1114 – Clássico do Mês: “Tropicália ou Panis et Circensis” completa 50 anos sob o signo da insolência

Músicos construíram neste álbum uma atitude e legaram à cultura do país uma obra que, do extremo lírico ao extremo popular, prima tanto pela qualidade sonora, quanto pelos arranjos de Duprat e pela  provocação 
O Barulho d’água Música retoma nesta atualização a série Clássico do Mês, sempre dedicada a um álbum que  bombou na história da nossa música. Em setembro,  vamos de  Tropicália ou Panis et Circensis,  disco/manifesto que em julho completou  50 anos e reuniu para sua gravação Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Tom Zé, Os Mutantes, Gal Costa, Capinam, Torquato Neto e Rogério Duprat. O texto abaixo é do jornalista  Julinho Bittencourt,  da Revista Fórum:

Com o intuito inevitável de provocar, sob o signo da insolência, jovens e talentosos artistas que marcaram definitivamente a vida nacional para a próxima metade de século, os músicos construíram neste álbum, muito mais do que música, uma atitude que, por mais irônico que pareça, ficou completamente fora do eixo nestes dias tão enquadrados.

Mas a música também vale, e muito, sobretudo toda e qualquer música. Caetano cantar a grandiloquente e dramática Coração Materno, de Vicente Celestino, equivaleria a algo como regravar Márcio Greyck, Odair José ou um funk das favelas do Rio, coisa que o inquieto baiano faz até hoje.

Mas o disco tem mais, muito mais. Com a capacidade de ir do extremo lírico ao extremo popular, passando pela arrasante canção Geleia Geral,  com Gil declamando e interpretando os profusos versos de Torquato Neto, o disco faz jus à lenda que gerou, tanto pela qualidade sonora, pelos arranjos de Rogério Duprat quanto pela pura provocação em si mesmo.

Trata-se, conforme confessou Gilberto Gil anos depois, de um projeto de Caetano Veloso. O leonino provocador com a sua sede por polêmicas, transformações e reviravoltas, liderou a fuzarca. Ao lado dos meninos Mutantes e Tom Zé, reinventou sons que iam de The Beatles às rumbas caribenhas, macumba e Hino ao Senhor do Bonfim. Toda essa reapropriação cultural que veio a explodir décadas mais tarde já era prevista pelos tropicalistas.

Agregadas, as lindas vozes femininas de Gal Costa – com as transformadoras Baby e Mamãe Coragem – e Nara Leão, com a enigmática Lindonéia, inspirada na obra Lindonéia, a Gioconda dos Subúrbios, de Rubens Gerchman, reequilibram o lirismo e a cultura pop, conflito de gerações e erudição.

A prosaica marcha Parque Industrial, contribuição do baiano Tom Zé, reinaugura a narrativa do escárnio satirizando a publicidade e seus produtos, garotas propaganda, jornalismo popular e o banco de sangue engarrafado, tudo made in Brazil.

A emblemática faixa título foi uma das tantas do disco que ganhou carreira própria. Foi regravada várias vezes e o seu refrão se repete sempre que nos pegamos repetindo o passado: “Essas pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”.

No final das contas, o disco fica centrado em desmontar e recriar tradição, pátria e família em Miserere Nobis, de Gil e Capinam, onde a Bíblia e o fuzil se misturam em trocadilhos sem cerimônia. Restava passear escondido, enquanto seu lobo não vem, enquanto a canção faz a nem tão ingênua menção aos clarins da banda militar de Caymmi.

Tropicália ou Panis et Circensis merece ser ouvido pela revisão histórica que faz, pela irreverência e qualidade poética, pelos arranjos, pelos cantores e as composições. Um disco que sempre vai nos ensinar muito sobre o Brasil.

O Tropicalismo foi um movimento de ruptura que sacudiu o ambiente da música popular e da cultura brasileira entre 1967 e 1968. Seus participantes formaram um grande coletivo, cujos destaques foram os cantores-compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, além das participações da cantora Gal Costa e do cantor-compositor Tom Zé, da banda Mutantes, e do maestro Rogério Duprat. A cantora Nara Leão e os letristas José Carlos Capinam e Torquato Neto completaram o grupo, que teve também o artista gráfico, compositor e poeta Rogério Duarte como um de seus principais mentores intelectuais.

