1081 – Conheça a obra de Cícero Gonçalves, violeiro de Teófilo Otoni (MG) que está lançando Pintura

O novo disco é o terceiro da carreira que em seu início recebeu importante apoio de Victor Martins, parceiro de Ivan Lins em Bandeira do Divino
Marcelino Lima

O acervo do Barulho d’água Música recebeu novas contribuições, gentilmente cedidas pelo cantor e compositor Cícero Gonçalves, mineiro de Teófilo Otoni que cresceu em Francisco Badaró, cidade do Vale do Jequitinhonha, região onde absorveu a base de sua cultura e aflorou a sua vocação musical. Atualmente residente em Piedade, cidade da região de Sorocaba a cerca de 100 quilômetros da capital paulista,  Cícero Gonçalves,  lançou Pintura recentemente, um dos álbuns que repassou ao blogue, junto com Na Outra Margem do Rio, de 2004. A discografia de Gonçalves conta ainda com Oferenda, mas este se encontra esgotado.

Cícero Gonçalves participa de vários projetos, pesquisando e adaptando vários clássicos do cancioneiro popular brasileiro e ocupa espaços alternativos  da cultura popular.  A partir de 1985, ainda no Vale do Jequitinhonha, inscreveu-se e venceu festivais de Musica Popular Brasileira (MPB), começando a difundir sua música também em shows por todo o estado de Minas Gerais. Nos giros da vida, em 1998, quando cantava em um restaurante japonês estabelecido no elegante bairro Jardins, em São Paulo, encontrou o compositor Victor Martins (parceiro de Ivan Lins em Bandeira do Divino), que dirigia  a gravadora Velas. Interessado pelo trabalho do mineiro, Martins convidou-o para gravar pelo selo. Assim, em 1999, saiu Oferenda, sob produção de Geraldo Vianna, com o qual vislumbrou poder crescer no cenário musical brasileiro.

O álbum seguinte, Na Outra Margem do Rio, é de 2004. Com direção e arranjos de Vidal França, traz 14 belas faixas entre musicas autorais e de outros compositores novos ou pouco conhecidos do grande público, mas com qualidade e nível artístico altíssimos. Pintura também reúne um time de afinados músicos e colaboradores, com composições que procuram criar uma atmosfera para cada momento e cada sentimento, ajudando a compreender melhor as relações homem-natureza. A meta é desenhar com as cordas da viola caipira em dueto com sua voz a beleza da natureza, o encanto da vida e a plenitude do amor.

Levi Ramiro toca sua viola em Notícias do Sertão, crônica que está na faixa 5 de Pintura, música também gravada por Jackson Ricarte

A viola de dez cordas, apontou Cícero Gonçalves, é um instrumento que traz consigo diversas histórias, tradições, vivências, mitos e causos que sempre estiveram inseridos no contexto da cultura caipira, representando a musicalidade do homem do campo e de suas manifestações, seja no contexto religioso ou nas festas tradicionais locais. Esta amálgama está presente em Pintura, que tem produção executiva de Pitikka Avila e arranjos de Cícero e de Marcos Azevedo, que também toca contrabaixo e violão de aço, de naylon e de 12 cordas no álbum. Levi Ramiro também entrou em estúdio com suas violas para uma luxuosa participação em Notícias do Sertão (uma bela crônica que Cícero assina em parceria com Antonio Braga sobre o desaparecimento de antigos costumes no sertão – onde já não existe mais “cantadô” e “dá no peito um nó que mágoa” quando “o gado muge no espigão”; Jackson Ricarte  gravou Notícias do Sertão em seu álbum de estreia, Estrada Afora). Outro nome bastante conhecido e querido no meio musical, André Rass, assina a percussão de Pintura, que escalou ainda João Paulo Magnossão Crisci (acordeon) e Marcelo Karyki (contrabaixo).

