1101- “Acabou Chorare”, melhor disco já gravado no Brasil, faz a fama dos Novos Baianos sob as bênçãos de João Gilberto

Segundo disco do grupo, tema de mais uma edição da série Clássico do Mês,
tem nome ‘sugerido’ pela então pequenina Bebel Gilberto, segue a cartilha da  transgressão dos músicos e é um grito de protesto em plenos “anos de chumbo” contra a caretice e a tristeza da música que imperavam no pais

O Barulho d’água Música retoma a série Clássico do Mês dedicando esta atualização ao álbum Acabou Chorare, que o grupo Novos Baianos lançou em 1972.  O conjunto de dez faixas deste disco, uma das quais instrumental,  produzido com a bênção de João Gilberto em um ambiente de completa descontração dentro de um sítio situado em Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro, sustentam simplesmente o primeiro lugar na lista dos 100 melhores já gravados no país desde 2007, de acordo com avaliações dos críticos da Rolling Stone BrasilAcabou Chorare saiu pelo selo Som Livre, dois anos depois do relativo sucesso do É Ferro na Boneca, carregando influência estrondosa do dândi da Bossa Nova, que expandiu todos os horizontes criativos do grupo.

O sucesso que o disco ainda faz, 46 anos depois, deve-se à convergência de gêneros musicais que nunca antes na história haviam estabelecido diálogo: do encontro da guitarra de Jimi Hendrix com o samba de Assis Valente nasceram músicas como Brasil Pandeiro, Tinindo Trincando, Preta Pretinha, Besta é tu e Mistério do Planeta, seguindo a cartilha da experimentação e da transgressão assumida dos integrantes.

Este trabalho resistente ao tempo, como não poderia deixar de ser, tem influenciando diversas gerações de artistas. Pepeu Gomes, Luiz Galvão, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreiraque nesta ordem na foto de apresentação formam os Novos Baianos — tocaram juntos pela primeira vez em Salvador (BA),  no espetáculo Desembarque dos bichos depois do dilúvio (1969), com a banda dos irmãos Pepeu e Jorginho Gomes, que era baterista. Em 1971, depois do É Ferro na Boneca, os cinco se mudaram para o Rio de Janeiro, de onde, depois de dividirem uma cobertura, terminaram levantando acampamento e se mandaram para o sítio situado na estrada para Jacarepaguá, o qual batizaram de o Cantinho/Sítio do Vovô.

Antes de “deitarem o cabelo” para o novo rancho, o grupo pedira proteção musical na nova cidade a João Gilberto, que conhecia a Cidade Maravilhosa desde a adolescência após zarpar de Juazeiro (BA), e  prometeu visitá-los. “Sempre sonhei ter um grupo no qual todos morassem juntos, mas nunca consegui“, teria dito João Gilberto, antes de topar o convite.

O ambiente no sítio de Jacarepaguá foi decisivo e influenciou diretamente a gênese do projeto Acabou Chorare — nome que surgiu por acaso, de um incidente que envolveu a pequena Bebel Gilberto, naquela época ainda criança. Paulinho Boca de Cantor explicou que a debandada do Rio de Janeiro para a chácara também obedeceu à uma estratégia: “Acabamos saindo do Centro porque estávamos manjados, dando pinta. Todo mundo estava cabeludo, nego dando recado. Era melhor arranjar um lugar tranquilo, natural, que tivesse mato.” Paulinho, recordou ainda, chegou a ir em ‘cana’, junto com Moraes Moreira, quando ambos estavam  em um armazém,justamente pelo aspecto cabeludo deles. “Mas logo fomos soltos.”

Este comportamento hippie não deixou de ser registrado nas obras dos Novos Baianos. O primeiro disco já trazia canções, dentre as muitas do grupo, que possuíam várias apologias às drogas, mas que conseguiram “driblar” a censurada férrea do regime milico: a faixa-título, por exemplo, contém o verso olhe o produto que há na bagagem, e não é uma estrada, é uma viagem… Certa vez, ainda no apartamento em Botafogo, baixou um homem que poria “ordem” no grupo. De terno e gravata, ele tocou a campainha e despertou a atenção de Dadi, que logo pensou: “Ih, sujou, Polícia Federal!”. Mas quem ali estava era  João Gilberto, o conterrâneo que veio a a ser o mentor (musical e espiritual) e principal influência dos Novos Baianos durante um bom tempo. Eram frequentes as visitas dele, mesmo em Jacarepaguá; o próprio comentou que ia lá com a esposa Miúcha e a filha pequena Bebel Gilberto “a passeio, e aproveitava a viagem para ouvir o que os malucões estavam tocando, compondo, inventando

Assim, acrescido aos gostos dos Novos Baianos pela então recente Tropicália, pelo choro, o afoxé, o trio elétrico e Jimi Hendrix, os encontros com Gilberto propiciaram novas inspirações e um verdadeiro reencontro com as raízes musicais da Bahia e do Brasil. Galvão relatou que, para os Novos Baianos, João Gilberto apresentava “o samba de verdade de Assis Valente e os aconselhou, junto com a proposta da gravação de Brasil Pandeiro, “a se voltarem para dentro de si mesmos”.

Diversos autores apontam que foi justamente e apenas por conta da presença de Gilberto que se saiu o Acabou Chorare. A faixa de abertura, Brasil Pandeiro, fora proposta por Gilberto e é um dos sambas, ao lado de Recenseamento, que Valente escrevera décadas antes para a recém-chegada dos Estados Unidos Carmen Miranda;  a “Pequena Notável” aceitou a segunda, mas fez beicinho para a primeira, que ficaria relegada até a gravação pelos Anjos do Inferno em 1940, e a releitura, em 1972, pelos Novos Baianos.

