1096 – “Mestiçaria”, álbum de Lula Barbosa e Luciano Thel, celebra a miscigenação e o ecletismo que formam o brasileiro

O álbum, 14ª da carreira do paulistano que despontou com o vice-campeonato do Festival dos festivais é uma homenagem às nossas gentes,  sem a pretensão de ser panfletária, mas  autenticamente brasileiro
Marcelino Lima, com Osni Diaz e Luciano Thel

A audição matinal do sábado, 18 de agosto,  no boteco do Barulho d’água Música começou com Mestiçaria, um disco dos mais agradáveis de serem ouvidos não apenas pela voz cativante de Lula Barbosa, mas também pela sua proposta. O 14º álbum de Lula Barbosa saiu pelo selo independente Galeão dando alma a um projeto dele e do letrista Luciano Thel, coautor das músicas e produtor executivo da obra. Além da eclética base instrumental da gravação, Mestiçaria traz canções que celebram a brasilidade e repercutem o mito formador da amálgama chamada Brasil – sem perder de vista a perspectiva universalista das muitas matizes étnicas e culturais de nossas gentes. O álbum chegou até à redação enviado pelo amigo jornalista do Correio de Atibaia e professor de Jornalismo da Faculdade de Atibaia (SP), Osni Dias, a pedido de Thel, aos quais agradecemos.

Em seus shows para apresentar Mestiçaria, Lula Barbosa tem subido aos palcos ao lado de convidados especialíssimos:  Natan Marques (um dos arranjadores), Michel Freidenson (piano e teclados), Pichu Borrelli (baixo), Jica (percussão) e o próprio Luciano Thel. Para os estúdios, os créditos no álbum ainda revelam, Lula levou convidou Osmar Campos, Thadeu Romano, Leal Medina, Dora Meirelles, Ester Garcia, Patrícia Bastos e Filó Machado para tocar ou cantar em algumas das 14 faixas — que têm ainda parcerias de compositores como Zé Alexandre, Joãozinho Gomes e Paulo Delfino – todas alusivas ao povo, costumes e personagens brasileiros, celebrando todas nossas misturas e ecletismos, sejam culturais por meio de diversificados ritmos e arranjos, passando por letras que narram nossa miscigenação oriunda de três matrizes étnicas, nosso sincretismo religioso, bem como a citação de homens e movimentos populares.

Mestiçaria é, enfim, uma homenagem às nossas gentes, como dizia Paulo Freire, sem a pretensão de ser panfletária, mas com muito gosto autenticamente brasileiro. E salve Darcy Ribeiro, Betinho, Luiz Gonzaga, Mazzaropi com sua calça de imbira, o gaúcho, o caipira, o cateretê, o fandango, o maculelê!

Ascensão e trajetória

Lula Barbosa começou a carreira aos 15 anos, na efervescência do final dos anos da década de 1970, quando se respirava esperançosos ares da redemocratização política e pipocavam no campo da cultura nacional trabalhos como o do Grupo Semente, que integrava.

No início da década seguinte, Lula Barbosa decidiu se lançar em carreira solo, apresentando-se em um bom número das lendárias casas noturnas do bairro do Bixiga, a exemplo do inesquecível bar Boca da Noite, em São Paulo.

Nesse ambiente, Lula pôde desenvolver sua musicalidade em contato próximo com artistas do quilate de Filó e de Geraldo Cunha, entre tantos outros. A sugestão para que gravasse seu primeiro compacto não tardou. A bolachinha saiu em 1981, por selo independente, e no ano seguinte, Lula Barbosa foi convidado a cantar no LP Cau Pimentel entre amigos.

Quatro anos mais tarde começaria a projeção nacional, caminho que passou a ser pavimentado com a segunda colocação no badalado Festival dos Festivais, da Rede Globo, com Mira Ira,  defendida por ele, Miriam Miràh, Tarancón e Placa Luminosa. Desde então, tornou-se um compositor requisitado, tendo músicas gravadas por diversos nomes prestigiosos da música brasileira, como Roberto Carlos, Fábio Júnior, Jair Rodrigues, Jessé, Sergio Reis, num total que supera 500 músicas gravadas.

Único paulistano de uma família da cidade de Mar de Espanha, no interior de Minas Gerais, talvez por isso mesmo a música de Lula Barbosa reúna com tanta naturalidade o sabor interiorano e a sofisticação urbana, delimitando um imaginário onde esses elementos se combinam criativa e harmoniosamente.

 

Luciano Thel é compositor (letrista), historiador e autor de vários projetos culturais, dentre os quais destacam-se: Olhar Diferente (disco com composições suas e de Zé Alexandre em homenagem a personagens da história do Brasil e do mundo, tais como Gandhi, Frei Caneca e outros, com participação de Oswaldo Montenegro); Africatina ( com vários parceiros cujos ritmos aludem à África e América Latina); Grandes nomes do Brasil (que narra poeticamente a trajetória de personagens marcantes da História do país, de Zumbi a Paulo Freire, com narração de Irineu de Toledo e participações de Orlando Villas-Boas, Gereba, Zé Alexandre e outros); e A história dos festivais de MPB, de 1965 a 1972 (DVD com interpretação de Zé Alexandre, além de narrativas referentes aos bastidores e curiosidades dos festivais do período). É também coautor de Arruar, em parceria com Paulo Delfino e Zé Alexandre, que interpreta o repertório, com participações de Oswaldo Montenegro e Zélia Duncan.

Texto de encerramento do álbum Mestiçaria, de autoria e narrado por Luciano Thel. As ilustrações dão do poeta mato-grossense Gonçalo Arruda

Gonçalo Arruda é um artista consagrado em Mato Grosso e suas obras já circularam por diversas exposições de arte pelo Estado. No ano de 2016, uma de suas telas, como temática sobre monstros, foi selecionada para o Salão Jovem Arte.

Além desse trabalho mais conceitual, Arruda também tem alguns bem populares, que retratam a mestiçagem e a cultura popular do Vale do Rio Cuiabá. São brincadeiras de beira de rio, festejos religiosos que retratam o modo de vida cuiabano e sua mestiçagem étnica.

Arruda diz que muitas dessas telas são inspiradas na sua infância, vivida na cidade de Barão de Melgaço, onde os festejos religiosos eram muito presentes. As cores sempre vibrantes vem dessa memória alegre das festas, do cururu, do siriri, do rasqueado, do modo de ser festeiro do povo mestiço do Brasil.

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