1100 – Cláudio Lacerda lança “Canções para acordar o Sol” e, mais uma vez, lava nossa alma!

Disco com arranjos de  Neymar Dias, Toninho Ferragutti e Levi Ramiro, com participações especiais de Mônica Salmaso e Rolando Boldrin encontra o caipira que existe em compositores como Chico Buarque, Tom Jobim e Gonzaguinha

O cantor, compositor e intérprete paulistano Cláudio Lacerda, hoje radicado num ranchinho beira-chão naquela serra mágica que abriga  Botucatu, no interior de São Paulo, possui não é de hoje o dom de nos deixar de alma lavada! Desde o primeiro dos seus agora cinco álbuns autorais, à frente de projetos solos ou em parcerias com expoentes e companheiros de estrada como Rodrigo Zanc, Luiz Salgado, Wilson Teixeira, Lula Barbosa, Zé Paulo Medeiros, Juca Novaes, Neymar Dias, Thadeu Romano, Alzira E., Daniel Franciscão, Pinho, Paulo Simões, Rodrigo Delage, Júlio Bellodi, Turcão, André Rass, Leonardo Padovani,  Amelinha, Renato Teixeira, sem contar dezenas de participações (sempre especiais) em trabalhos de outros artistas, Cláudio Lacerda nos embevece cantando com a voz que, nele, reside no coração, como um poeta ao narrar todas as cores e sensações de um amanhecer ou entardecer na roça; como um peão que acaba de apear com sua comitiva e narra magnetizando a plateia a longa jornada, tangendo bois e atravessando rios pelo sertão afora; ou como um miguilim com as manhas de contar um causo (verdadeiro!), de pescar sem demora um dourado ou jaú dos “bitelos”, que véve do milho ou feijão que planta e, ainda, conta com os acalantos de uma doce e apaixonada morena, sempre a sua espera em uma palhoça — na qual por mais humilde que seja, para os compadres e amigos, nunca faltam um pedaço de queijo, de bolo de fubá e um gole de café, ou, claro… daquela mais marvada.

Em toda a obra de Cláudio Lacerda é a pluralidade das histórias deste universo e são estes personagens, reais e imaginários, que saltam das notas musicais, ganham vida nas cordas de suas violas ou do violão Gibson e em arranjos que incluem até a participação de orquestras: tudo para (en) cantar e contar, com aguda devoção e quase em louvor, as belezas de um mundo e de uma vida que muitos de nós sonhamos ou um dia sonhávamos ter, mas desgraçadamente, por razões das mais variadas, deixamos ou deixaremos pelo caminho.

O quinto disco, recém-lançado, já pelo título, pega-nos pela aorta e escancara nossas porteiras: Canções para acordar o Sol — que, pela enésima vez desde que o recebemos aqui  na redação do Barulho d’água Música, estamos curtindo–, acelera os batimentos cardíacos, faz o sangue ferver nas veias, bulido por sentimentos bons como saudade, amizade, sede por justiça, o pertencimento a um lugar, a um amor, a uma cultura profunda que vem, bravamente como todo sertanejo, resistindo à aniquilação e ao esvaziamento midiáticos, teimando em renascer a cada dia mesmo depois de noites tormentosas durante as quais até mesmo a fé em ver o astro rei nascer de novo, ao alvorecer, fraquejou.

Feliz metáfora, Canções para acordar o Sol acende vários sóis interiores, reaquece a esperança de que a vida bruta que por ventura e na maioria dos lares nos condena a deixar, contrariados, os pais, os tios, os manos, os amigos e os amores na varanda para correr estrada em busca do vil metal, no campo ou na cidade, não levará a melhor e, por mais que nos marque como rês condenada a caminhar na multidão, à esmo, sempre será possível voltar às origens e se regalar, sossegado, lambuzado os dedos comendo um prosaico torresmo ou ponteando uma viola caipira!

Felicidade, minha gente, a felicidade em seu estado mais original, que nos religue ao simples e, ao mesmo tempo, ao cosmogônico, é tudo o que se quer — ainda que seja experimentada em homeopáticas catarses, efemeramente provocada por uma letra de música e um jeito de interpretá-la que concretize esta busca atávica como a broa completa o café, sorvido em caneca de esmalte ou em lata de massa de tumate! 

A arte, amigos e seguidores, tem este condão, e o artista que Cláudio Lacerda É, mais do que este dom, exerce esta santa vocação por que  jamais dá às costas ao barro do qual foi feito e pisou — incluindo neste solo, sagrado, ora, sim senhor, literalmente, bosta de vaca, experiência das mais agradáveis e que muitos moderninhos que se autointitulam “sertanejos” hoje em dia nunca tiveram, se é que ao menos sabem diferenciar um porco de um garnisé, já que surgem e somem, apenas, para atender conveniências de um mercado desconectado com as tradições e costumes. Como se não bastasse suas impecáveis interpretações, as Canções para acordar o Sol  vêm embaladas em projeto gráfico de Elifas Andreato, foram gravadas sob a direção musical de Luiz Ribeiro, do Estúdio Casa Aberta; os arranjos são de Toninho Ferragutti, Neymar Dias (que também assina o trabalho anterior de Cláudio, Trilha Boiadeira) e Levi Ramiro. Com participações especialíssimas do brasileiríssimo Sr. Rolando Boldrin e de Mônica Salmaso, o repertório de 11 faixas, por fim, deu vida ao desejo de encontrar o caipira que existe nos compositores da urbanizada e sofisticada MPB.