Os tropicalistas deram um histórico passo à frente no meio musical brasileiro. A música brasileira pós-Bossa Nova e a definição da “qualidade musical” no país estavam cada vez mais dominadas pelas posições tradicionais ou nacionalistas de movimentos ligados à esquerda. Contra essas tendências, o grupo baiano e seus colaboradores procuram universalizar a linguagem da MPB, incorporando elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica.

Ao mesmo tempo, sintonizaram a eletricidade com as informações da vanguarda erudita por meio dos inovadores arranjos de maestros como Rogério Duprat, Júlio Medaglia e Damiano Cozzela. Ao unir o popular, o pop e o experimentalismo estético, as ideias tropicalistas acabaram impulsionando a modernização não só da música, mas da própria cultura nacional.

Seguindo a melhor das tradições dos grandes compositores da Bossa Nova e incorporando novas informações e referências de seu tempo, o Tropicalismo renovou radicalmente a letra de música. Letristas e poetas, Torquato Neto e Capinam compuseram com Gilberto Gil e Caetano Veloso trabalhos cuja complexidade e qualidade foram marcantes para diferentes gerações. Os diálogos com obras literárias como as de Oswald de Andrade ou dos poetas concretistas elevaram algumas composições tropicalistas ao status de poesia. Suas canções compunham um quadro crítico e complexo do país – uma conjunção do Brasil arcaico e suas tradições, do Brasil moderno e sua cultura de massa e até de um Brasil futurista, com astronautas e discos voadores. Elas sofisticaram o repertório de nossa música popular, instaurando em discos comerciais procedimentos e questões até então associados apenas ao campo das vanguardas conceituais.

Sincrético e inovador, aberto e incorporador, o Tropicalismo misturou rock mais bossa nova, mais samba, mais rumba, mais bolero, mais baião. Sua atuação quebrou as rígidas barreiras que permaneciam no país. Pop x folclore. Alta cultura x cultura de massas. Tradição x vanguarda. Essa ruptura estratégica aprofundou o contato com formas populares ao mesmo tempo em que assumiu atitudes experimentais para a época.

Discos antológicos foram produzidos, como a obra coletiva Tropicália ou Panis et Circensis e os primeiros discos de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Enquanto Caetano entrava em estúdio ao lado dos maestros Júlio Medaglia e Damiano Cozzela, Gil gravava seu disco com os arranjos de Rogério Duprat e da banda os Mutantes. Nesses discos, se registrariam vários clássicos, como as canções-manifesto Tropicália (Caetano) e Geleia Geral (Gil e Torquato).

A televisão foi outro meio fundamental de atuação do grupo – principalmente os festivais de música popular da época. A eclosão do movimento deu-se com as ruidosas apresentações, em arranjos eletrificados, da marcha Alegria, alegria, de Caetano, e da cantiga de capoeira Domingo no parque, de Gilberto Gil, no III Festival de MPB da TV Record, em 1967.

Irreverente, a Tropicália transformou os critérios de gosto vigentes, não só quanto à música e à política, mas também à moral e ao comportamento, ao corpo, ao sexo e ao vestuário. A contracultura hippie foi assimilada, com a adoção da moda dos cabelos longos encaracolados e das roupas escandalosamente coloridas.

O movimento, libertário por excelência, durou pouco mais de um ano e acabou reprimido pelo governo militar. Seu fim começou com a prisão de Gil e Caetano, em dezembro de 1968. A cultura do país, porém, já estava marcada para sempre pela descoberta da modernidade e dos trópicos.

 

Leia também no Barulho d’água Música, da série Clássico do Mês:

1067 – Canção do amor demais, disco que funda a Bossa Nova, é o novo tema da série “Clássico do Mês”
1051 – Segundo disco de Rita Lee, com Os Mutantes, é destaque do Clássico do Mês
1026 – Clássico do Mês destaca Cicatrizes, álbum crítico do MPB4 desafiador para os anos de chumbo

Leia ainda sobre a Tropicália:

http://www.esquerdadiario.com.br/Tropicalia-ou-Panis-et-Circencis

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