Entre os letristas, além de Antonio Braga, encontra-se no livreto os nomes de Bilora, Davi Frozza, Zé Alexandre, Luis Avelima (coautor de Sertões, que Ricarte também gravou, com participação de Socorro Lira), João Klinger, Mário Lisboa, João Evangelista Rodrigues, Hilde Moreira, Júlio Santin, Waldinai Ferreira e Cida Santos.

Marcos Azevedo toca contrabaixo e violões no terceiro disco de Cícero Gonçalves (Foto: Marcelino Lima/Acervo Barulho d’água Música)
Resposta a dino franco e morai

Hilde Moreira e Cícero Gonçalves são autores de A Resposta do Ponteiro, que vale a pena destacar aqui. A música resgata um gênero já há algum tempo pouco utilizado pelos compositores da roça — o da resposta a alguma canção canônica do universo caipira. Moreira e Cícero, neste caso, confrontam a letra de Travessia do Araguaia, no qual Dino Franco e Morai narram o sacrifício de um boi velho, ordenado pelo capataz, que determina a um dos seus peões jogar o animal, sangrado, nas águas infestadas de piranhas para que a tropa e a boiada possam atravessar em segurança. Um dos ponteiros da comitiva, moço novo e inexperiente, critica a decisão do comandante, que classifica por “barbaridade”. Ao ouvi-lo, o capataz se sai com essa: “aprenda esta verdade/Que Jesus também morreu pra salvar a humanidade”.

Ao recordarem esta mesma passagem, mantendo os personagens e o cenário, Cícero e Moreira constroem um novo diálogo e assim se contrapõem a Dino Franco e Morai: “O ponteiro respondeu com muita sabedoria/Jesus morreu por amor, não foi por não ter valia/por causa desses pecados que Jesus morreu um dia/jogar um velho boi nágua pra mim foi covardia”.

Ferreirinha, uma das obras primas de Carreiro e Carreirinho, é, de acordo com o jornalista, escritor, pesquisador e amante da música caipira José Hamilton Ribeiro, uma das modas campeãs em resposta. Em sua obra Música Caipira: As 270 maiores modas (Realejo Livros, 2015), Zé Hamilton aponta à página 357 que no livro De Repente a Viola os goianos Álvaro Catelan e Ladislau Couto relacionaram  nada menos que 13 modas-respostas para Ferreirinha, compostas ou interpretadas por expoentes dos quilates de Teddy Vieira, Tião Carreiro e Pardinho, Sulino e Marrueiro, Pedro Bento e Zé da Estrada, Zilo e Zalo, Tonico e Tinoco e Bambico. Os goianos ainda deixaram passar em suas pesquisas Potro Preto, moda do próprio Carreirinho e Zé Procópio que estendem a triste desdita do moço encontrado morto pelo companheiro em uma restinga pelas bandas de Pardinho — cidade do interior paulista da região onde também esta Botucatu, parte da serra onde nasceu Angelino de Oliveira e Raul Torres.

Leia também no Barulho d’água Música:

659 – Ivan Vilela e José Hamilton Ribeiro, mediados por Sérgio Martins, falam sobre música caipira em festival literário de Santos (SP)
952 – Sesc São José dos Campos promove estreia do álbum Estrada Afora, de Jackson Ricarte
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7 respostas para “1081 – Conheça a obra de Cícero Gonçalves, violeiro de Teófilo Otoni (MG) que está lançando Pintura”

  1. Meu amigo Cícero, é com grande alegria que li essa página e me vi com vontade de conhecer mais seu trabalho. Parabéns, seu compromisso com a nossa cultura caipira é maravilhoso, e assim eu também me preocupo com com as maselas da mídia que vem empurrando lixo goela à baixo da nossa juventude. Abraços meu irmão.

    1. Boa tarde, Ednaldo, tudo bem? Obrigado pelo comentário, o Cícero Gonçalves além de um ótimo músico e compositor, é pessoa das mais boas! Quanto aos discos posso envia-los, por R$25, cada, mais R$10 dos Correios! Caso te interesse você pode fazer contato, novamente, que te informaremos dados!

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