Barulho d'Água Música

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1022 – Acervo do Barulho d’água Música recebe os álbuns do são-roquense Edson D’áisa

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A redação e o cafofo do Barulho d’água Música estão sendo embalados nestes dias entre outras novidades pelos álbuns Todos os Cantos do Vale e Tua Obra, teu Pão, ambos do cantor e compositor Edson D’aísa.  Natural de São Roque (cidade distante 62 km de São Paulo), D’aísa despertou o interesse por música ainda na adolescência, influenciado na década dos anos 1980 por festivais estudantis, nos quais conseguiu várias conquistas. Como “minhoca da terra”, ele busca sempre em suas composições transmitir a essência das histórias e dos personagens que desenvolveram o seu lugar — dedicação e compromisso reconhecidos em 2006 quando o ProAc o contemplou pelo projeto Darcy Penteado na Canção. Já no ano seguinte, D’aisa gravou Todos os Cantos do Vale, seu primeiro álbum.

Totalmente autoral, o disco apresenta como convidados Lula Barbosa (faixa Por todos os Cantos II) e João Bid (Tua Obra, Teu Pão); em retribuição, Bid, depois, convidou o amigo para participar do álbum do Grupo Catavento O Tempo e a Paciência, na música Jabá. As histórias da aprazível cidade do Interior paulista situada na região de Sorocaba, a praça e seus frequentadores, a estação ferroviária, a antiga tecelagem (Brasital) na qual foram tecidos os fios de grande parte da essência são-roquenses e as raízes da estância turística estão demonstradas, com extrema sensibilidade, no poético Todos os Cantos do Vale. D’aísa enaltece, por exemplo, a figura de imigrantes que fortaleceram as origens na terra dos taxaquaras, sem se esquecer de valorizar o sangue dos negros quilombolas do Carmo, hoje um dos bairros locais, e outros tantos heróis que incluem personalidades ilustre como os atores Juca de Oliveira e Célia Biar

Artistas são-roquenses na inauguração do salão superior do São Roque Clube, prestigiada pelo maestro Gaó (de óculos), os artistas Juca de Oliveira (observando o conteúdo do estojo), Darcy Penteado (sorrindo) e Célia Biar (ladeada por sua mãe, à esquerda de Penteado). Foto: Acervo Zé do Nino disponível em http://www.arquivosaoroque.com.br/acervo/items/show/58

A proposta do álbum e do espetáculo que o apresenta é extremamente elucidante, pois oferece uma verdadeira aula de toponímia que envolve vários recantos de São Roque; a letra da música Por Todos os Cantos revela que a origem do município esta fincada no tupi-guarani que hoje sobrevive e resiste nomeando distritos como Guaçu, Sorocamirim, Carambeí, Taboão, Cambará, Aracaí, Capoava, Pirapora e outros com grafias indígenas. O comportamento das pessoas ao se defrontarem com diversos paradigmas que a sociedade pode oferecer também é um fio atado pelo compositor ao cantar, por exemplo, Amar o Planeta — uma provocação tanto à reflexão do nosso próprio modo de agir frente às pessoas que transitam pelas ruas, carregando o estigma da exclusão pelos mais diversos sentidos de deficiência, quanto uma referência direta ao andarilho Amaro, que viveu em São Roque.

Tua Obra, Teu Pão: Canções para Darcy Penteado, saiu em 2014. Gravado com as participações do violonista e filho Matheus Pezzotta (Escape Quarteto) e de Paulo Mantovani (clarinete/orquestra), produzido por Sérgio Feres (o Turcão, da dupla com Jica e ex-integrante do grupo Tarancón), o segundo álbum de Edson D’aísa presta tributo ao artista plástico nascido em São Roque e que, atualmente, dá nome a um dos bairros da cidade.

Um minucioso trabalho de pesquisa sobre fatos e fases da vida e obra de Penteado serviu como pilares para a construção das composições que resultaram no espetáculo homônimo ao álbum apresentado pelo trio, com duração aproximada de 60 minutos. O show prima pela transversalidade entre as linguagens artísticas da música, das artes plásticas e da poesia: as 10 faixas, de maneira intimista, formam o repertório que não segue uma cronologia e nem é linear no desenvolvimento musical. Precedidas por um texto poético de Durce Sanches (escrito especialmente para Tua Obra, Teu Pão…), as canções apresentam ritmos diversos (samba, bossa nova, marchas rancho, blues, valsa e outras), tal qual o estilo surpreendente do homenageado. Nesta montagem, a produção artística ganha reforço cenográfico para permitir que a cada canção uma tela de Penteado seja descortinada, remetendo a plateia às fases vividas pelo pintor e à intencionalidade de suas obras.

