1076 – Xaxado Novo (SP) lança segundo álbum com registros de show promovido no Auditório Ibirapuera

O Xaxado Novo, formado em 2013 e, atualmente, integrado por cinco músicos paulistas, está lançando o segundo álbum, Xaxado Novo ao Vivo, registro sonoro com 13 faixas da apresentação promovida em 10 de dezembro de 2016, no Auditório Oscar Niemeyer do Ibirapuera, em São Paulo, experiência que o grupo relata como “noite mágica e encantada, que marcou nossas vidas e apresentou um espetáculo único e inédito, que sempre sonhávamos fazer”. Para ser gravado, o disco finalizado em maio de 2017 utilizou recursos dos próprios músicos somados à vaquinha virtual (crowdfunding) pela plataforma Catarse e conta com as participações de Gabriel Levy (sanfona), Ricardo Herz (violino popular) e Orkestra Bandida (coletivo dedicado à difusão de música oriental) que dividiram o palco do Ibirapuera com o Xaxado Novo.

O repertório deste trabalho ao vivo aproveita parte das 12 que entraram no primeiro disco, Sertão Cigano, mescladas a faixas inéditas. Sertão Cigano saiu em 2016, ano no qual o Xaxado Novo ainda reunia Davi Freitas, Felipe Gomide, Bruno Duarte e Marcus Simon – um quarteto, portanto, de três paulistas e um gaúcho que, como muitos, amam os Beatles e os Rolling Stones, mas queriam ir além destas influências ao começarem a tocar juntos, encontrando uma “pegada” com a qual pudessem construir e afirmarem identidades próprias, refletindo em suas composições um estilo genuinamente nacional. E a cidade de São Paulo, onde viviam e ainda residem, conforme apontou Felipe Gomide ao conversar com o Barulho d’água Música, acabou por inspirá-los, menos por suas características de metrópole e mais por representar um caldeirão no qual fervem vários elementos culturais de várias partes do país, com forte presença de migrantes nordestinos e, por legado destes, ritmos como maracatu, coco, xote e baião, manifestações que trazem em seu bojo indeléveis marcas de brasilidade.  

 

A partir desta constatação e da escolha destes estilos para nortear a produção musical do grupo, o então quarteto deu início às pesquisas para a formação de repertório e complementou os estudos colocando mochila às costas e o pé na estrada para baixar nos quintais onde brotaram Ariano Suassuna e Gonzagão, entre outros luminares lá de cima do país. Indo ao berço daquelas manifestações para melhor entendê-las e retransmiti-las com as devidas essências e singularidades, durante às jornadas pelo sertão nordestino os músicos encontraram, ainda, e valorizam, também, elementos históricos de diversos povos que influenciam a formação da cultura nordestina, como ciganos e árabes.  

O Xaxado Novo, então, optou por utilizar instrumentos como a rabeca — que se espalhou pelo Nordeste no século XVIII –, e também o sousafone, o surdo de samba e o davul, começando por ai a se diferenciar de outros comumente  tratados por “grupos de forró”. Em seu portal, o Xaxado Novo escreveu em um texto de apresentação que Luiz Gonzaga – ícone máximo do forró e principal influência do grupo – já dizia que, antes de a sanfona chegar ao sertão, os forrós eram animados por rabequeiros.  Assim, para valorizar também essa tradição, o Xaxado Novo optou por utilizar o instrumento que tem sua origem no rebab árabe em seus shows. A inovação também se nota na troca da zabumba pelo davul, tambor de origem oriental muito utilizado nas festas populares do Leste Europeu.

O título Sertão Cigano, escolhido para batizar o CD abre-alas, já demonstrava esta intenção de explicitar os elos entre a música do Oriente e a do sertão nordestino — mais do que eficiente estratégia para fugir de rotulações e se colocar como grata novidade em um nicho de mercado no qual não são poucas as aves de arribação e que artistas que realmente se dedicam a resguardar costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças e lendas que delineiam o Brasil fora dos eixos comerciais ralam para cavar um lugar ao sol e sobrevivem quase como quem enfrenta procelas de uma seca. 

De certa forma, grupos como o Quinteto Armorial, Cordel do Fogo Encantado e Mestre Ambrósio já haviam empunhado esta bandeira de valorização e a missão de levar ao restante do país os ritmos nordestinos, mas os jovens do Xaxado Novo decidiram agregar temperos cosmopolitas e o som cigano oriental a baiões e xaxados e, seguindo os passos de Lampião, mergulharam, também, na literatura de cordel, descoberta que rendeu um poema impresso, Xaxado Novo no sertão, vendido em shows e pelas redes sociais. 