Imagem da capa e da contracapa (criação de Elifas Andreato) do quinto álbum de Cláudio Lacerda, com participações de Rolando Boldrin e Mônica Salmaso

Mais uma vez assumindo sua porção Jeca, Cláudio Lacerda nos encontrou todos espelhados em Tom Jobim, Chico Buarque, Gonzaguinha, Vinícius de Moraes, Belchior, Edu Lobo, Capinam, Sidney Miller; como observou Luiz André do Prado na apresentação do álbum, permitiu-nos “reviver o homem em paz com a natureza” — o que para muitos seria “já quase improvável” –, o qual podemos “revisitar por meio da música de muitos dos afamados compositores brasileiros nascidos e/ou vividos no asfalto”.

Ao Barulho d’água Música, Cláudio Lacerda declarou: “Acredito que acabei sendo coerente com minhas raízes: eu gosto de cantar, simplesmente, e de ser intérprete, e este disco completa  (embora a minha obra ainda não esteja acabada) um pouco as coisas que eu já fiz, primeiro homenageando cantores caipiras e, agora, revelando um pouco do caipira que existe nestes grandes compositores. Espero que o disco toque pessoas atentas e sensíveis”.

Amém!

Vou dar um tempo na redação deste texto apenas para rebobinar as Canções de acordar o Sol  na vitrolinha, mas antes deixo registrada mais esta observação de Prado escrita no encarte: “Ao final deste disco, o ouvinte há de concordar que o que faz um compositor caipira não é o lugar onde ele nasceu, mas o que ele guarda na memória e no coração.”

Canções para acordar o Sol está em estoque e disponível para venda no portal http://www.claudiolacerda.com.br/discografia.php. Ao contatar o autor, procure saber também sobre e adquira, ainda, Alma Lavada, Alma Caipira, Cantador e Trilha Boiadeira — os quatro trabalhos anteriores de Cláudio Lacerda, que, em breve, conforme já se lê na página eletrônica do selo Kuarup, gravará com As Galvão, Consuelo de Paula e Maria Alcina Canta, Inezita, resultado dos shows que eles vêm promovendo em homenagem à Rainha da Música Caipira. com direção de Thiago Marques Luiz.

Para quem mora em Botucatu e região, fica mais uma dica: vá prestigia-lo no dia 3/9, ao lado de Neymar Dias e convidados como Osni Ribeiro e Orquestra Sinfônica de Botucatu, sob a regência do maestro Fernando Ortiz de Villate, em mais uma rodada do projeto Consertão, sobre o qual haverá um linque no final desta matéria com mais informações.

Sucesso, Cródio, neste e em tantos outros projetos que ainda venham pelo caminho!

 

Sobre Cláudio Lacerda:

“Desde da primeira vez que eu ouvi o disco, eu me apaixonei, não só pela consistência dele como compositor mas pela voz dele e a maneira como o disco foi arranjado. A música (regional), como todas as manifestações populares, vai se renovando a medida que o tempo vai passando e novos elementos vão sendo incorporados. O Cláudio é uma pessoa que assimilou esses elementos e os incorporou na sua música de uma forma muito inteligente, que faz com que a música não perca o toque regional, de música de raiz, mas que aponte pra um caminho futuro, pra frente. Isso é fundamental, porque senão a gente fica correndo atrás do próprio rabo. Dessa leva de compositores mais jovens, eu acho que ele é um dos grandes expoentes.” Ivan Vilela, compositor, arranjador,  violeiro, pesquisador e professor da ECA/USP.

 

O Cláudio tem um grande talento, mas o mais importante é a identidade dele com o que faz. A moçada nova é prova de saúde A renovação é sempre importante e fundamental, pois é ela que dá dinâmica na música”. Renato Teixeira, cantor e compositor.

Quando uma pessoa é dotada de grande talento – e o Cláudio é um grande instrumentista, compositor e interprete – e tem uma maneira de ser que contagia as pessoas, ela traz consigo um reforço inestimável para esse segmento da música brasileira que, embora cresça sistematicamente e tenha o carinho e atenção do público, tem infelizmente pouco espaço na mídia. Pelo respeito, amplidão e bom gosto do repertório que escolheu, buscando influências que não são aquelas bombardeadas pela mídia, Cláudio Lacerda demonstra claramente ser um jovem atento, que procura respostas sozinho sem se deixar conduzir”. Paulo Simões, cantor e compositor.

 

Leia mais sobre Cláudio Lacerda e conteúdos relacionados a ele no Barulho d’água Música clicando nos linques abaixo:

https://barulhodeagua.com/tag/claudio-lacerda/

1014 – Piracicaba (SP) é contemplada com a estreia do ConSertão, novo projeto de Cláudio Lacerda, com Neymar Dias e Lula Barbosa*
809 – Correios promovem em Brasília exposição que retrata 50 anos de carreira do artista plástico Elifas Andreato

 

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