1119 – Conheça João Bid, cantor e compositor de Mairinque (SP), autor de “Ensaio sobre nossas coisas”

Músico natural de Mairinque fez parte do grupo Catavento e também se destaca por premiadas obras na literatura e pela montagem de peças teatrais

O acervo do Barulho d’água Música agora conta com Ensaio sobre nossas coisas, segundo álbum solo do cantor e compositor João Bid, de Mairinque ¹ — cidade situada a cerca de 70 quilômetros da capital de São Paulo, com entrada na altura do Km 67 da rodovia Raposo Tavares, no sentido Sorocaba e que em 27 de outubro completará 128 anos. Ensaio sobre nossas coisas marca o aniversário de 60 anos de Bid, que ele comemorou em 2016, quando lançou o álbum gravado em casa e produzido de maneira independente, reunindo 14 músicas inéditas compostas com 13 parceiros ao longo de quase 40 anos de carreira. “A ideia do disco é celebrar as parcerias musicais que a vida me deu“, comentou o artista, que é acompanhado pelo violão de Matheus Pezzotta, jovem talento da vizinha São Roque e filho do também cantor e compositor Edson d’aisa. O disco pode ser encomendado pelo endereço virtual daisaprodcult@bol.com.br. 


 João Bid contou que a fim de priorizar a essência da canção, ou seja, a melodia e a poesia das letras, dispensou banda e arranjos sofisticados para apostar em uma relação mais direta e intimista no disco. Assim, a gravação foi totalmente apoiada na voz do autor e no violão de Pezzotta. Como uma espécie de retrospectiva da carreira, o disco foi concebido de maneira cronológica, abrindo com Palco, passando por outras canções feitas com ex-integrantes da banda Catavento ² e amigos de estrada e de longa amizade, até chegar a músicas mais novas, compostas com parceiros da nova geração como Vinícius Paes, Fabio Gouvea, Pezzota, Edson D’aisa, Robson Silvestrini, Celso Andrade e Lisa Camargo.

“A MPB não envelhece nunca”, acredita Bid, destacando que o disco fecha com Velho olhar, escrita em parceria com Pezzotta, que narra um diálogo entre dois homens de gerações distintas. O álbum também traz também a canção Sonhos, parceria com Joaquim Moreno e que conquistou o Prêmio Sorocaba de Música — Festival Nacional de Música Brasileira de 2013.

 


 O artista, que aprendeu a compor canções de maneira intuitiva, reconhece que sua habilidade como letrista foi sendo aprimorada ao longo dos anos, graças ao respeitável time de parceiros que ora cedem melodias para serem lapidadas com palavras precisas, ora se oferecem para musicar os versos escritos. Satisfeito com o resultado de Ensaio sobre nossas coisas, João Bid afirmou que materializou o álbum que sonhava gravar. “É um disco muito direto e muito verdadeiro. Até os erros estão lá.”

Além de celebrar a vida e as parcerias, Ensaio sobre nossas coisas tem a pretensão, segundo Bid, de ajudar a resgatar o interesse pela contemplação das canções. O compositor comenta que em tempos de acesso facilitado à música por meio da internet e das plataformas digitais, paradoxalmente as pessoas estão menos propensas ao processo de escuta mais aguçada. “E não é só a escuta. Tem essa coisa do CD físico, de pegar no encarte, de ler as letras várias vezes e entender de diferentes formas.”

O mairinquense conta que só tomou coragem para começar a cantar em 1982, “vencido pelo cansaço diante da enorme insistência dos amigos”. Ao contornar a melodia colorida de Palco, música que ele havia acabado de compor em parceria com os amigos Kiko, Chicão e Módolo, selava oficialmente seu ingresso no Catavento. Naquele instante é que se descobriu cantor, compositor, artista, contou em entrevista recente ao jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba.

Em 2003, ainda com o Catavento na ativa, Bid lançou Casmurro na canção, disco que traz dez canções compostas em parceria com Robson Silvestrini baseadas no livro Dom Casmurro, do escritor Machado de Assis. Em 2005, saiu o volume que considera o seu  primeiro álbum solo, O tempo e a paciência, no qual registrou letras musicadas por seus diversos parceiros a partir da crônica homônima do escritor português José Saramago

João Bid tem entre os pontos altos da carreira a participação no grupo Catavento — — até hoje lembrado como um das bandas de MPB mais famosas de toda a região de Sorocaba, na qual se insere Mairinque e São Roque. Ao lado de Kiko, Chicão e Módolo, por mais de uma década, venceu três festivais e atuou em shows por diversas cidades brasileiras e no exterior.

Em janeiro de 1987, quando o grupo gravava um disco pelo selo Eldorado, Kiko e Chico viajaram para outros planos após acidente automobilístico que os envolveu na rodovia Raposo Tavares. O Catavento tentou prosseguir com novos integrantes e até voltou aos estúdios para gravar Novos ventos, velhos amigos, em 2005. Cinco anos depois, entretanto, Abelardo Fonseca também desencarnou e, assim, o grupo encerrou suas atividades. Antes de Novos ventos… a discografia do Catavento já contava com um compacto em vinil, intitulado Disco (1985); Catavento MPB (1991) e Adonirando (1997).

Como compositor, Bid faturou prêmios em vários festivais, com destaque para três: em 1997, venceu a edição daquele ano promovida pelo Conservatório Dramático e Musical Doutor Carlos de Campos, de Tatuí, com a música Para Juliana, composta em parceria com Maria Cândida e interpretada por Lula Barbosa; em 1999, com a composição A Estação Esperando o Trem, também em parceria com Maria Cândida e dedicada à estação ferroviária de Mairinque, arrebatou o Mapa Cultural Paulista; e em 2013, Sonhos, composta em parceria com Joca Moreno, foi campeã  do VIII Prêmio Sorocaba de Música.