O Xaxado Novo, assim, consegue tanto resgatar aqueles ritmos tradicionais, aproveitando para homenagear grandes mestres da cultura popular brasileira, quanto propor um passeio musical eclético e interativo pelas diferentes culturas que contribuíram para a formação da música nordestina — que, por sua vez, tem rica participação na construção da identidade nacional. Para tanto, além da instrumentação inusitada e da originalidade dos arranjos, procura envolver as plateias com performances que em seus shows complementam um tripé que busca reforçar elementos do imaginário popular e cujos vértices estéticos são o figurino típico (com chapéus, gibões, alparcatas, cintos), cenografia e as sonoridades, que os músicos empregam para fazer alusão a caboclos, vaqueiros e cangaceiros.

É com esta deliciosa e afinada mistura de elementos que o agora quinteto leva ao palco a alegria do Xaxado Novo e põe as cadeiras da plateia para chacoalhar ao som que pode vir tanto de antigos temas de sanfonas de oito baixos, quanto de músicas que utilizam escalas orientais (makams), passando pelo xaxado que o bando do lendário Virgulino Ferreira da Silva curtia dançar quando não estava trocando chumbo com as volantes que o perseguia pelas caatingas. Com irreverência e sensibilidade artística, portanto, os cinco fundem ancestralidades e experimentações para retratar de forma genuína e cativante o que há de melhor na cultura brasileira e suas matrizes constituintes.

Festa na Mooca

O público paulistano teve oportunidade de conhecer o Xaxado Novo no domingo, 24, dia dedicado ao louvor a São João Batista, quando o grupo foi convidado para ser atração no Museu da Casa Brasileira. Para quem perdeu esta chance ou quer repetir a dose, a dica é: no sábado, 30 de junho, cole na rua Visconde de Parnaíba, 1253, Mooca, onde será promovido o último final de semana do Arraial nos Trilhos, evento que oferece uma programação musical regada a comida e bebidas típicas de festas juninas, a partir das 12 horas.  O Xaxado Novo vai tocar no palco no qual serão protagonistas, também, a banda Bicho de Pé, David Carneiro, Rafael Telefone e Quadrilha Asa Branca, com entrada cotada a R$ 20. 

A agenda do Xaxado Novo informa ainda apresentações no Espaço Nossacasa Confraria de Ideias, na Vila Madalena, em São Paulo (05/07), no Espírito Santo (Fenfit Itaúnas, 20/07) e em Goiás (Encontro de Culturas, 24/07).

O texto a seguir e o do quadro abaixo foram compartilhados por Felipe Gomide com o Barulho d’água:

Ciganos e vaqueiros, andarilhos e cangaceiros. Desde os primórdios da colonização o sertão nordestino é palco de um efervescente caldeirão cultural. O isolamento geográfico, aliado à rica variedade de culturas e povos que habitaram a região, fizeram com que se desenvolvesse uma infinidade de manifestações culturais populares, nos mais diversos setores da arte. Nesse sentido, é grande a importância da cultura árabe, da contribuição dos escravos mouros, dos ciganos e judeus que até hoje habitam a região. O domínio islâmico na Península Ibérica também foi um caminho dessa influência. A rabeca, instrumento derivado do ‘rebab’ árabe, chegou pelos portugueses e logo se disseminou por todo o sertão, animando os batuques ao lado da zabumba, ou ‘davul’, como o instrumento é conhecido em países como Egito, Turquia e Grécia.

É bebendo dessas fontes que surgiu o Sertão Cigano, disco de estreia do grupo Xaxado Novo, formado em 2013 na cidade de São Paulo. Com rabeca, violão, davul, e percussões tradicionais e étnicas, são tocados xotes, baiões e xaxados, sempre com os temperos do Oriente, verificado especialmente em músicas autorais como Forró Cigano, O Sopro, Me Embelezo e Pé de Sete. O disco ainda traz a participação especial de Gabriel Levy (Mutrib, Mawacca) na sanfona e Mário Aphonso III(Arabesque, Orkestra Bandida) no clarinete turco. A mixagem ficou por conta do pernambucano Buguinha Dub [Christiano da Costa Botelho da Silva], conhecido por assinar trabalhos de grupos como Cordel do Fogo Encantado, e responsável por trazer elementos modernos e inovadores ao som, além de registrar com fieldade os instrumentos de sua terra natal.

A capa do disco foi feita pelo mestres das xilogravuras, J. Borges, um dos principais expoentes da tradição no país, encomendada durante viagem de pesquisa musical do grupo pelo interior do Pernambuco e Paraíba. Além das músicas próprias, foram feitas três homenagens à baluartes da cultura popular, com releituras de Óia a Pisada, Xaxado Bossa Nova e Ouricuri, clássicos imortalizados por Luiz Gonzaga, Trio Nordestino e João do Vale.

Como já dizia Câmera Cascudo, “a memória é a imaginação do povo, mantida pela tradição, movimentando as culturas”. E nesse sentido o Sertão Cigano traz uma importante contribuição à cultura popular, seguindo a linhagem dos consagrados mestres do pé-de-serra, e adicionando os elementos de um mundo com as fronteiras cada vez mais expostas.

 

Conteúdos correlatos a esta atualização já publicados no Barulho d’água Música:

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