No palco, ao lado de Pezzotta (violão, direção musical e arranjos) e Mantovani (clarinete), D’aísa canta com sensibilidade as canções dedicadas ao compatrício. D’aisa é autor, ainda, de Nova Embarcação, incluída no primeiro CD de Priscila Lira; da letra do Canto de exaltação à São Roque, hino oficial do município; e da canção São Roque em Noite de Seresta, que abre o recente álbum gravado pelo Grupo de Choro, Seresta e Serenata de São Roque. Já dividiu o palco com artistas como o violeiro Paulo Freire e o compositor Paulo César Pinheiro. Militante cultural, dedica-se à Confaca (Confraria de Autores de Canções), projeto que idealizou junto aos compositores são-roquenses e que costuma se reunir no Centro Cultural Casa Rosa Manjericão — que D’aísa e a família mantêm. Entre 2012 e 2016, ele presidiu o Conselho Municipal de São Roque.

 Ativismo político e cultural*

Darcy Penteado (*1926/+1987, São Roque) cenógrafo e figurinista, artista plástico, desenhista, gravador e literato, trabalhou com diretores e dramaturgos dos mais representativos do teatro como Antunes Filho, Abílio Pereira de Almeida, Adolfo Celi e Antônio Abujamra e para casas de espetáculos ou companhias das mais renomadas, entre as quais o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), a Companhia de Nicette Bruno, a Escola de Arte Dramática (EAD) e a Companhia Tônia-Celi-Autran.

Com 10 anos mudou-se para São Paulo, onde concluiu seus estudos e desenvolveu o traço peculiar que rendeu contratos em agências e publicidade, de desenho industrial e como figurinista de magazines. Afastou-se do teatro durante algum tempo e retornou, em 1977, como figurinista de Volpone, de Ben Johnson, dirigida por Abujamra. Envolveu-se, na sequência, com produções consideradas supostamente obscuras até se lançar como autor em A Engrenagem, de 1978, com direção de Odavlas Petti, assumindo abertamente a homossexualidade — tema que seria explorado em sua primeira novela, A Meta, editada no ano seguinte.

Durante as três décadas em que morou em São Paulo, Darcy Penteado, entre outras atividades fora do teatro, protagonizou inúmeras exposições e ilustrou livros, mantendo-se, assim, presente na cena cultural da Capital até morrer, vitimado por AIDS. Sua biografia ainda registra intensa dedicação à luta contra a repressão antidemocrática dos anos de chumbo, notoriamente escrevendo para O Lampião da Esquina, jornal dedicado à defesa dos direitos dos homossexuais. Obras com sua assinatura podem ser contempladas no Museu do Centro Cultural Brasital, em São Roque, ou no Museu da Diversidade Sexual, na estação República do Metrô de São Paulo.

Serviço:

Brasital :Avenida Aracaí, 250, São Roque, telefone (11) 4784-3076
Centro Cultural Casa Rosa Manjericão na rua Antônio Cavalheri, 17

Leia também no Barulho d’água Música:

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Autor: barulhomarcel

Jornalista nascido em Bela Vista do Paraíso (PR). Corintiano por herança do pai, Geraldo Caetano de Lima. Do velho também puxou a paixão por modas de viola, música de raiz e caipira, que era chamada de "sertaneja" antes da mídia comercial se apropriar, indevidamente, do nome. Quando criança ouvia aos pés da cama dele, vindas de um rádio à pilha que chiava muito, clássicos destes gêneros que marcaram para sempre a sua vida. Eu e Andreia Beillo não temos nada em comum. Para começo de conversa, ela torce pelo Palmeiras. Mas resolvemos juntos botar o pé na estrada e acreditar nas bençãos de São Gonçalo do Amarante e tentar encontrar na atividade de blogueiros dedicados à música de qualidade algo que nos una e ajude muita gente boa espalhada por todo este país, e lá fora, também, a ter seus méritos reconhecidos, resgatando e preservando valores de nossa cultura popular.

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