O título do álbum e a faixa homônima, além da nota curiosa sobre sua origem, também foram inspirados no estilo de Bossa Nova de João Gilberto e representa a proposta principal do disco de combater com alegria, prazer e jocosidade a tristeza que, então, dominava a música popular brasileira. Preta Pretinha virou mania nacional, Besta é Tu e Tinindo Trincando (esta um belo exemplo da mistura de baião com rock psicodélico) dominaram as rádios do país. E novas gerações de músicos, especialmente cantoras, como Vanessa da Mata, Marisa Monte, Céu, Roberta Sá, Mariana Aydar, beberam nas fontes do Acabou Chorare — que, além de sua fama e amplo reconhecimento crítico, não apenas conquistou a medalha de ouro da lista da Rolling Stone (clique no linque abaixo e conheça a lista) em 2007, mas  é considerada obra-prima pelos estudiosos, produtores e jornalistas.

Os 100 melhores discos do Brasil estão aqui!

A origem do nome

Acabou Chorare é uma contribuição “indireta” de Bebel Gilberto aos Novos Baianos. Em 1972, ainda criança, a filha de João e Miúcha acompanhava o pai para todo canto, incluindo shows pelo México e pelos Estados Unidos, influenciando na formação da fala da menina, que, àquela altura, não conseguia ter domínio do Inglês, do Espanhol e nem, tampouco, do Português, sempre se atrapalhando entre os idiomas na hora de soltar uma frase.

Em uma das idas de João Gilberto ao Cantinho do Vovô, a conversa dele com o grupo fluía com empolgação, regada ao som dos violões, quando Bebel tomou um “rola” e se espatifou sobre o chão, tombo que a fez cair no pranto. O pai, então, botou o violão de lado e, preocupado, saiu em socorro da filha, que notando a preocupação dele e dos amigos, para tentar amenizar o susto, soltou a perola: “Não machucou papai, acabou chorare!”

A frase, no ato, encantou a todos os músicos, soou como um ‘slogan’, poética e bem forte. “Esotericamente saídas da boca de uma criança, tais palavras nos mostravam que chegara a hora de acabar com o choro”, recorda Baby Consuelo. “Tínhamos lacrimejado demais até aquele momento, queríamos o Brasil alegre de volta, pois música daquela época estava bem ‘careta’”. Bebel Gilberto hoje de diverte e fala: “Na minha cabeça, Acabou Chorare é um disco que foi feito pra mim.”

Assis Valente, ao lado de Carmem Miranda, intérprete de 25 composições do baiano autor de Brasil Pandeiro e outros sucessos como Fez Bobagem e Uva de Caminhão

Sobre Assis Valente

Compositor considerado “símbolo da era de ouro” da música brasileira, Assis Valente é autor de canções como E o Mundo Não se Acabou, Brasil Pandeiro e Fez Bobagem. Era, de pia, José de Assis Valente, baiano de 19 de março de 1911, e além de compositor e desenhista, ganhava a vida fazendo próteses dentárias, conforme publicou a Folha de São Paulo, que dedicou a Assis Valente o 22º volume da coleção Folha Raízes da Música Brasileira. Desde 1927 radicado na cidade do Rio de Janeiro, começou a ficar famoso em 1932, aos 21 anos, assinando sambas repletos de senso de humor cotidiano e melancolia poética.

Ao longo das décadas dos anos de 1930 e 1940, Assis Valente colecionou sucessos como a marcha natalina Boas Festas — gravada em 1933, por Carlos Galhardo — e o samba-exaltação Brasil Pandeiro — gravada originalmente em 1940 pelos Anjos do Inferno e regravada, em 1972, pelos Novos Baianos. Carmen Miranda, sua intérprete favorita, imortalizou 25 canções dele —  com destaques para E o Mundo Não se Acabou, Camisa Listada e Uva de Caminhão.

Assis Valente partiu antes do combinado, a 11 de março de 1958, uma semana antes de completar47 anos, após ingestão de guaraná com formicida. O autor do livro da Folha sobre Assis Valente é o jornalista Moacyr Andrade. A edição contem biografia, discografia, letras e fotos, além de um disco com E o Mundo Não se Acabou e Uva de Caminhão, com Carmen Miranda; Fez Bobagem, com Elza Soares; e Brasil Pandeiro, com os Novos Baianos.

Próximo Clássico do Mês (setembro):

Tropicalia ou Panis et Circencis, lançado por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé, acompanhados dos poetas Capinam e Torquato Neto, e do maestro Rogério Duprat – em julho de 1968, tem as bases para o Tropicalismo em sua versão musical – um movimento que mesclou manifestações tradicionais da cultura brasileira a inovações estéticas radicais daquela época, como correntes artísticas de vanguarda e da cultura pop nacional e estrangeira (como o Rock e o Concretismo). Antes de fins sociais e políticos, a Tropicália foi um movimento nitidamente estético e comportamental.

Leia também no Barulho d’água Música da série Clássico do Mês:

1090- Disco de estreia do Quinteto Violado, de 1972, é tema do retorno da série Clássico do Mês
1067 – Canção do amor demais, disco que funda a Bossa Nova, é o novo tema da série “Clássico do Mês”

1051 – Segundo disco de Rita Lee, com Os Mutantes, é destaque do Clássico do Mês

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