1095 – Lírica, engajada e cáustica, obra de Gonzaguinha ganha brandura e delicadeza na voz de Mirianês Zabot (RS)

“A voz suave de Mirianês Zabot desliza com segurança pelas canções de Gonzaguinha. A delicadeza dos arranjos ressalta um estilo próprio e é mais do que um convite para se deliciar com os dois: Mirianês e Gonzaguinha”.
Regina Echeverria. Jornalista e biógrafa, autora de Gonzaguinha e Gonzagão Uma História Brasileira, em que se baseou o filme Gonzaga De Pai pra Filho.
Marcelino Lima, com  texto de Oscar Pilagallo, jornalista e escritor

No ano em que o país lembrou um 25 anos do adeus prematuro a Gonzaguinha (2016), a cantora Mirianês Zabot “com voz distinta, suave e límpida” renovou entre nós,  amigos e fãs da obra do filho do Velho Lua, a certeza da eterna presença do compositor carioca, conforme observou à época o jornalista e escritor Oscar Pilagallo. Marianês acabar de gravar o álbum que recentemente enviou para o Barulho d’água Música em tributo ao cantor e compositor de Sangrando,  “com um poder balsâmico capaz de ao cantar transformar aspereza em brandura, rascância em delicadeza, derramamento em contenção”, ainda conforme o texto de Pilagallo — que, abaixo, a partir do segundo parágrafo, seguirá na integra. “E tudo isso enquanto, mais do que preservar a essência do cancioneiro do homenageado, empresta-lhe novas e insuspeitadas possibilidades de interpretação.”

“Há muito tempo que eu caí na estrada”, canta Mirianês, e o verso bem que poderia se aplicar à sua própria trajetória. Adolescente em meados dos anos [da década de]  90 [1990], ela deixou o distrito de São João Bosco, em Ciríaco (RS) desceu a serra gaúcha — como Gonzaguinha descera o morro São Carlos, no Estácio, na cidade do Rio de Janeiro — e fez o que o coração mandava: Pegou um sonho e partiu! Não por acaso, a frase batiza o álbum dedicado ao autor de Com a Perna no Mundo, uma das faixas mais autobiográficas do CD.

Gonzaguinha ganhou interpretações inesquecíveis de divas da música popular brasileira — entre elas Elis Regina, Maria Bethânia, Claudette Soares e Simone. Pois nessa constelação, a estrela de Mirianês, já vislumbrada no trabalho anterior, Mosaico Foto-Prosaico, pisca com uma luminosidade abundante, como a demonstrar que interpretações podem ser inesquecíveis, sim, mas não definitivas.

Em Maravida, Mirianês eleva o tom maior a um registro solar, que ilumina a exclamação “vida, vida, vida / que seja do jeito que for”. A faixa, aliás, que abre Pegou um Sonho e Partiu com a expressão “era uma vez”, sugere uma abordagem narrativa do projeto, confirmada pela escolha acertada do repertório, que passeia entre o lírico e o cáustico, o romântico e o engajado, trazendo à tona as várias facetas de Gonzaguinha.

Nas outras baladas, Mirianês sublinha com sutileza as intenções que lê nas palavras do compositor: é quase saltitante em Caminhos do Coração e de uma intensidade crescente em Sangrando, à qual imprime a marca indelével de introspecção genuína, também presente em Feliz — que, a propósito, recebe um eficiente tratamento blusístico.

A versatilidade de Mirianês sobra ao puxar os sambas contagiantes de Gonzaguinha. Transmite uma alegria libertadora em Com a Perna no Mundo, sabe sorrir do humor carnavalesco e nonsense de Desenredo (G.R.E.S. Unidos do Pau-Brasil), uma parceria com Ivan Lins, é mordaz na medida em Comportamento Geral e tempera ironia com solidariedade em Um Sorriso nos Lábios. Tivesse nascido na Lapa, melhor não faria essa gaúcha, carioca da gema por vocação e merecimento.

Pegou um Sonho e Partiu passa ainda pela bossa nova. Espere por Mim, Morena, MPB rasgada no vozeirão de Gonzaguinha, rende um momento intimista, que a aproxima daquela outra famosa morena, a dos olhos d’água. E De Volta ao Começo marca um encontro de gerações que fecha um círculo virtuoso — no caso, a reunião da primeira e da mais recente intérprete do compositor. Como polos opostos que se tocam, a emoção incontida de Claudette Soares e o controle estudado de Mirianês confluem para um dueto tão surpreendente quanto fecundo.

O álbum dedicado ao filho do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, visita, por fim, o Nordeste profundo com Galope, que dá vazão ao vocal enérgico de Mirianês, valorizado pelo andamento ligeiramente desacelerado e, sobretudo, pelo arranjo, que recobre o agreste da canção com uma sonoridade moderna, mas sempre fiel à sua natureza.

Respeito, não reverência; criatividade, não invencionice – talvez seja essa, a melhor definição dos arranjos assinados por Oswaldo Bosbah, também responsável, ao lado de Mirianês, pela produção musical. A banda é formada por Oswaldo Bosbah (arranjos, produção musical e violão), Marinho Boffa – pianista que acompanhou Gonzaguinha em show e gravação–, Mário Manga (guitarra e violoncelo), Welington Moreira, o Pimpa, na percussão, Pratinha Saraiva (flauta e bandolim), e dois ex-integrantes do Zimbo Trio: o baixista Itamar Collaço e o baterista Percio Sapia.

