1086 – Brasil dá adeus a Amaraí, eternizado por “Saudade de Minha Terra”

Voz que gravou uma das joias do nosso cancioneiro foi parceiro de Belmonte, com quem legou à cultura caipira mais de 20 sucessos de todos os tempos
Marcelino Lima

O corpo de Domingos Sabino da Cunha, o Amaraí, foi sepultado no domingo, 22, em Alfenas, cidade mineira na qual também descansa Índio Cachoeira, que morreu em abril. Amaraí não resistiu a um infarto sofrido na véspera e deixou quatro filhos, entre os quais Francis Júnior, cantor que aparece no vídeo abaixo, compositor, músico, produtor e intérprete atual do antigo parceiro mais afamado do pai, Belmonte — que se chamava Pascoal Zanetti Todarelli e partiu tragicamente bem antes do combinado em 1972, vítima de um acidente automobilístico no interior paulista, prestes a completar 35 anos. Ao lado de Belmonte, Amaraí ganhou fama como um dos intérpretes da canção Saudade da Minha Terra, considerada o hino do meio caipira.

Amaraí e o parceiro são considerados após a explosão de Saudade da Minha Terra dois desbravadores do gênero quando ele ainda era chamado por sertanejo e conservava elementos de raiz, bastante diferentes do estilo atual, empobrecido e mercantilizado após ser rapinado pela mídia. Amaraí, entretanto, não é, oficialmente, autor da canção lançada em 1966, como até hoje ainda se atribui. Belmonte, na verdade, compôs o sucesso com Goiá, mineiro de Coromandel que morreu em Uberaba, em 1980, conforme consta à página 58 do livro Música Caipira/As 270 maiores modas (Realejo Livros, 2015), de José Hamilton Ribeiro.

Saudade da Minha Terra, entretanto, trouxe a consagração a ambos os parceiros e primeiros intérpretes, Belmonte e Amaraí, e jamais deixou de fazer parte da programação de emissoras de rádio e de festas de todo país e é justo que se associe também a Amaraí sua criação. Poética, a música já foi regravada por mais de 160 cantores, entre os quais a dupla Milionário & José Rico, Sérgio Reis, e Chitãozinho & Xororó. E não é a única que Amaraí cantou pelo Brasil inteiro ao lado de Belmonte, com o qual começou a carreira se apresentando em churrascarias de Goiânia (GO), em 1965, depois de tentar uma parceria infrutífera com Amoroso, dupla que gravou apenas um LP.

Natural da Bahia, Amaraí mudou-se para Goiás ainda garoto, aos oito anos de idade. Além de Saudade da Minha Terra, nos oito anos de carreira com Belmonte, ele e o paulista de Barra Bonita ajudaram a eternizar, ainda, mais de 20 sucessos conhecidos por todo Brasil tais quais Mercedita, Pombinha Mensageira, A Fronha, Desde que Te Vi, Morrendo de Amor, Entre Lágrimas, Lágrimas da Alma, Desventura, Te Amarei Toda Vida, Capricho do Destino, e Saudade de Goiás, joias de seis LPs originais que legaram e que juntos venderam mais de 2 milhões de cópias.  A dupla gravou inclusive em Espanhol versões de canções latinas que fizeram sucesso no mundo inteiro, principalmente boleros como Solamente Una Vez e Na Fronteira do México.

Goiá

Gérson Coutinho da Silva, o Goiá, coautor de Saudade da Minha Terra, além de compositor, foi radialista. Ainda pequeno gostava de recitar e incentivado pelo pai,  Celso Coutinho, de quem ganhou o primeiro instrumento musical — uma gaita–, logo passou a tocar um cavaquinho e em seguida, adotou o violão. Sempre curtiu poesia e trovas e estudou música com o maestro José Ferreira. Aos 18 anos , quando se mudou para Goiânia (GO), integrou  e formou o Trio da Amizade, com programas diários na Rádio Brasil Central. Goiá e os componentes desse trio foram os primeiros do estado de Goiás a gravar discos na capital paulista: dois discos 78 RPM, na Columbia.

Na cidade de São Paulo fez parte do elenco de diversas emissoras de rádio e suas composições foram gravadas por vários intérpretes — Pedro Bento e Zé da Estrada, Liu e Léu, Irmãs Galvão, Zilo e Zalo, Caçula e Marinheiro, Tibagi e Miltinho, Primas Miranda, Belmonte e Amaraí, Sergio Reis, Celia e Celma e muitos outros. Saudade da minha terra, feita em parceria com Pascoal Todarelli, o Belmonte, e gravada inicialmente por Belmonte e Amaraí, foi o seu maior sucesso.

Em seu blogue, o GGN, o jornalista e crítico Luis Nassif publicou em 5 de agosto de 2014 um texto de João Paulo Caldeira, Goiá, o poeta de Coromandel que detalha a história e a inspiração de Goiá que motivaram a composição de Saudade de Minha Terra:

“Corria o mês de Novembro de 1955.

Goiá escreveu a música logo que se transferiu de Goiânia para São Paulo.

Com saudade de Coromandel (MG), sua terra natal, vagava pelas ruas dessa grande metrópole, recordando seus tempos de infância, as poéticas madrugadas, o cantar da passarada.

Alguns anos mais tarde, quando foi gravada pela primeira vez, ele ficou surpreso com o sucesso alcançado.

Segundo Goiá, quem chorava com o rádio ligado, era a sua mãe! “

Goiá deixou diversas composições que se tornaram sucessos e também dele a trilha sonora composta para o filme A Vingança de Chico Mineiro, embora, ao que conste, aponta o autor do artigo, ele pouquíssimo recebeu por um trabalho de tão boa qualidade. 

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