1125 – Brasil perde Badia Medeiros, mestre folião, de catira e violeiro de Minas Gerais

Natural de Unaí (MG), o premiado músico era apaixonado pelo instrumento desde os 8 anos, também tocava violão e sanfona e fez seu último espetáculo em São Paulo há duas semanas, ao lado de Manelim  e Paulo Freire

A cultura popular do país, em especial o universo da viola caipira, está de luto mais uma vez desde a madrugada do sábado, 3/11, quando desencarnou Badia Medeiros, em Formosa, cidade de Goiás. Capitão de Folia do Divino, além de exímio dançador de catira e lundu, mestre Badia, como era reconhecido no meio entre outros expoentes por discípulos dos quilates de Roberto Corrêa e Paulo Freire — que com ele tiveram larga convivência e participaram de inúmeros projetos — estava com 78 anos. O Barulho d’água Música fez várias pesquisas antes de redigir esta atualização, mas entre as escassas informações a respeito de Badia Medeiros nada encontrou sobre sua morte, decorrente de um infarto que sofreu devido a complicações durante uma cirurgia, em Brasília (DF). Os dados sobre a biografia dele, por sinal, além de parcos, são bastante antigos, o que fica evidente sempre que nos deparamos com o dever do ofício de noticiar a partida de um artista do povo, que faz carreira fora dos circuitos comerciais: a imprensa, em geral, e o mercado do entretenimento, vivem apartados, de costas para nossas tradições e os protagonistas que levantam e empunham suas bandeiras, o que é lamentável não apenas para as gerações presentes, mas para as futuras, que não têm e ficarão vazias de referências sobre seus agentes e correm o risco de viver em um país cada vez mais sem memória e com sua múltipla identidade empobrecida e generalizada.

A notícia da morte de Badia, por sinal, foi compartilhada por Corrêa, com quem o mestre vinha atuando no recém-lançado espetáculo O Violeiro — que estreou em agosto, em Brasília (DF), e o Barulho d’água Música, representado por Andreia Beillo, teve a sorte de prestigiar como convidado pelos produtores no teatro da Caixa Cultural do Distrito Federal. Andreia voltou a São Roque encantada, não apenas pela qualidade do espetáculo que mescla teatro, dança e música, mas pela participação de Badia — que, apesar da aparente fragilidade, a fez ficar em pé, como ademais o resto da plateia, para aplaudir sua vigorosa e ao mesmo tempo delicada apresentação solo de catira que precedeu entrada em cena do grupo que ele comandava; Badia fora levado ao palco amparado, apoiado por um assistente, mas dançou com tanta magia e graça que até hoje Andreia se emociona ao relatar o que teve a felicidade de assistir.

Com Paulo Freire, por sinal, ocorreu a última apresentação em público do mestre Badia. Em 21 de outubro recente, o violeiro de Campinas (SP) o convidou para ao seu lado e ao de Manoel de Oliveira, conhecido como mestre Manelim, protagonizarem no teatro da galeria Itaú Cultural, em São Paulo, o espetáculo A Viola no Sertão Roseano, concerto baseado em vivências e causos inspirados na obra de Guimarães Rosa para celebrar os 110 anos de nascimento do escritor de Grande Sertão: Veredas.

Com Roberto Corrêa, mestre Badia  protagonizava o espetáculo “O Violeiro” e participou de inúmeros projetos, como a gravação de Esbrangente, também com Paulo Freire

Badia Medeiros, Paulo Freire e Roberto Corrêa gravaram juntos Esbrangente, álbum lançado em 2003 que derivou do giro que o trio fizera no ano anterior como uma das atrações do projeto de envergadura nacional do SESC Sonora Brasil, que percorrera 36 cidades de oito estados brasileiros. Badia participa de Esbrangente — cujo nome, por sinal, deriva do seu jeito sertanejo de falar abrangente —  em quatro faixas de autoria dele, interpretando juntamente com  Corrêa Inhuma do Badia, Quase Verdade, Fogo na Macega, e Desembolada.