O álbum de Mirianês fecha com uma faixa bônus, Vidas Idas, um samba de Bosbah e Mirianês que dialoga com o universo do compositor. Por isso tudo, parafraseando Gonzaguinha, diga-se: quando ela soltar sua voz, por favor, escute.

Contestador desde pequeno, Gonzaguinha decolou para a breve, mas marcante carreira, em plenos anos de chumbo, sofreu perseguições, teve músicas censuradas, mas sempre seguiu em frente, segurando rojões até partir bem antes do combinado numa estrada do Paraná

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, conhecido por Gonzaguinha, nasceu no morro de São Carlos, no Estácio, na cidade do Rio de Janeiro, no dia 22 de setembro de 1945. Filho de Luiz Gonzaga e da cantora e dançarina Odaléia Guedes dos Santos, ficou órfão de mãe com dois anos de idade. Foi criado pelo padrinho Henrique Xavier e pela madrinha Dina. Vivia com dificuldades financeiras, mas no carnaval fugia de casa para brincar na avenida.

Gonzaguinha aprendeu cedo a fazer música no convívio com Pafúncio, membro da ala de compositores da Unidos de São Carlos. Os primeiros acordes de violão ele aprendeu com o padrinho. Do pai, recebia algum dinheiro para pagar os estudos e umas visitas esporádicas. O jovem ia crescendo e aprendendo as durezas da vida.

Com 16 anos, Gonzaguinha decidiu morar com o pai, para continuar os estudos. Na época, Helena, a esposa do Rei do Baião, não aceitou o garoto, a quem chamava “bastardo”. Sem muita opção, o menino aceitou completar os estudos como interno em um colégio. Em 1967, ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas Cândido Mendes, no Rio de Janeiro.

Suas primeiras composições surgiram quando passou a frequentar as rodas de violão na casa do psiquiatra Aluísio Porto Carreiro, pai de Ângela, com quem se casou e teve seus dois filhos mais velhos, Daniel e Fernanda. Nessa época, ele ficou amigo de Ivan Lins, César Costa Filho, Aldir Blanc e Dominguinhos, com quem fundou o Movimento Artístico Universitário (MAU). Logo começou a participar de festivais universitários de música, e em 1968 foi o finalista com a música Pobreza por Pobreza. Em 1969 ganhou o primeiro lugar com a música Trem.

Gonzaguinha transformava as dificuldades de sua vida em uma aguda consciência política e social, que se tornaria matéria prima fundamental de sua obra. A grande mudança em sua carreira veio em fevereiro de 1973, quando se apresentou no programa de Flávio Cavalcanti e cantou a música Comportamento Geral. Acusado de terrorista pelos jurados do programa, recebeu uma advertência da censura no dia seguinte, mas a polêmica causada levaria sua música a ocupar as paradas de sucesso e seu compacto logo esgotou.

Mirianês Zabot também participará da apresentação de Márcio Celli, em São Paulo

Nessa época, vivia-se um tempo de perseguições e de censura pelo regime militar e a música Comportamento Geral foi proibida em todo o país. Gonzaguinha foi levado ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) para prestar esclarecimentos. Mesmo com a perseguição e várias músicas censuradas (por sua postura crítica à ditadura ganhou o apelidado de “cantor rancor” e de 72 canções apresentadas, teve 54 censuradas), nos anos de chumbo ainda gravou Luiz Gonzaga Jr. (1974), Plano de Voo (1975) e Começaria Tudo Outra Vez (1976). Esse último disco representou uma virada na carreira: a música título foi um grande sucesso, e a partir dela suas músicas se tornaram mais românticas, mesmo sem abandonar as preocupações sociais.

Em 1979, na voz de Maria Betânia, o compositor estourava no mercado musical com Não Dá Mais Para Segurar, que ficou conhecida como Explode Coração. Durante a década dos anos 1980, com suas canções belíssimas, Gonzaguinha foi um dos compositores mais requisitados do mercado brasileiro. Teve suas músicas gravadas por Elis Regina (Eu Apenas Queria Que Você Soubesse), Agnaldo Timóteo (Grito de Alerta), Simone (Começaria Tudo Outra Vez e Sangrando), Fagner (Guerreiro Menino).

Em 1981, Gonzaguinha iniciou uma turnê pelo país ao lado de Luiz Gonzaga, com o show Vida de Viajante, o que selou o reencontro dos dois. Gonzaguinha é também pai de Amora, fruto de sua relação com Sandra Pera, do grupo As Frenéticas.

Os últimos 12 anos de vida Gonzaguinha os viveu em Belo Horizonte, com sua terceira esposa, Louise Margarete, com quem teve a filha Mariana. Faleceu em Renascença (PR), no dia 29 de abril de 1991, vítima de acidente de carro na BR 280, após uma apresentação em Pato Branco, município do mesmo Estado. Estava com 45 anos.


Oscar Pilagallo é jornalista, autor do ensaio musical-biográfico Roberto Carlos e do verbete sobre Yamandu Costa da coletânea Música Popular Hoje (ambos pela Publifolha). Escreveu também uma história geral da música brasileira para a Enciclopédia do Estudante, do jornal O Estado de S. Paulo. Trabalhou na BBC de Londres e é colaborador da Folha de S.Paulo e do Valor.

 

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