1035 – “Clássicos do Mês”: Vitor Ramil funda nova identidade gaúcha com Ramilonga-A Estética do Frio

O Barulho d’água Música volta a publicar por meio desta atualização a série Clássicos do Mês, dedicada ao álbum Ramilonga-A Estética do Frio, do gaúcho radicado em Pelotas (RS) Vitor Ramil — lançado em 1997, o quinto da discografia de onze títulos que, recentemente, recebeu o acréscimo de Campos Neutrais. Cantor e compositor, irmão da famosa dupla Kleiton e Kledir, Vitor Ramil também é escritor e possui entre seus livros um título dedicado ao tema do famoso disco, A Estética do Frio, publicado sete anos depois daquele. Tanto o disco, quanto o livro, têm sido objeto de ensaios, pesquisas, artigos e outros estudos acadêmicos — dentro e fora do país,  portanto, para além do Rio Grande do Sul — devido à repercussão e à importância alcançadas pelas teses que Ramil apresentou por meio de ambos, inaugurantes de um novo movimento artístico e cultural cujo maior valor é o de constituir e procurar afirmar uma nova identidade tanto para o gaúcho, quanto para uruguaios e argentinos.

Pela contundência de suas ideias, pela originalidade de sua concepção, Ramilonga – A Estética do Frio é uma espécie de marco zero na carreira de Vitor Ramil. Escorando-as em sete pilares filosóficos, ele funda o que seriam as sete cidades da milonga, ritmo comum ao Rio Grande do Sul, ao Uruguai e à Argentina: Rigor, Profundidade, Clareza, Concisão, Pureza, Leveza e Melancolia. Por meio delas, a poesia de onze ramilongas busca percorrer o imaginário regional do gaúcho mesclando o linguajar gauchesco do homem do campo à fala coloquial dos centros urbanos. A reflexão acerca da identidade de quem vive no extremo Sul do Brasil começa pela recusa aos estereótipos do gauchismo; o canto forte dá lugar a uma expressividade sofisticada e suave; instrumentos convencionais são substituídos por outros, como os indianos e os africanos, nunca antes reunidos neste gênero de música.

Conforme o próprio Vitor Ramil expôs na Conferência de Genebra, em 2003, a Estética do Frio seria uma contrapartida àquela que, fundada em valores associados a uma vida supostamente idílica ou, no mínimo, extrovertida, normalmente é tida como a estética unificadora dos brasileiros, mas que, por ser lastreada em ritmos e temas alegres, ligados a um suposto modus vivendi tropical, não tem contribuição significativa do Rio Grande do Sul. De forma recíproca, o gaúcho também não se reconhece nesta unidade, assim persistindo seu histórico sentimento de exclusão ou, para dizer o mínimo, de incerteza quanto à sua brasilidade. Para este sentimento, que remonta pelo menos aos tempos imperiais, contribuíram a Revolução Farroupilha e seus legados diretos: o estigma bélico e a fantasmagórica ideia separatista, que parece nunca deixar de ser uma ameaça no mais meridional dos estados brasileiros, conforme aponta em dos ensaios nos quais o Barulho d’água Música se apoiou Cristiano Paulo Pitt, Mestre em Letras pela Universidade de Caxias do Sul e professor Assistente na Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves.

Oposição aos esteriótipos

Pitt prossegue afirmando que Vitor Ramil, consciente e acometido vez ou outra destes problemas de criação artística – e mesmo identitária – , em oposição ao calor dos trópicos e sua música extrovertida, elege o frio como símbolo da arte não apenas do Rio Grande do Sul, mas também de países próximos, particularmente Uruguai e Argentina, alegando haver entre eles uma proximidade histórica e um ponto cultural em comum: a figura estereotipada do gaúcho. O frio é, portanto, o ponto de partida desta reflexão.

Como equivalente musical desta simbologia, Ramil identifica a milonga campeira ou pampeana, gênero igualmente comum ao Rio Grande do Sul e seus países vizinhos, “inexistindo no resto do Brasil”. Para ele, “por sua poderosa sugestão formal, a milonga, na descrição mais generalizante a que se pudesse chegar de uma estética do frio, não estaria nunca menos que na subjacência”. Esta “sugestão formal” quer dizer uma música “quase sempre em tom menor; simples e monótona, segundo a definição de um dicionário; repetitiva, emocional; afeita à melancolia, à densidade, à reflexão; (…) cuja espinha dorsal são o violão e a voz”. Com este coerente ideário, aqui muito resumidamente descrito, o cantor alcançou o álbum Ramilonga – A Estética do Frio, cujo título, como se vê, é a própria fusão de seu nome com o do gênero escolhido para representar a sua proposta estética.