Esbrangente não é a única obra de Badia, cujo corpo foi velado em Formosa antes de ser trasladado para Unaí, em Minas Gerais, onde nasceu em 1940, na Fazenda Galho, como Badia Alves Medeiros, conforme publicou Ricardinho, autor do blogue Boa Música Brasileira, desde 2003 dedicado à preservação da memória musical brasileira, com ênfase à música caipira. Ainda segundo os apontamentos de Ricardinho, em 2004 Badia gravou o primeiro CD solo, Badia Medeiros – Um Mestre do Sertão, lançado pela Viola Correa Produções Artísticas, empresa de Roberto Corrêa.  Antes, Badia fizera registros sonoros de suas músicas — como por exemplo, em 1999, em Sertão Ponteado – Memórias Musicais do Entorno do DF, com gravações originais da tradição popular. Com pesquisa de Roberto Corrêa e Juliana Saenger, esse álbum acabou indicado para o Prêmio Rodrigo Melo Franco, realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e integrou a série Cultura Popular Viola Corrêa. E, em 2001, Badia Medeiros participou do projeto que resultou em 10 discos intitulado disco Cartografia Musical Brasileira da Região Centro-Oeste.

Na televisão, Badia participou de programas como Viola Minha Viola, de Inezita Barroso (TV Cultura), Clima de Fazenda (TV Brasília/ BAND) e Entre Amigos (Canal Rural); como violeiro e sanfoneiro da peça teatral Rosanegra, da Companhia dos Sonhos, dirigida por Hugo Rodas (em Brasília, estreada em 2002. Ele também foi protagonista do livro Os Tocadores – homem, terra, música e cordas (Olaria Cultural, 2002), o qual ficou registrado um pouco sobre as tradições das quais é representante.

 

Foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press/10/12/11)

A jornalista e blogueira Nahima Maciel, reforçando Ricardinho, escreveu em setembro para a versão online do Correio Braziliense que Badia Medeiros foi “nascido e criado no mundo caipira” e se tornou “um dos nomes mais importantes da viola no Centro-Oeste”, onde fincou raízes vindo de Unaí para se estabelecer em Formosa, depois de passar 23 anos em Buriti de Minas, já casado com Dona Cesária, sua companheira desde 1965; Ricardinho destaca que em Formosa Badia “fabricava e vendia doces de porta em porta, de bicicleta, juntamente com sua esposa”; “algum tempo depois, Badia começou a consertar instrumentos musicais de corda”

Nahima descobriu que Badia começou a tocar viola aos 8 anos, época em que o pai  “dava ponto na folia” e tinha “uma viola que não tocava”. Interessado, o piá perguntava sobre a violinha dependurada até que o pai pai mandou um compadre afinar o instrumento e o entregou ao filho. “A intimidade surgiu rapidamente”, disse ele à blogueira.

Em sua última apresentação, entre Manelim e Paulo Freire (com o braço erguido), em São Paulo, Badia Medeiros prestou tributo a Guimarães Rosa (Foto: Angélica Del Nery)

Badia foi levado por um amigo da família para tocar nas folias, mas como ainda era pequeno, precisava subir em um banquinho, para, com a viola em punho, acompanhar as rezas e cantorias. “Ia na garupa do cavalo do amigo do pai. Aos poucos, à viola ele acrescentou o violão, a sanfona e o acordeão”, apontou Nahima. A carreira profissional, já com carteirinha da Ordem dos Músicos e tudo começou em 1995, depois de um show ao lado de Corrêa em São Paulo.

Dali para frente, intercalando escalas em vários lugares do país, gravou quatro discos  e arrebatou alguns prêmios — como o Renato Russo, em 1998 — e seleção para o programa Rumos Itaú Cultural 2000, que resultou no disco Cartografia Musical Brasileira da Região Centro-Oeste.

Badia Medeiros “é mais uma biblioteca que se fecha, um museu que se incendeia e os brasileiros nem conseguiram conhecer”, escreveu em sua página social José Marcos Pires Bueno, produtor cultural na empresa Pôr do Som, mantenedora de um selo independente. Outros músicos como Enúbio Queiróz, Rodrigo Delage, Fernando Deghi, Levi Ramiro e Ricardo Denchuski, além de Myriam Taubkin,  também publicaram mensagens de pesar e de condolências à família lamentando a perda do valoroso colega e para o brasiliense Markin Garcia seu Badia foi dançar lundu, pontear viola e sapatear nas paredes do céu”.

Leia também no Barulho d’água Música:

1097 – Roberto Corrêa estreia novo projeto no Teatro da Caixa, em Brasília (DF)
605 – Levi Ramiro e Paulo Freire abrem em Sampa série de 130 concertos que protagonizarão pelo 18º Sonora Brasil
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