista natural de Niterói (RJ) Alberto Octaviano do Nascimento Feitosa Neto


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E no blogue Música do Paraná em http://musicaparanaense.blogspot.com.br/

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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