Pitt propôs a investigação da aplicação dos sete valores da Estética do Frio – e, ao mesmo tempo, examinar seu posicionamento em meio ao processo de modernização da sociedade – na música-título, que, não por acaso, é também a que abre o disco. “Ramilonga”, a canção, parece condensar ideias recorrentes na obra de Vítor Ramil e, especialmente, no trabalho que intitula: um ar de indefinível saudade, lirismo e observação do cotidiano. Mais adiante no ensaio, Pitt tenta determinar até onde chega esta proposta declaradamente regional, mas, atendo-se àpenas a faixa de abertura, observa que esta tem ambientação exclusivamente urbana, contrastando com o estereótipo ruralizado do gaúcho pampeano.

 

Alguns dos valores da Estética do Frio são perceptíveis antes ainda que se ouça a voz de Ramil. A introdução antecipa, melancolicamente e com muita clareza, o que virá na letra, com destaque para o violão, que lhe confere ares regionais, à moda do nativismo. O primeiro verso, impactante, parece apresentar, de forma clara e concisa, o ambiente projetado para o álbum: “Chove na tarde fria de Porto Alegre”. Em meia dúzia de palavras, já temos um espaço, a capital gaúcha; uma provável referência cíclica de tempo, a do inverno gaúcho; um clima, o subtropical, gaúcho; e uma melancolia profunda, expressa pela combinação entre chuva, frio e o tom de voz do cantor. Um início arrebatador em termos de rigor estético. O autor chama a atenção do leitor que, em um punhado de frases, citou os valores da Melancolia, da Concisão, da Clareza, do Rigor e da Profundidade, e isto comentando apenas a introdução e o primeiro verso da música.

O ensaio de Pitt tem, ao todo, 11 páginas e poderá ser acessado e lido em formato PDF pelo linque que seguirá abaixo. O álbum Ramilonga-A Estética do Frio poderá ser baixado em formato MP3 do blogue Brasil de Dentro, que também disponibiliza Estrela, Estrela (álbum de estreia, lançado em 1981); A Paixão de V segundo ele próprio (1984); Tango (1987); À Beça (1996); Tambong (2000); Longes (2006); Satolep Sambatown (2007); Elas Cantam Vitor Ramil (2008); e Délibáb (2010).  Quem quiser comprar os discos físicos, livros, camisetas e songbooks de  Vitor Ramil poderá acessar a loja virtual hospedada no portal eletrônico http://www.vitorramil.com.br/

Campos Neutrais

Vitor Ramil começou a carreira artística ainda adolescente, no começo dos anos da década de 1980. Membro de uma família de músicos – com dois irmãos também cantores, Kleiton e Kledir, e um primo músicoPery Souza – aos 18 anos de gravou Estrela, Estrela, disco de estreia, com a presença de músicos e arranjadores que voltaria a encontrar em trabalhos futuros, como Egberto GismontiWagner Tiso Luis Avellar, além de participações das cantoras Zizi Possi e Tetê Espíndola. Neste período Zizi gravou algumas canções de Vitor, e Gal Costa  gravou a versão dela para Estrela, Estrela no disco Fantasia.

 

Vitor Ramil é um artista muito ligado a seu chão, à sua terra, o Rio Grande do Sul – mesmo que suas influências musicais transitem de forma bem abrangente, entre a canção brasileira e a internacional, comentou Adriana Del Ré, jornalista de O Estado de S.Paulo em matéria publicada em 14 de janeiro na versão eletrônica do periódico paulistano para anunciar que o gaúcho estaria em São Paulo para lançar Campos Neutrais em show no Sesc Pinheiros, no dia 4 de fevereiro.

Segundo historiadores, instaurou-se uma zona neutral na fronteira do Estado, após a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, pelos reinos de Portugal e Espanha. Essa área estava delimitada entre os territórios de espanhóis e portugueses. Ficou conhecida como Campos Neutrais, atraindo povos de diversos idiomas, origens, culturas. Um símbolo de liberdade, diversidade. A áurea dessa Torre de Babel em terras gaúchas conduz à essência das 15 canções, inéditas, assinadas por ele e algumas em parceria do novo álbum, ora com letras em português, ora em espanhol, ora em inglês, numa propulsão de temas e ritmos.

“Na hora que fui selecionar o repertório do disco, tinha muita música inédita, e eu tinha essa canção, Campos Neutrais, que, para mim, era a que mais me parecia norteadora em termos de harmonia, letra, melodia, de tudo”, contou a Adriana Del Ré. “Fui me dando conta de que eu tinha músicas em mais de um idioma; tinha versão para música do Bob Dylan; poema do António Botto, poeta português; parcerias com Chico Cesar e Zeca Baleiro.”

Acesse o ensaio de Cristiano Paulo Pitt visitando o linque: 

seer.ufrgs.br/NauLiteraria/article/download/24712/22158

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