Bid, com o violonista Pezzotta, seu parceiro de composições e que toca no álbum que comemora os 60 anos do cantor e compositor

Recentemente Bid protagonizou o projeto Músicas de Resistência, no qual relembra canções de Chico Buarque, Geraldo Vandré e Secos & Molhados com o objetivo de resgatar parte da produção musical da época que se convencionou chamar “anos de chumbo”, cujos governos militares perduraram até 1985 e deram lugar à Nova República. O repertório procura não saudosismos, mas apresentar um escudo à manifestações muitas vezes baseadas em pensamentos rasos e como forma de saudar a liberdade. São canções célebres daquele período de censura e perseguições relidas e um show que não pretendia ser didático, nem panfletário, “mas apenas um instrumento de retomada de um momento de qualidade musical e genialidade artística”. No palco Bid tinha as companhias de Pezzotta (violão), João Prado (flauta) e Gustavo Surian (bateria).

João Bid também tem prêmios na literatura e é diretor e autor de montagens de teatro. Venceu duas edições do festival Depoesia, organizado pelo Instituto Darcy Ribeiro e realizado pelo Depois Bar, em Sorocaba. É coautor da peça Estação Mairinque, resultado de uma oficina de dramaturgia dirigida por Júlio César Pompeo, publicada em 2006, em comemoração aos cem anos de atividades teatrais em e da inauguração da estação ferroviária de Mairinque. É dele Dito Curadô, produzida e encenada pelo grupo de teatro de rua Nativos da Terra Rasgada, de Sorocaba.

Mairinque, 128 anos

¹A região onde atualmente se localiza Mairinque foi inicialmente chamada de Entroncamento, pois nos estudos dos engenheiros da Estrada de Ferro Sorocabana, projetava se ali a construção de uma estação e um grande entroncamento ferroviário da linha que viria de Itu com a linha tronco da Sorocabana, além de onde partiria a futura linha Mairinque-Santos. Na época, a área pertencia ao município de São Roque.

A companhia iniciou as obras de construção das linhas, reservou áreas para as futuras oficinas e loteou parte dos terrenos nas imediações da estação para a criação de uma vila. Em 27 de outubro de 1890 a vila foi fundada as margens da Estrada de Ferro Sorocabana.

Em 1897, juntamente com a inauguração da linha para Itu, a estação recebeu o nome de Mayrink, em homenagem a Francisco de Paula Mayrink, presidente da Sorocabana a partir de 1882. A vila assumiu o nome da estação e passou a se chamar Vila Mayrink, que viria a se tornar o município de Mairinque.

A vila cresceu e em 1902, as oficinas da ferrovia que eram em Sorocaba, foram transferidas para Mairinque, o que fez sua importância aumentar muito mais para a região.

Famosa pelo seu estilo, a estação ferroviária foi idealizada pelo arquiteto francês Victor Dubugras, sendo a primeira arquitetura de concreto armado do Brasil, inaugurado em 1906 depois de dois anos de construção. Abrigou o museu da Estrada de Ferro Sorocabana, mas atualmente está desativada e bastante deteriorada, apesar de ser um cartão postal da cidade e da região.

Vista da centenária e hoje desativada estação ferroviária de Mairinque (Foto: Rubens Hardt)

Em 24 de setembro de 1908, pela Lei Estadual nº 1131, foi criado o Distrito de Paz de Mairinque, no Município e Comarca de São Roque.

Em 1930, a oficina da Estrada de Ferro Sorocabana foi transferida para Sorocaba. Com essa mudança, a Vila iniciou uma queda no desenvolvimento, chegando quase a desaparecer.

Em 1929, começaram as obras da linha Mairinque-Santos da Estrada de Ferro Sorocabana, projetada desde 1889 para quebrar o monopólio da SPR, e ligar o interior paulista ao Porto de Santos. Com duas frentes de trabalho, uma vindo de Santos e outra de Mairinque, o ramal foi concluído em 1937.

Em 1940, a Estrada de Ferro Sorocabana passou a instalar e ampliar suas repartições em Mairinque, tais como: depósito de locomotivas com oficina de manutenção, almoxarifado, sede do Serviço Florestal, sede dos serviços de eletrificação, armazém de abastecimento e principalmente sede dos ferroviários.

A conclusão da linha Mairinque-Santos e as instalações da Sorocabana forjaram definitivamente a vocação de Mairinque até os dias atuais, tornando um dos principais entroncamentos ferroviários do Brasil.

Na década de 1950, a implantação da Companhia Brasileira de Alumínio cooperou muito para o reerguimento do então Distrito de Mairinque, através da implantação da indústria de alumínio na região da Vila do Rodovalho, que se desenvolveu e passou a ser o Distrito de Alumínio.

Em 1953, foi tentada pela primeira vez a emancipação política do Distrito, fracassando porque ainda não havia condições para a instalação. Em 1958, foi criado o Município de Mairinque (através da Lei nº 5285, de 18 de fevereiro de 1959), abrangendo o distrito sede e o distrito de Alumínio. O primeiro prefeito do município foi Arganauto Ortolani.

Em 30 de dezembro de 1991, o distrito de Alumínio foi elevado à categoria de município, desmembrado de Mairinque pela lei estadual nº 7644.O município de Mairinque está situado no interior do estado de São Paulo, a 70 quilômetros da capital, sendo a ela ligada pela Rodovia Raposo Tavares e também servida pela Rodovia Castelo Branco.

² Catavento também é o nome de uma banda gaúcha, de Caxias do Sul, formada em 2011

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