1020- Wescley J. Gama, compositor e poeta potiguar, volta à lista dos melhores discos do sítio Embrulhador com “Campos Grandes Reunidos”

as noites de dezembro
têm a pele muito fina
como o sono dos velhos
ou os dedos de uma aranha.
das noites de dezembro
pode-se ver o azul sonolento
das veias tão frágeis
e o relevo de suas vísceras.
as noites de dezembro
caminham nuas
pela cidade aberta
e as velhas nas calçadas
sorriem
escandalosamente serenas.
As Noites de Dezembro, #4 de Campos Grandes Reunidos

Poeta, contista, cantor e compositor potiguar, Wescley J. Gama mais uma vez está entre os contemplados com a Menção Honrosa do conceituado sítio Embrulhador. Ed Felix, jornalista responsável pela indicação, anualmente aponta quais seriam em sua opinião os 100 melhores álbuns de cada temporada, mas como praticamente avalia discos de todo o país, de todos os gêneros musicais (tanto físicos como distribuídos pela internet), abre a lista suplementar, na qual seleciona outros trabalhos que, em meio a tantos, julga merecem destaque.  A amostra de 2017, na qual consta Campos Grandes Reunidos, o terceiro de Wescley, exigiu de Felix ouvir nada mais, nada menos do que 1.557 (!) discos, lançados entre 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2017.

“Boniteza em que a vista e o ouvido encontram aconchego é o CD Campos Grandes Reunidos, de Wescley J.Gama, lançado em 12 de março [de 2016], em Currais Novos”, escreveu a escritora Carmem Vasconcelos para o jornal Tribuna do Norte. “A sensação forte de acolhimento não está só no veio telúrico que de pronto se anuncia e depois se confirma com a evocação de um Seridó a um só tempo arcaico e restituído, árido e afetuoso”, prosseguiu Carmem. “O aconchego desses Campos… se amplia para uma identificação para muito além do berço da terra seridolense. Identificamos (e nos identificamos) aqui acordes que nos contam como a vida vibrando sobre o mundo. Não só sobre a terra, a nossa, mas sobre o mundo, e o mundo são muitas terras.” 

Tanto a introdução da faixa-título, a segunda do disco, quanto Olívia e o Oceano (#5), têm solos de guitarra e de piano que prontamente remetem aos acordes do disco The Endless River, do Pink Floyd. E como não lembrar das letras surrealistas da banda de São Paulo Violeta de Outono e até mesmo de Zé Ramalho à medida que o álbum de módicos 39 minutos rolam?

Capas dos dois álbuns de Wescley J. Gama selecionados entre as Menções Honrosas por Ed Felix, jornalista produtor do sítio Embrulhador

Quatro anos antes da indicação para Campos Grandes Reunidos, com faixas que mesclam toques regionais,  rock e blues, Seridolendas, segundo CD da carreira de Gama, também garantira Menção Honrosa — mesma distinção conferida pelo Embrulhador naquele 2013, por exemplo, a estrelas nacionais como Marcelo Jeneci, Nenhum de Nós e Guilherme Arantes, entre 662 concorrentes.

Sobre este disco — que tem um delicioso assaisonnement ¹ conferido pelo sanfoneiro Parcélio, da dupla com Paulinho, de Parelhas (RN), e homenageia o poeta mato-grossense Manoel de Barros –, há um comentário de Sérgio Vilar publicado pelo blogue Substantivo Plural em de 15 de janeiro de 2014 que não deixa dúvidas quanto ao acerto do voto de Felix. “Fiquei deslumbrado com cada uma das 12 faixas. Seridolendas nos traz pureza interiorana mesclada à complexidade dos arranjos e à poesia de Iara Maria Carvalho. E nada de regionalismo (a exceção mais clássica talvez seja Coração Violento). A voz grave (me lembrou Samir Bilro) de Wescley conta histórias de arranjos próprios, singulares. É um CD original, fascinante, cheio de imagens por vezes surreais de baleias mortas em chãos rachados pelo sol. A beleza do disco começa já na capa: uma tela em acrílico assinada pelo artista plástico Assis Costa, intitulada Cabras do Sertão.”

 

Letras que passeiam pela poesia de Manoel de Barros e pela obra de Clarice Lispector, com conteúdos surreais e apresentadas com solos de guitarra que lembram o Pink Floyd e um tempero francês de sanfona: mais do que álbuns regionais, os discos de Wescley J. Gama buscam e trazem influências universais. Foto: Saulo Emanoel

O Barulho d’água Música recebeu exemplares dos dois discos de Wescley J. Gama, natural de São Vicente e hoje radicado em Currais Novos, ambas situadas no Rio Grande do Norte. Se por conta da segmentação “seletiva” do mercado e da indústria do jabá-entretenimento viciosamente concentrada no “Sudeste maravilha” o músico é pouco conhecido fora do seu estado, a obra que ele assina ecoa a opinião de Vilar e só tem merecido elogios da crítica em sua região. Gama já levou, por exemplo, duas composições às semifinais do badalado Festival de Música do Beco da Lama (Mpbeco), em Natal: Janela na manhã e Hoje não faço mais café, respectivamente participantes da II e III edição. Janela na manhã também foi classificada no 1º Festival da Canção e da Cultura Potiguar, promovido em 2008 pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Em 2014, Wescley concorreu no 1º Festival de Samba e Jazz do Seridó (Currais Novos) e, em 2016, ano de lançamento de Campos Grandes Reunidos, tornou-se finalista do edital Música é Energia – projeto do Som sem Plugs,  portal intermídia de produção e exibição de conteúdo original.

Wescley também recebeu indicação ao prêmio Troféu Cultura RN, tanto em 2015, quanto em 2016.  E a discografia inclui, ainda, chuva estiagem água lampiões (lançado em 2007 mais como um experimento poético). Paralelamente à carreira musical, ressalte-se que o potiguar fundador do Casarão da Poesia e produtor do blogue Planeta Jota também encanta os meios acadêmicos seridolenses e até importantes nomes da literatura universal. No ano passado, ele brindou amigos e admiradores com o livro Nove contos serranos e, como poeta, já se sagrou campeão dos três principais concursos de Poesia do estado: VII Concurso Luís Carlos Guimarães de Poesia (FJA, 2007); IV Concurso Zila Mamede de Poesia (Jornal Potiguar Notícias, 2008) e o IV Prêmio Rota Batida (Fundação Vign un Rosado). Mia Couto,  um dos maiores poetas da língua portuguesa, postou em sua página de uma mídia social (que à época, 25 de fevereiro de 2017, somava 465 mil seguidores) a belíssima canção Amanhecerá, gravado em parceria com a poetisa Iara Maria Carvalho em Campos Grandes Reunidos — no qual Clarice Lispector, a exemplo de Manoel de Barros em Seridolendas, outra paixão de Wescley, ganhou tributo.  A postagem do escritor e biólogo moçambicano autor de Terra Sonâmbula e Mulheres de Cinza ultrapassou mais de 50 compartilhamentos apenas no dia em que Couto a publicou.

¹O (bom) gosto de Wescley pelo Francês também está presente em Campos Grandes Reunidos, conforme se nota em Les nuites de décembre (#3), que é a tradução do poema de As Noites de Dezembro (de Theo Alves) para aquela língua, por Raphael Fernandes (Saco da Luiza, São Vicente/RN). E volta também na sanfona — agora tocada por Sergio Emanoel: prova de que a passagem de franceses (infelizmente para todos nós, como os holandeses, expulsos pelos portugueses)  no Rio Grande do Norte e em outros estados do Nordeste não foi em vão e também deixou suas marcas em nossas culturas e tradições!

 

 

Leia também no Barulho d’água Música:

913 – Tonino Arcoverde (PE) assina discos de puro regionalismo e poesia que os aproximam de obras literárias
792 – Parabéns, Paulo Matricó (PE), poeta do Pajeú que faz aniversário hoje
743 – Anchieta Dali (PE), músico com “sotaque refinado de poética social apurada”, receberá 2º Prêmio Grão de Música
Voa para fora da asa Manoel de Barros (MT), o poeta das coisas do chão

 

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